Marcos Fava Neves

Economista

Marcos

Fava Neves

professor titular de planejamento e estratégia na FEA/USP Campus Ribeirão Preto e coordenador científico do Markestrat.

revistacanavieiros@revistacanavieiros.com.br

Confiança e investimentos voltam ao Brasil

 
30/08/2016

O que acontece com nosso Agro?
 Em agosto sai a estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) para a safra norte-americana de milho e soja. Como o clima vem sendo bom, e os ratings muito positivos, é de se esperar a apresentação de números bem próximos dos recordes produtivos. 
 A grande notícia do mês foi a abertura do mercado norte-americano para exportações de carne bovina in natura do Brasil. Apesar da quantidade ainda ser modesta (60.000 toneladas/ano), o fato deste mercado ser aberto ajuda muito na abertura de outros mercados que usam os EUA como parâmetro, e mesmo com carga tributária de pouco mais de 20% no que exceder as 60 mil toneladas, temos condições de colocar produtos de maneira crescente.
 Recente estimativa da ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) coloca que o Brasil deve exportar neste ano praticamente US$ 26 bilhões em soja.
 Relatório 11 (agosto) da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) desta safra mostra uma área plantada de 58,2 milhões de hectares, 0,6% (328 mil hectares) a mais que na safra 2014/15. A soja puxou os números, aumentando cerca de 1,2 milhão de hectares (total de 33,2 milhões de hectares). O milho, safra principal, teve redução de 12,2% na área (5,4 milhões de hectares) e o safrinha aumentou 10,2% atingindo 10,5 milhões de hectares. 
 Devemos alcançar 188,1 milhões de toneladas de grãos, 9,5% menor que as 207,8 milhões colhidas em 2014/15. O clima nos ajudou a perder quase 20 milhões de toneladas. Que pena, temos preços, mas não temos produtos para vender na quantidade que queríamos.
O que acontece com nossa cana?
 Relatório da UNICA (União da Indústria da Cana-de-açúcar) da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra moagem de 261,4 milhões de toneladas, 16% acima da safra anterior. A cana destinada para açúcar está em 44,21% contra 40,15% no ano passado. A quantidade de ATR está ligeiramente acima (0,63%), com 133,25 kg/t. Mas em SP, o ATR está menor (130,51).
 Temos que monitorar de perto os preços do petróleo. O recente recuo para US$ 44/barril atua negativamente nos preços do açúcar. Somado à valorização do Real, voltam as pressões para redução dos preços da gasolina, impactando o etanol e o açúcar. Se bem que abre espaço para a volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, sem impactar o preço final.
 De acordo com a FG/Agro, em agosto a margem de grupos muito eficientes estava ao redor de R$ 55/ton de cana processada para o açúcar e R$ 20 para o etanol, sem se considerar o capital investido. Açúcar daria um faturamento de R$ 170/tonelada equivalente, e o etanol R$ 120. 
 Desempenho operacional da Odebrecht melhorou 23% na safra 2015/16, mas o custo financeiro impactou para um prejuízo de R$ 1,9 bilhão no ano. Projeta moer 31 milhões de toneladas em 2016/17. É mais um caso onde a operação é drenada pelo financeiro.
 A Nova Fronteira (joint venture entre São Martinho e Petrobrás) registrou lucro líquido de R$ 148,2 milhões em 2015/16. O lucro operacional aumentou quase 80% e as despesas financeiras 6,5%. 
 Abengoa Brasil registrou prejuízo de R$ 162,9 milhões em 2015/16, 15% maior que o de 2014/15. Custos aumentaram e piorou a situação operacional em mais de 58%, que deu prejuízo de R$ 140 milhões. Despesas financeiras aumentaram 67%, quase R$ 390 milhões, corroendo fortemente a receita total de R$ 673 milhões. A dívida chega a R$ 949 milhões, quase 33% acima do ano anterior. 
 São Martinho deu lucro de R$ 39,7 milhões no primeiro trimestre da safra 2016/17, 26% acima do ano passado. A receita aumentou 50%, e o 
Ebitda também perto disto.
 Neste mês tive interessante reunião com um investidor em novos usos para a cana-de-açúcar e seus produtos derivados, compartilho aqui:
- Sacaria de plástico biodegradável para big bags de fertilizantes, Brasil 40.000 ton/ano, EUA 250.000 ton/ano em plástico;
- Sacos de rafia biodegradável para utilização em mercado de sementes, entre outros;
- Tubetes biodegradáveis (indústria de papel e celulose, indústria da cana – mudas);
- Plástico rígido biodegradável (ex: tampinhas de Coca-Cola usariam 1,2 mi ton de açúcar ano);
- Inversão do açúcar – utilização de enzima que permite quase 100% de inversão, produto sem os resíduos que a inversão ácida deixa;
- Biocontrole de pragas e biofertilizantes (economia de 30% a 40% no uso destes insumos comparados à forma tradicional);
- 1 tonelada de cana = 65kg de plástico (R$ 8/kg )  e  15 kg de proteínas (R$ 3/Kg)   totalizando receitas de  R$ 565 / ton de cana;   
-  Custo de produção de 1 Kg de biopolímero e 235 gramas de proteína equivalente a 2,45 x o custo industrial da produção de 1 Kg de açúcar + valor de venda de 2 Kg de açúcar VHP.
 
