Marcos Fava Neves

Economista

Marcos

Fava Neves

professor titular de planejamento e estratégia na FEA/USP Campus Ribeirão Preto e coordenador científico do Markestrat.

revistacanavieiros@revistacanavieiros.com.br

Fundamentos ficam cada vez melhores

 
17/11/2016

O que acontece com nosso agro?
 As exportações do agronegócio de janeiro a setembro chega a US$ 67,36 bilhões, 0,6% a mais que o mesmo período do ano passado.  As importações caíram 3,4%, para US$ 9,79 bilhões, com isto o agro deixa um saldo de US$ 57,57 bilhões. O complexo soja já trouxe US$ 23,52 bilhões; em açúcar de janeiro a setembro, exportamos 21,570 milhões de toneladas (32,7% a mais) e com isto entraram US$ 7,371 bilhões (37,5% a mais que em 2015). Em etanol o volume cresceu 44,2% (para 1,294 milhões de litros) e a receita em 40,3% (para US$ 787 milhões). É renda entrando no Brasil!
 Se o clima não atrapalhar nossa safra 2016/17 de acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ficará entre 210,5 milhões e 214,8 milhões de toneladas de grãos. Pode ser até 15% maior que a anterior. A soja deve ficar entre 102 e 104 milhões de toneladas, quase 9% a mais, beneficiada por um aumento de 2,7% na área (total de 34,1 milhões de hectares) e 6% na produtividade. O milho deve produzir entre 26,3 milhões e 27,7 milhões de toneladas (7,3% a mais) e na safrinha serão plantados 10,53 milhões de hectares e colhidos 56,1 milhões de toneladas (37,3% mais). Somando-se as duas safras teremos algo perto de 83 milhões de toneladas, 25% a mais, o que deve dar um refresco para produtores de aves e suínos, que sofreram muito em 2016.
 A Conab acredita também em salto nas exportações. A soja exportará 57 milhões de toneladas (5,4% a mais) e milho 24 milhões de toneladas (20% a mais) na safra 2016/17. 
 A área total ficará entre 58,5 e 59,7 milhões de hectares, podendo ser até 2,3% maior que a 2015/2016, que teve 58,3 milhões de hectares. Lembremos do desafio colocado pela UNCTAD/FAO/ONU (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) em seu relatório deste ano, que precisamos crescer até 2026 simplesmente 11 milhões de hectares só de soja para atender o apetite mundial!
 O Índice de Preços dos Alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) subiu 2,9% em setembro (170,9 pontos). É o maior índice desde março de 2015. Ajudaram os preços de açúcar, lácteos, carne e óleos. Cereais caíram 2,7%. Vale dizer que o índice está 10% acima de setembro de 2015. Ou seja, preços melhores em dólar para os produtores no mundo.
 Em 2016, a produção de cereais deve ser recorde no mundo, crescendo 1,5% (38 milhões de toneladas) sobre o ciclo anterior chegando a 2,569 bilhões de toneladas. O consumo também deve crescer 1,6%, puxado pelo crescimento de rações, e deve atingir 2,560 bilhões de toneladas. Abre-se um mercado de mais 40 milhões de toneladas de grãos.
 A nave do agro tem boas perspectivas de consumo (demanda) e de preços para o período à frente, o clima ajudando, muita renda deve ser gerada. 
O que acontece com nossa cana?
 Relatório do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), mostra que o setor voltou a buscar recursos, quem sabe uma virada à vista. Preveem em 2016, R$ 1,5 bilhão tomados pelo setor, menos que em 2015, mas com recente aceleração. Praticamente 60% dos empréstimos serão para a indústria e principalmente para o açúcar. Porém, a nova diretriz do banco é reduzir a porcentagem no total dos investimentos, exigindo maior participação privada.