O que acontece com nosso açúcar?
 Relatório da UNICA da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra que a produção de açúcar já alcançou 13,81 milhões de toneladas e está 30% acima da safra anterior. Com o tempo seco o rendimento está sendo excelente.  
 Vendas de açúcar bruto e refinado de janeiro a julho de 2016 chegaram a 15,415 milhões de toneladas, 22% acima de 2015. As receitas cresceram 17%, chegando a quase US$ 5 bilhões. O preço médio foi de US$ 323/tonelada.
 Perspectivas de preços ao redor de 20 cents/libra peso nos próximos dois anos. Valorização do real deve compensar um pouco as elevações de preços devido aos deficits previstos. 
 Usinas investem para ampliar a capacidade de produção de açúcar aumentando seu poder de decisão de alocação do caldo.
 Alguns grupos também estão segurando a moagem para permitir um mix açucareiro maior.  
 A Datagro elevou a perspectiva de deficit no mercado de açúcar de 7,1 para 8,9 milhões de toneladas no ciclo 2016/17 (outubro a setembro). Para 2015/16, o deficit será de 7,72 milhões de toneladas, o que dá um deficit acumulado em dois anos de mais de 16,5 milhões de toneladas. 
 Relatório da FAO/ONU recém divulgado aponta redução dos estoques mundiais de açúcar de 45% hoje para 39% em 2025.
 Usinas já fixando a produção de 2017/18, a um preço médio, segundo a Archer, de R$ 1.509/tonelada com quase 2 milhões de toneladas fixadas. Este movimento deve continuar avançando com este patamar de preços. Nesta safra o preço médio ficou em R$ 1267/ton. A São Martinho travou 150 mil toneladas a 19 cents/libra peso.
 Acaba de sair uma estimativa que a safra do principal estado produtor da Índia, Maharashtra, terá quebra de produção de 40% na safra que começa em outubro, devendo forçar a Índia a importar. Deve perder quase 3,5 milhões de toneladas com quase 40 usinas ficando sem cana para moer. Mais uma boa notícia: estão doces as perspectivas do açúcar!!!
O que acontece com nosso etanol?
 Em termos de consumo de combustíveis automotivos, o Brasil é o quarto mercado do mundo (em 2015 foi de 2 milhões de barris por dia, algo próximo a 116 bilhões de litros). Mais de 70% são fósseis e temos uma dependência de 350 mil barris/dia. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) teremos deficit de mais de 1 milhão de barris por dia a partir de 2026. A opção será a de importar ou investir para produzir internamente. Para importar, será preciso grande investimento em infraestrutura de recebimento nos portos e de transporte para dentro do país, além da formação de estoques. É lógico que nós somos pela produção interna, e de etanol.
 Por ser um imposto que causa inflação, a volta da CIDE na gasolina tem este fator pesando contra, a menos que seja aplicada caso os preços do petróleo e da gasolina caiam. 
 Estamos importando etanol dos EUA para abastecer o Nordeste. Isto causa arrepios em muitos, mas não em mim. Quem quer vender também pode comprar. Isto é comércio, algo que deve sempre ser bilateral.  
 Algumas estimativas apontam para um preço do barril do petróleo começando a subir novamente, pois a demanda vem surpreendendo, apesar dos estoques de gasolina elevados. Apontam para US$ 50 a 70 o barril neste final de ano. Mas nada que incentive novos investimentos das petrolíferas. Já o Morgan Stanley projeta números ao redor de US$ 40, sendo a média para 2016 de US$ 42 e de 2017 de US$ 51/barril. Talvez um número médio de US$ 45 neste ano e US$ 55 no próximo possa ser o que adotaremos. 
 O compromisso do Brasil na COP 21 em Paris foi colocado e nos leva a 50 bilhões de litros de etanol. O Governo também trabalha com o número de 54 bilhões de litros, 75% a mais que a atual safra (28 bilhões). A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) calculou quanto seria necessário, baseando-se num critério de adição de 27% na gasolina, e a participação do etanol nos veículos de ciclo Otto chegaria a 45% em 2030. O consumo de anidro aumentaria 40,8% (7,6 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2014 para 10,7 bilhões de litros em 2030). Já o hidratado cresceria 145%, passando de 9,3 bilhões de litros para 22,8 bilhões. O total seria de 33,5 bilhões de litros em gasolina equivalente. Para isto se necessita de 1,074 bilhão de toneladas de cana (47% a mais que hoje) e destinando mais cana para etanol. Neste momento, cerca de 51 bilhões de litros seriam de etanol de primeira geração e os outros 3 bilhões de segunda geração.
 Ainda segundo a EPE, em 2030 seriam demandados 41,8 bilhões de litros de gasolina, sendo que nossa capacidade atual é de 29 bilhões de litros. 12,8 bilhões de litros teriam que ser importados. Precisamos divulgar estes números para que a sociedade se mobilize para um novo ciclo de investimentos.
 Desde o início da safra o Brasil exportou quase 450 milhões de litros de etanol, 121% a mais que ano passado, trazendo uma receita de US$ 207 milhões. Parte importante tem ido à Califórnia. Nos últimos 12 meses os embarques foram de 2,4 bilhões de litros.
 Neste mês o açúcar nos dá melhores notícias que o etanol, apesar do imenso potencial deste, como vimos acima.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Roberto Cestari, aguerrido líder setorial com o qual eu tenho o privilégio de debater e discutir há mais de cinco anos, seja em Guariba como em Orindiúva, sempre com uma mesma visão setorial e de inclusão social pelo coletivismo.
Haja Limão