 A Tailândia aprova a instalação de 25 novas unidades, chegando a 79 usinas até 2022. É o concorrente que mais vai atrapalhar o Brasil. Devem aumentar de 100 para 180 milhões de toneladas (aumentando de 11 para 20,4 milhões de toneladas de açúcar produzidas ao ano). Também devem aumentar o etanol de 2,5 para 5,4 bilhões de litros. Segundo a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), o Brasil deve abrir um painel contra a Tailândia na OMC - Organização Mundial do Comércio, devido à política de subsídios que afeta exportações. Na minha leitura já deveríamos ter aberto.
 Andamento da safra em setembro: pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar, na primeira quinzena de setembro processou-se 37,67 milhões de toneladas de cana, 26,8% mais que em 2015. De açúcar foram produzidos 2,4 milhões de toneladas (44% a mais), 18% a mais de anidro (705,3 milhões de litros) e 6,3% a mais de hidratado (893,8 milhões de litros).
 Unica estima a produção em 605 milhões de toneladas no ciclo 2016/17. Desde o início da safra processamos 431,32 milhões de toneladas e produzimos 24,82 milhões de toneladas de açúcar e 18,06 bilhões de litros de etanol (7,44 bilhões de litros de etanol anidro e 10,61 bilhões de litros de etanol hidratado).
 Como vai faltar cana e consequentemente sobrar capacidade de moagem, teremos perda operacional (maior ociosidade neste ano) e isto gera deseconomias de escala e custo unitário médio maior. Por outro lado, usinas estão reduzindo a moagem e colocando mais caldo para fazer açúcar, o que vem transformando fortemente o perfil da safra, crescendo o mix para açúcar. 
 O interessante é que mesmo com preços muito mais remuneradores, a conversa inicial é que a safra 2017/18 não deve crescer muito em relação aos 605 milhões desta... E teremos consumo crescente... 
O que acontece com nosso açúcar?
 Em 2016/17, a Índia devera produzir menos do que o seu consumo  (primeira vez em mais de 6 anos). Deve importar a partir de 1/10, devido à diminuição dos estoques. A estimativa da indústria é produzir 23,37 milhões de toneladas de açúcar em 2016/17 (7% a menos). Deverão importar 2 milhões de toneladas, com impacto positivo no mercado mundial. 
 O mundo terá que aumentar a produção de açúcar, pois vêm períodos de déficits. A melhor safra mundial (lembra que começa em 1 de outubro de cada ano) foi em 12/13, com 182,2 milhões de toneladas. Segundo a Platts, existe capacidade hoje para produzir 190,8 milhões de toneladas de açúcar por safra, caso o clima seja perfeito e os tratos culturais também (no mundo todo). Neste caso seria possível atender ao consumo, mas sabemos que isto é muito difícil de acontecer. A Platts acredita na Tailândia como o maior ganhador do crescimento do mercado. A limitação da Índia seria mais no agrícola, mas acreditam que com melhorias nas lavouras pode crescer até 9 milhões de toneladas, atingindo em 20/21 quase 34 milhões de toneladas. Acredita-se que o deficit em 2016/17 será de 6,45 milhões de toneladas, contra 5,21 milhões de toneladas desta safra.
 Acredita-se que a China tem cerca de 7 milhões de toneladas estocadas (cerca de 40% do consumo anual) e pode vender ao redor de 2 milhões de toneladas nesta safra 2016/17, sendo este um fator baixista.
  Seguem estimativas de déficit global também na safra 16/17, ao redor de 7 milhões de toneladas. A FC Stone projeta déficit de 9,7 milhões de toneladas. 
 A União Europeia na safra 16/17 deve produzir ao redor de 17,3 milhões de toneladas, crescendo 16% sobre a produção de 15/16. 
 Segundo o Governo da Tailândia, a produção de cana de açúcar de 2016/17 cairá 3,2% devido à seca. Deve colher 91 milhões de toneladas, contra 94,05 milhões de toneladas em 2015/16. Com isto a produção de açúcar cairá de 9,7 para 9,3 milhões de toneladas, contribuindo para o aumento do déficit global. 