 Com 59 votos favoráveis e 21 contrários o Brasil, na madrugada de 10 de agosto, deu um passo praticamente definitivo para se livrar de Dilma Rousseff e do lulopetismo, um triste período de nossa história, onde uma visão equivocada de mundo aliada a um desrespeito sem precedentes com o patrimônio público, atrasou o país em uma geração, pelo menos. O Brasil já segura, faltando apenas colocar no pescoço sua mais importante medalha de ouro, que trará de volta a confiança, os investimentos, o crescimento com geração e distribuição de renda e a inclusão social sustentável. Resgatará os valores de nossa sociedade, a nossa gana individual de esforço, trabalho e mérito que formará uma contagiante onda coletiva visando deixar um país muito melhor para nossos filhos. Acordo com uma sensação incrível de leveza, consciente do infinito trabalho de reconstrução pela frente, mas agora com imensa, imensa vontade de trabalhar.  
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.
O que acontece com nosso Agro?
 Em agosto sai a estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) para a safra norte-americana de milho e soja. Como o clima vem sendo bom, e os ratings muito positivos, é de se esperar a apresentação de números bem próximos dos recordes produtivos. 
 A grande notícia do mês foi a abertura do mercado norte-americano para exportações de carne bovina in natura do Brasil. Apesar da quantidade ainda ser modesta (60.000 toneladas/ano), o fato deste mercado ser aberto ajuda muito na abertura de outros mercados que usam os EUA como parâmetro, e mesmo com carga tributária de pouco mais de 20% no que exceder as 60 mil toneladas, temos condições de colocar produtos de maneira crescente.
 Recente estimativa da ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) coloca que o Brasil deve exportar neste ano praticamente US$ 26 bilhões em soja.
 Relatório 11 (agosto) da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) desta safra mostra uma área plantada de 58,2 milhões de hectares, 0,6% (328 mil hectares) a mais que na safra 2014/15. A soja puxou os números, aumentando cerca de 1,2 milhão de hectares (total de 33,2 milhões de hectares). O milho, safra principal, teve redução de 12,2% na área (5,4 milhões de hectares) e o safrinha aumentou 10,2% atingindo 10,5 milhões de hectares. 
 Devemos alcançar 188,1 milhões de toneladas de grãos, 9,5% menor que as 207,8 milhões colhidas em 2014/15. O clima nos ajudou a perder quase 20 milhões de toneladas. Que pena, temos preços, mas não temos produtos para vender na quantidade que queríamos.
O que acontece com nossa cana?
 Relatório da UNICA (União da Indústria da Cana-de-açúcar) da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra moagem de 261,4 milhões de toneladas, 16% acima da safra anterior. A cana destinada para açúcar está em 44,21% contra 40,15% no ano passado. A quantidade de ATR está ligeiramente acima (0,63%), com 133,25 kg/t. Mas em SP, o ATR está menor (130,51).
 Temos que monitorar de perto os preços do petróleo. O recente recuo para US$ 44/barril atua negativamente nos preços do açúcar. Somado à valorização do Real, voltam as pressões para redução dos preços da gasolina, impactando o etanol e o açúcar. Se bem que abre espaço para a volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, sem impactar o preço final.
 De acordo com a FG/Agro, em agosto a margem de grupos muito eficientes estava ao redor de R$ 55/ton de cana processada para o açúcar e R$ 20 para o etanol, sem se considerar o capital investido. Açúcar daria um faturamento de R$ 170/tonelada equivalente, e o etanol R$ 120. 
 Desempenho operacional da Odebrecht melhorou 23% na safra 2015/16, mas o custo financeiro impactou para um prejuízo de R$ 1,9 bilhão no ano. Projeta moer 31 milhões de toneladas em 2016/17. É mais um caso onde a operação é drenada pelo financeiro.
 A Nova Fronteira (joint venture entre São Martinho e Petrobrás) registrou lucro líquido de R$ 148,2 milhões em 2015/16. O lucro operacional aumentou quase 80% e as despesas financeiras 6,5%. 
 Abengoa Brasil registrou prejuízo de R$ 162,9 milhões em 2015/16, 15% maior que o de 2014/15. Custos aumentaram e piorou a situação operacional em mais de 58%, que deu prejuízo de R$ 140 milhões. Despesas financeiras aumentaram 67%, quase R$ 390 milhões, corroendo fortemente a receita total de R$ 673 milhões. A dívida chega a R$ 949 milhões, quase 33% acima do ano anterior. 
 São Martinho deu lucro de R$ 39,7 milhões no primeiro trimestre da safra 2016/17, 26% acima do ano passado. A receita aumentou 50%, e o 
Ebitda também perto disto.
 Neste mês tive interessante reunião com um investidor em novos usos para a cana-de-açúcar e seus produtos derivados, compartilho aqui:
- Sacaria de plástico biodegradável para big bags de fertilizantes, Brasil 40.000 ton/ano, EUA 250.000 ton/ano em plástico;
- Sacos de rafia biodegradável para utilização em mercado de sementes, entre outros;
- Tubetes biodegradáveis (indústria de papel e celulose, indústria da cana – mudas);
- Plástico rígido biodegradável (ex: tampinhas de Coca-Cola usariam 1,2 mi ton de açúcar ano);
- Inversão do açúcar – utilização de enzima que permite quase 100% de inversão, produto sem os resíduos que a inversão ácida deixa;
- Biocontrole de pragas e biofertilizantes (economia de 30% a 40% no uso destes insumos comparados à forma tradicional);
- 1 tonelada de cana = 65kg de plástico (R$ 8/kg )  e  15 kg de proteínas (R$ 3/Kg)   totalizando receitas de  R$ 565 / ton de cana;   
-  Custo de produção de 1 Kg de biopolímero e 235 gramas de proteína equivalente a 2,45 x o custo industrial da produção de 1 Kg de açúcar + valor de venda de 2 Kg de açúcar VHP.
 
O que acontece com nosso açúcar?
 Relatório da UNICA da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra que a produção de açúcar já alcançou 13,81 milhões de toneladas e está 30% acima da safra anterior. Com o tempo seco o rendimento está sendo excelente.  
 Vendas de açúcar bruto e refinado de janeiro a julho de 2016 chegaram a 15,415 milhões de toneladas, 22% acima de 2015. As receitas cresceram 17%, chegando a quase US$ 5 bilhões. O preço médio foi de US$ 323/tonelada.
 Perspectivas de preços ao redor de 20 cents/libra peso nos próximos dois anos. Valorização do real deve compensar um pouco as elevações de preços devido aos deficits previstos. 
 Usinas investem para ampliar a capacidade de produção de açúcar aumentando seu poder de decisão de alocação do caldo.
 Alguns grupos também estão segurando a moagem para permitir um mix açucareiro maior.  
 A Datagro elevou a perspectiva de deficit no mercado de açúcar de 7,1 para 8,9 milhões de toneladas no ciclo 2016/17 (outubro a setembro). Para 2015/16, o deficit será de 7,72 milhões de toneladas, o que dá um deficit acumulado em dois anos de mais de 16,5 milhões de toneladas. 
 Relatório da FAO/ONU recém divulgado aponta redução dos estoques mundiais de açúcar de 45% hoje para 39% em 2025.
 Usinas já fixando a produção de 2017/18, a um preço médio, segundo a Archer, de R$ 1.509/tonelada com quase 2 milhões de toneladas fixadas. Este movimento deve continuar avançando com este patamar de preços. Nesta safra o preço médio ficou em R$ 1267/ton. A São Martinho travou 150 mil toneladas a 19 cents/libra peso.
 Acaba de sair uma estimativa que a safra do principal estado produtor da Índia, Maharashtra, terá quebra de produção de 40% na safra que começa em outubro, devendo forçar a Índia a importar. Deve perder quase 3,5 milhões de toneladas com quase 40 usinas ficando sem cana para moer. Mais uma boa notícia: estão doces as perspectivas do açúcar!!!
O que acontece com nosso etanol?
 Em termos de consumo de combustíveis automotivos, o Brasil é o quarto mercado do mundo (em 2015 foi de 2 milhões de barris por dia, algo próximo a 116 bilhões de litros). Mais de 70% são fósseis e temos uma dependência de 350 mil barris/dia. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) teremos deficit de mais de 1 milhão de barris por dia a partir de 2026. A opção será a de importar ou investir para produzir internamente. Para importar, será preciso grande investimento em infraestrutura de recebimento nos portos e de transporte para dentro do país, além da formação de estoques. É lógico que nós somos pela produção interna, e de etanol.
 Por ser um imposto que causa inflação, a volta da CIDE na gasolina tem este fator pesando contra, a menos que seja aplicada caso os preços do petróleo e da gasolina caiam. 
 Estamos importando etanol dos EUA para abastecer o Nordeste. Isto causa arrepios em muitos, mas não em mim. Quem quer vender também pode comprar. Isto é comércio, algo que deve sempre ser bilateral.  
 Algumas estimativas apontam para um preço do barril do petróleo começando a subir novamente, pois a demanda vem surpreendendo, apesar dos estoques de gasolina elevados. Apontam para US$ 50 a 70 o barril neste final de ano. Mas nada que incentive novos investimentos das petrolíferas. Já o Morgan Stanley projeta números ao redor de US$ 40, sendo a média para 2016 de US$ 42 e de 2017 de US$ 51/barril. Talvez um número médio de US$ 45 neste ano e US$ 55 no próximo possa ser o que adotaremos. 
 O compromisso do Brasil na COP 21 em Paris foi colocado e nos leva a 50 bilhões de litros de etanol. O Governo também trabalha com o número de 54 bilhões de litros, 75% a mais que a atual safra (28 bilhões). A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) calculou quanto seria necessário, baseando-se num critério de adição de 27% na gasolina, e a participação do etanol nos veículos de ciclo Otto chegaria a 45% em 2030. O consumo de anidro aumentaria 40,8% (7,6 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2014 para 10,7 bilhões de litros em 2030). Já o hidratado cresceria 145%, passando de 9,3 bilhões de litros para 22,8 bilhões. O total seria de 33,5 bilhões de litros em gasolina equivalente. Para isto se necessita de 1,074 bilhão de toneladas de cana (47% a mais que hoje) e destinando mais cana para etanol. Neste momento, cerca de 51 bilhões de litros seriam de etanol de primeira geração e os outros 3 bilhões de segunda geração.
 Ainda segundo a EPE, em 2030 seriam demandados 41,8 bilhões de litros de gasolina, sendo que nossa capacidade atual é de 29 bilhões de litros. 12,8 bilhões de litros teriam que ser importados. Precisamos divulgar estes números para que a sociedade se mobilize para um novo ciclo de investimentos.
 Desde o início da safra o Brasil exportou quase 450 milhões de litros de etanol, 121% a mais que ano passado, trazendo uma receita de US$ 207 milhões. Parte importante tem ido à Califórnia. Nos últimos 12 meses os embarques foram de 2,4 bilhões de litros.
 Neste mês o açúcar nos dá melhores notícias que o etanol, apesar do imenso potencial deste, como vimos acima.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Roberto Cestari, aguerrido líder setorial com o qual eu tenho o privilégio de debater e discutir há mais de cinco anos, seja em Guariba como em Orindiúva, sempre com uma mesma visão setorial e de inclusão social pelo coletivismo.
Haja Limão
 Com 59 votos favoráveis e 21 contrários o Brasil, na madrugada de 10 de agosto, deu um passo praticamente definitivo para se livrar de Dilma Rousseff e do lulopetismo, um triste período de nossa história, onde uma visão equivocada de mundo aliada a um desrespeito sem precedentes com o patrimônio público, atrasou o país em uma geração, pelo menos. O Brasil já segura, faltando apenas colocar no pescoço sua mais importante medalha de ouro, que trará de volta a confiança, os investimentos, o crescimento com geração e distribuição de renda e a inclusão social sustentável. Resgatará os valores de nossa sociedade, a nossa gana individual de esforço, trabalho e mérito que formará uma contagiante onda coletiva visando deixar um país muito melhor para nossos filhos. Acordo com uma sensação incrível de leveza, consciente do infinito trabalho de reconstrução pela frente, mas agora com imensa, imensa vontade de trabalhar.  
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.

Confiança e investimentos voltam ao Brasil

30/08/2016

O que acontece com nosso Agro?
 Em agosto sai a estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) para a safra norte-americana de milho e soja. Como o clima vem sendo bom, e os ratings muito positivos, é de se esperar a apresentação de números bem próximos dos recordes produtivos. 
 A grande notícia do mês foi a abertura do mercado norte-americano para exportações de carne bovina in natura do Brasil. Apesar da quantidade ainda ser modesta (60.000 toneladas/ano), o fato deste mercado ser aberto ajuda muito na abertura de outros mercados que usam os EUA como parâmetro, e mesmo com carga tributária de pouco mais de 20% no que exceder as 60 mil toneladas, temos condições de colocar produtos de maneira crescente.
 Recente estimativa da ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) coloca que o Brasil deve exportar neste ano praticamente US$ 26 bilhões em soja.
 Relatório 11 (agosto) da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) desta safra mostra uma área plantada de 58,2 milhões de hectares, 0,6% (328 mil hectares) a mais que na safra 2014/15. A soja puxou os números, aumentando cerca de 1,2 milhão de hectares (total de 33,2 milhões de hectares). O milho, safra principal, teve redução de 12,2% na área (5,4 milhões de hectares) e o safrinha aumentou 10,2% atingindo 10,5 milhões de hectares. 
 Devemos alcançar 188,1 milhões de toneladas de grãos, 9,5% menor que as 207,8 milhões colhidas em 2014/15. O clima nos ajudou a perder quase 20 milhões de toneladas. Que pena, temos preços, mas não temos produtos para vender na quantidade que queríamos.
O que acontece com nossa cana?
 Relatório da UNICA (União da Indústria da Cana-de-açúcar) da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra moagem de 261,4 milhões de toneladas, 16% acima da safra anterior. A cana destinada para açúcar está em 44,21% contra 40,15% no ano passado. A quantidade de ATR está ligeiramente acima (0,63%), com 133,25 kg/t. Mas em SP, o ATR está menor (130,51).
 Temos que monitorar de perto os preços do petróleo. O recente recuo para US$ 44/barril atua negativamente nos preços do açúcar. Somado à valorização do Real, voltam as pressões para redução dos preços da gasolina, impactando o etanol e o açúcar. Se bem que abre espaço para a volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, sem impactar o preço final.
 De acordo com a FG/Agro, em agosto a margem de grupos muito eficientes estava ao redor de R$ 55/ton de cana processada para o açúcar e R$ 20 para o etanol, sem se considerar o capital investido. Açúcar daria um faturamento de R$ 170/tonelada equivalente, e o etanol R$ 120. 
 Desempenho operacional da Odebrecht melhorou 23% na safra 2015/16, mas o custo financeiro impactou para um prejuízo de R$ 1,9 bilhão no ano. Projeta moer 31 milhões de toneladas em 2016/17. É mais um caso onde a operação é drenada pelo financeiro.
 A Nova Fronteira (joint venture entre São Martinho e Petrobrás) registrou lucro líquido de R$ 148,2 milhões em 2015/16. O lucro operacional aumentou quase 80% e as despesas financeiras 6,5%. 
 Abengoa Brasil registrou prejuízo de R$ 162,9 milhões em 2015/16, 15% maior que o de 2014/15. Custos aumentaram e piorou a situação operacional em mais de 58%, que deu prejuízo de R$ 140 milhões. Despesas financeiras aumentaram 67%, quase R$ 390 milhões, corroendo fortemente a receita total de R$ 673 milhões. A dívida chega a R$ 949 milhões, quase 33% acima do ano anterior. 
 São Martinho deu lucro de R$ 39,7 milhões no primeiro trimestre da safra 2016/17, 26% acima do ano passado. A receita aumentou 50%, e o 
Ebitda também perto disto.
 Neste mês tive interessante reunião com um investidor em novos usos para a cana-de-açúcar e seus produtos derivados, compartilho aqui:
- Sacaria de plástico biodegradável para big bags de fertilizantes, Brasil 40.000 ton/ano, EUA 250.000 ton/ano em plástico;
- Sacos de rafia biodegradável para utilização em mercado de sementes, entre outros;
- Tubetes biodegradáveis (indústria de papel e celulose, indústria da cana – mudas);
- Plástico rígido biodegradável (ex: tampinhas de Coca-Cola usariam 1,2 mi ton de açúcar ano);
- Inversão do açúcar – utilização de enzima que permite quase 100% de inversão, produto sem os resíduos que a inversão ácida deixa;
- Biocontrole de pragas e biofertilizantes (economia de 30% a 40% no uso destes insumos comparados à forma tradicional);
- 1 tonelada de cana = 65kg de plástico (R$ 8/kg )  e  15 kg de proteínas (R$ 3/Kg)   totalizando receitas de  R$ 565 / ton de cana;   
-  Custo de produção de 1 Kg de biopolímero e 235 gramas de proteína equivalente a 2,45 x o custo industrial da produção de 1 Kg de açúcar + valor de venda de 2 Kg de açúcar VHP.
 
O que acontece com nosso açúcar?
 Relatório da UNICA da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra que a produção de açúcar já alcançou 13,81 milhões de toneladas e está 30% acima da safra anterior. Com o tempo seco o rendimento está sendo excelente.  
 Vendas de açúcar bruto e refinado de janeiro a julho de 2016 chegaram a 15,415 milhões de toneladas, 22% acima de 2015. As receitas cresceram 17%, chegando a quase US$ 5 bilhões. O preço médio foi de US$ 323/tonelada.
 Perspectivas de preços ao redor de 20 cents/libra peso nos próximos dois anos. Valorização do real deve compensar um pouco as elevações de preços devido aos deficits previstos. 
 Usinas investem para ampliar a capacidade de produção de açúcar aumentando seu poder de decisão de alocação do caldo.
 Alguns grupos também estão segurando a moagem para permitir um mix açucareiro maior.  
 A Datagro elevou a perspectiva de deficit no mercado de açúcar de 7,1 para 8,9 milhões de toneladas no ciclo 2016/17 (outubro a setembro). Para 2015/16, o deficit será de 7,72 milhões de toneladas, o que dá um deficit acumulado em dois anos de mais de 16,5 milhões de toneladas. 
 Relatório da FAO/ONU recém divulgado aponta redução dos estoques mundiais de açúcar de 45% hoje para 39% em 2025.
 Usinas já fixando a produção de 2017/18, a um preço médio, segundo a Archer, de R$ 1.509/tonelada com quase 2 milhões de toneladas fixadas. Este movimento deve continuar avançando com este patamar de preços. Nesta safra o preço médio ficou em R$ 1267/ton. A São Martinho travou 150 mil toneladas a 19 cents/libra peso.
 Acaba de sair uma estimativa que a safra do principal estado produtor da Índia, Maharashtra, terá quebra de produção de 40% na safra que começa em outubro, devendo forçar a Índia a importar. Deve perder quase 3,5 milhões de toneladas com quase 40 usinas ficando sem cana para moer. Mais uma boa notícia: estão doces as perspectivas do açúcar!!!
O que acontece com nosso etanol?
 Em termos de consumo de combustíveis automotivos, o Brasil é o quarto mercado do mundo (em 2015 foi de 2 milhões de barris por dia, algo próximo a 116 bilhões de litros). Mais de 70% são fósseis e temos uma dependência de 350 mil barris/dia. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) teremos deficit de mais de 1 milhão de barris por dia a partir de 2026. A opção será a de importar ou investir para produzir internamente. Para importar, será preciso grande investimento em infraestrutura de recebimento nos portos e de transporte para dentro do país, além da formação de estoques. É lógico que nós somos pela produção interna, e de etanol.
 Por ser um imposto que causa inflação, a volta da CIDE na gasolina tem este fator pesando contra, a menos que seja aplicada caso os preços do petróleo e da gasolina caiam. 
 Estamos importando etanol dos EUA para abastecer o Nordeste. Isto causa arrepios em muitos, mas não em mim. Quem quer vender também pode comprar. Isto é comércio, algo que deve sempre ser bilateral.  
 Algumas estimativas apontam para um preço do barril do petróleo começando a subir novamente, pois a demanda vem surpreendendo, apesar dos estoques de gasolina elevados. Apontam para US$ 50 a 70 o barril neste final de ano. Mas nada que incentive novos investimentos das petrolíferas. Já o Morgan Stanley projeta números ao redor de US$ 40, sendo a média para 2016 de US$ 42 e de 2017 de US$ 51/barril. Talvez um número médio de US$ 45 neste ano e US$ 55 no próximo possa ser o que adotaremos. 
 O compromisso do Brasil na COP 21 em Paris foi colocado e nos leva a 50 bilhões de litros de etanol. O Governo também trabalha com o número de 54 bilhões de litros, 75% a mais que a atual safra (28 bilhões). A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) calculou quanto seria necessário, baseando-se num critério de adição de 27% na gasolina, e a participação do etanol nos veículos de ciclo Otto chegaria a 45% em 2030. O consumo de anidro aumentaria 40,8% (7,6 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2014 para 10,7 bilhões de litros em 2030). Já o hidratado cresceria 145%, passando de 9,3 bilhões de litros para 22,8 bilhões. O total seria de 33,5 bilhões de litros em gasolina equivalente. Para isto se necessita de 1,074 bilhão de toneladas de cana (47% a mais que hoje) e destinando mais cana para etanol. Neste momento, cerca de 51 bilhões de litros seriam de etanol de primeira geração e os outros 3 bilhões de segunda geração.
 Ainda segundo a EPE, em 2030 seriam demandados 41,8 bilhões de litros de gasolina, sendo que nossa capacidade atual é de 29 bilhões de litros. 12,8 bilhões de litros teriam que ser importados. Precisamos divulgar estes números para que a sociedade se mobilize para um novo ciclo de investimentos.
 Desde o início da safra o Brasil exportou quase 450 milhões de litros de etanol, 121% a mais que ano passado, trazendo uma receita de US$ 207 milhões. Parte importante tem ido à Califórnia. Nos últimos 12 meses os embarques foram de 2,4 bilhões de litros.
 Neste mês o açúcar nos dá melhores notícias que o etanol, apesar do imenso potencial deste, como vimos acima.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Roberto Cestari, aguerrido líder setorial com o qual eu tenho o privilégio de debater e discutir há mais de cinco anos, seja em Guariba como em Orindiúva, sempre com uma mesma visão setorial e de inclusão social pelo coletivismo.
Haja Limão
 Com 59 votos favoráveis e 21 contrários o Brasil, na madrugada de 10 de agosto, deu um passo praticamente definitivo para se livrar de Dilma Rousseff e do lulopetismo, um triste período de nossa história, onde uma visão equivocada de mundo aliada a um desrespeito sem precedentes com o patrimônio público, atrasou o país em uma geração, pelo menos. O Brasil já segura, faltando apenas colocar no pescoço sua mais importante medalha de ouro, que trará de volta a confiança, os investimentos, o crescimento com geração e distribuição de renda e a inclusão social sustentável. Resgatará os valores de nossa sociedade, a nossa gana individual de esforço, trabalho e mérito que formará uma contagiante onda coletiva visando deixar um país muito melhor para nossos filhos. Acordo com uma sensação incrível de leveza, consciente do infinito trabalho de reconstrução pela frente, mas agora com imensa, imensa vontade de trabalhar.  
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.
O que acontece com nosso Agro?
 Em agosto sai a estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) para a safra norte-americana de milho e soja. Como o clima vem sendo bom, e os ratings muito positivos, é de se esperar a apresentação de números bem próximos dos recordes produtivos. 
 A grande notícia do mês foi a abertura do mercado norte-americano para exportações de carne bovina in natura do Brasil. Apesar da quantidade ainda ser modesta (60.000 toneladas/ano), o fato deste mercado ser aberto ajuda muito na abertura de outros mercados que usam os EUA como parâmetro, e mesmo com carga tributária de pouco mais de 20% no que exceder as 60 mil toneladas, temos condições de colocar produtos de maneira crescente.
 Recente estimativa da ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) coloca que o Brasil deve exportar neste ano praticamente US$ 26 bilhões em soja.
 Relatório 11 (agosto) da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) desta safra mostra uma área plantada de 58,2 milhões de hectares, 0,6% (328 mil hectares) a mais que na safra 2014/15. A soja puxou os números, aumentando cerca de 1,2 milhão de hectares (total de 33,2 milhões de hectares). O milho, safra principal, teve redução de 12,2% na área (5,4 milhões de hectares) e o safrinha aumentou 10,2% atingindo 10,5 milhões de hectares. 
 Devemos alcançar 188,1 milhões de toneladas de grãos, 9,5% menor que as 207,8 milhões colhidas em 2014/15. O clima nos ajudou a perder quase 20 milhões de toneladas. Que pena, temos preços, mas não temos produtos para vender na quantidade que queríamos.
O que acontece com nossa cana?
 Relatório da UNICA (União da Indústria da Cana-de-açúcar) da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra moagem de 261,4 milhões de toneladas, 16% acima da safra anterior. A cana destinada para açúcar está em 44,21% contra 40,15% no ano passado. A quantidade de ATR está ligeiramente acima (0,63%), com 133,25 kg/t. Mas em SP, o ATR está menor (130,51).
 Temos que monitorar de perto os preços do petróleo. O recente recuo para US$ 44/barril atua negativamente nos preços do açúcar. Somado à valorização do Real, voltam as pressões para redução dos preços da gasolina, impactando o etanol e o açúcar. Se bem que abre espaço para a volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, sem impactar o preço final.
 De acordo com a FG/Agro, em agosto a margem de grupos muito eficientes estava ao redor de R$ 55/ton de cana processada para o açúcar e R$ 20 para o etanol, sem se considerar o capital investido. Açúcar daria um faturamento de R$ 170/tonelada equivalente, e o etanol R$ 120. 
 Desempenho operacional da Odebrecht melhorou 23% na safra 2015/16, mas o custo financeiro impactou para um prejuízo de R$ 1,9 bilhão no ano. Projeta moer 31 milhões de toneladas em 2016/17. É mais um caso onde a operação é drenada pelo financeiro.
 A Nova Fronteira (joint venture entre São Martinho e Petrobrás) registrou lucro líquido de R$ 148,2 milhões em 2015/16. O lucro operacional aumentou quase 80% e as despesas financeiras 6,5%. 
 Abengoa Brasil registrou prejuízo de R$ 162,9 milhões em 2015/16, 15% maior que o de 2014/15. Custos aumentaram e piorou a situação operacional em mais de 58%, que deu prejuízo de R$ 140 milhões. Despesas financeiras aumentaram 67%, quase R$ 390 milhões, corroendo fortemente a receita total de R$ 673 milhões. A dívida chega a R$ 949 milhões, quase 33% acima do ano anterior. 
 São Martinho deu lucro de R$ 39,7 milhões no primeiro trimestre da safra 2016/17, 26% acima do ano passado. A receita aumentou 50%, e o 
Ebitda também perto disto.
 Neste mês tive interessante reunião com um investidor em novos usos para a cana-de-açúcar e seus produtos derivados, compartilho aqui:
- Sacaria de plástico biodegradável para big bags de fertilizantes, Brasil 40.000 ton/ano, EUA 250.000 ton/ano em plástico;
- Sacos de rafia biodegradável para utilização em mercado de sementes, entre outros;
- Tubetes biodegradáveis (indústria de papel e celulose, indústria da cana – mudas);
- Plástico rígido biodegradável (ex: tampinhas de Coca-Cola usariam 1,2 mi ton de açúcar ano);
- Inversão do açúcar – utilização de enzima que permite quase 100% de inversão, produto sem os resíduos que a inversão ácida deixa;
- Biocontrole de pragas e biofertilizantes (economia de 30% a 40% no uso destes insumos comparados à forma tradicional);
- 1 tonelada de cana = 65kg de plástico (R$ 8/kg )  e  15 kg de proteínas (R$ 3/Kg)   totalizando receitas de  R$ 565 / ton de cana;   
-  Custo de produção de 1 Kg de biopolímero e 235 gramas de proteína equivalente a 2,45 x o custo industrial da produção de 1 Kg de açúcar + valor de venda de 2 Kg de açúcar VHP.
 
O que acontece com nosso açúcar?
 Relatório da UNICA da safra 2016/17 até o final da primeira quinzena de julho mostra que a produção de açúcar já alcançou 13,81 milhões de toneladas e está 30% acima da safra anterior. Com o tempo seco o rendimento está sendo excelente.  
 Vendas de açúcar bruto e refinado de janeiro a julho de 2016 chegaram a 15,415 milhões de toneladas, 22% acima de 2015. As receitas cresceram 17%, chegando a quase US$ 5 bilhões. O preço médio foi de US$ 323/tonelada.
 Perspectivas de preços ao redor de 20 cents/libra peso nos próximos dois anos. Valorização do real deve compensar um pouco as elevações de preços devido aos deficits previstos. 
 Usinas investem para ampliar a capacidade de produção de açúcar aumentando seu poder de decisão de alocação do caldo.
 Alguns grupos também estão segurando a moagem para permitir um mix açucareiro maior.  
 A Datagro elevou a perspectiva de deficit no mercado de açúcar de 7,1 para 8,9 milhões de toneladas no ciclo 2016/17 (outubro a setembro). Para 2015/16, o deficit será de 7,72 milhões de toneladas, o que dá um deficit acumulado em dois anos de mais de 16,5 milhões de toneladas. 
 Relatório da FAO/ONU recém divulgado aponta redução dos estoques mundiais de açúcar de 45% hoje para 39% em 2025.
 Usinas já fixando a produção de 2017/18, a um preço médio, segundo a Archer, de R$ 1.509/tonelada com quase 2 milhões de toneladas fixadas. Este movimento deve continuar avançando com este patamar de preços. Nesta safra o preço médio ficou em R$ 1267/ton. A São Martinho travou 150 mil toneladas a 19 cents/libra peso.
 Acaba de sair uma estimativa que a safra do principal estado produtor da Índia, Maharashtra, terá quebra de produção de 40% na safra que começa em outubro, devendo forçar a Índia a importar. Deve perder quase 3,5 milhões de toneladas com quase 40 usinas ficando sem cana para moer. Mais uma boa notícia: estão doces as perspectivas do açúcar!!!
O que acontece com nosso etanol?
 Em termos de consumo de combustíveis automotivos, o Brasil é o quarto mercado do mundo (em 2015 foi de 2 milhões de barris por dia, algo próximo a 116 bilhões de litros). Mais de 70% são fósseis e temos uma dependência de 350 mil barris/dia. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) teremos deficit de mais de 1 milhão de barris por dia a partir de 2026. A opção será a de importar ou investir para produzir internamente. Para importar, será preciso grande investimento em infraestrutura de recebimento nos portos e de transporte para dentro do país, além da formação de estoques. É lógico que nós somos pela produção interna, e de etanol.
 Por ser um imposto que causa inflação, a volta da CIDE na gasolina tem este fator pesando contra, a menos que seja aplicada caso os preços do petróleo e da gasolina caiam. 
 Estamos importando etanol dos EUA para abastecer o Nordeste. Isto causa arrepios em muitos, mas não em mim. Quem quer vender também pode comprar. Isto é comércio, algo que deve sempre ser bilateral.  
 Algumas estimativas apontam para um preço do barril do petróleo começando a subir novamente, pois a demanda vem surpreendendo, apesar dos estoques de gasolina elevados. Apontam para US$ 50 a 70 o barril neste final de ano. Mas nada que incentive novos investimentos das petrolíferas. Já o Morgan Stanley projeta números ao redor de US$ 40, sendo a média para 2016 de US$ 42 e de 2017 de US$ 51/barril. Talvez um número médio de US$ 45 neste ano e US$ 55 no próximo possa ser o que adotaremos. 
 O compromisso do Brasil na COP 21 em Paris foi colocado e nos leva a 50 bilhões de litros de etanol. O Governo também trabalha com o número de 54 bilhões de litros, 75% a mais que a atual safra (28 bilhões). A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) calculou quanto seria necessário, baseando-se num critério de adição de 27% na gasolina, e a participação do etanol nos veículos de ciclo Otto chegaria a 45% em 2030. O consumo de anidro aumentaria 40,8% (7,6 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2014 para 10,7 bilhões de litros em 2030). Já o hidratado cresceria 145%, passando de 9,3 bilhões de litros para 22,8 bilhões. O total seria de 33,5 bilhões de litros em gasolina equivalente. Para isto se necessita de 1,074 bilhão de toneladas de cana (47% a mais que hoje) e destinando mais cana para etanol. Neste momento, cerca de 51 bilhões de litros seriam de etanol de primeira geração e os outros 3 bilhões de segunda geração.
 Ainda segundo a EPE, em 2030 seriam demandados 41,8 bilhões de litros de gasolina, sendo que nossa capacidade atual é de 29 bilhões de litros. 12,8 bilhões de litros teriam que ser importados. Precisamos divulgar estes números para que a sociedade se mobilize para um novo ciclo de investimentos.
 Desde o início da safra o Brasil exportou quase 450 milhões de litros de etanol, 121% a mais que ano passado, trazendo uma receita de US$ 207 milhões. Parte importante tem ido à Califórnia. Nos últimos 12 meses os embarques foram de 2,4 bilhões de litros.
 Neste mês o açúcar nos dá melhores notícias que o etanol, apesar do imenso potencial deste, como vimos acima.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Roberto Cestari, aguerrido líder setorial com o qual eu tenho o privilégio de debater e discutir há mais de cinco anos, seja em Guariba como em Orindiúva, sempre com uma mesma visão setorial e de inclusão social pelo coletivismo.
Haja Limão
 Com 59 votos favoráveis e 21 contrários o Brasil, na madrugada de 10 de agosto, deu um passo praticamente definitivo para se livrar de Dilma Rousseff e do lulopetismo, um triste período de nossa história, onde uma visão equivocada de mundo aliada a um desrespeito sem precedentes com o patrimônio público, atrasou o país em uma geração, pelo menos. O Brasil já segura, faltando apenas colocar no pescoço sua mais importante medalha de ouro, que trará de volta a confiança, os investimentos, o crescimento com geração e distribuição de renda e a inclusão social sustentável. Resgatará os valores de nossa sociedade, a nossa gana individual de esforço, trabalho e mérito que formará uma contagiante onda coletiva visando deixar um país muito melhor para nossos filhos. Acordo com uma sensação incrível de leveza, consciente do infinito trabalho de reconstrução pela frente, mas agora com imensa, imensa vontade de trabalhar.  
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.