 Este cenário fez o preço passar de 23 centavos de dólar a libra-peso em Nova York e chegar quase a R$ 100 a saca de 50 kg de açúcar cristal no Brasil. Só perde do preço em agosto de 2011, quando atingiu R$ 96,54 a valores de hoje. Em setembro o açúcar subiu mais de 10%.
 A exportação em setembro foi gigante, com 2,7 milhões de toneladas, 90% acima de setembro de 2015 e de 21% acima de agosto de 2016. Segundo maior da história, abaixo apenas das 3,17 milhões de toneladas de outubro/12. Podemos bater neste ano 27 milhões de toneladas exportadas. Estamos até o final de setembro, 39% acima do mesmo período de 2015. 
 Como fator de preocupação no mercado, temos a recente avaliação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que sugere novos impostos que possam reduzir de fato o consumo de produtos que contém muito açúcar. Isto poderia elevar os preços destes produtos em mais de 20% e reduzir o consumo, segundo eles, melhorando a nutrição e reduzindo a obesidade. Segundo a OMS, em 2014 cerca de 39% dos adultos estariam obesos, e esta taxa mais do que dobra desde 1980. México e Hungria já iniciaram impostos nesses produtos, enquanto Filipinas, África do Sul e Reino Unido têm projetos.
 Outra ameaça mais premente vem da China, devido a um problema ligado a um questionário do país para investigações das importações de açúcar. O Brasil exporta 50% do total comprado pelos chineses, passando de 2,5 milhões de toneladas/ano. Torcer para isto não dar problema. 
 Surgiu a RAW, joint venture entre Raízen (por sua vez outra joint venture da Cosan e Shell) e a Wilmar. Devem exportar ao redor de 4,5 milhões de toneladas, sendo 3 milhões vindos da produção da Raízen. A Alvean (joint venture da Cargill e Copersucar), comercializa mundialmente cerca de 11,5 milhões de toneladas, originando 5 milhões do Brasil. Mundo de gigantes.
 Trago aqui comentário do Arnaldo Correa, estimando que usinas com boa capacidade de gestão produzem açúcar a 13,25 centavos de dólar por libra-peso na usina, e sem custo financeiro. Isto daria em torno de R$ 1.000-1.050 por tonelada de custo (FOB Santos). No início de outubro, o preço de fechamento bateu R$ 1.700 por tonelada. É um bom preço de fechamento, ainda mais se pensarmos na possibilidade de valorização do real, que compensaria uma subida de preços do açúcar. Ou seja, podemos planejar bem 2016/17 e 2017/18 com parte sendo fixada. 
 Nesta safra aconteceu algo muito interessante. Usinas altamente endividadas que não conseguiram fazer hedge no início da safra, acabaram tendo muito produto livre para vender agora a preços incrivelmente remuneradores, o que deve ajudar na difícil luta contra a doença financeira.  
 Como reflexão final, vale outra vez a minha frase aqui... “preço muito bom, não é bom”. Torço para que o preço do açúcar não suba mais, pois o boleto aparece mais adiante, com estímulo a investir, superávits de produção no mundo e preços baixos.
O que acontece com nosso etanol?
 ANP: o consumo de combustíveis em agosto/2016 em gasolina equivalente foi de 4,48 bilhões de litros. De setembro de 2015 até agosto de 2016 foram consumidos 53,18 bilhões de litros (1,72% menor que igual período no ano anterior). O consumo deve encerrar 2016 caindo apenas 1%, o que é um bom número frente à crise que vivemos. 
 A Índia está fortalecendo a produção de etanol, visando reduzir a dependência do petróleo (importa 80% do seu consumo de gasolina e diesel). A mistura de etanol na gasolina é de 4% em média, devendo ir a 10%, meta estabelecida em dezembro do ano passado. Em 2015 a Índia já produziu 3 bilhões de litros. 
 Segundo o Cepea, o preço médio da parcial desta safra 2016/17 (de abril/16 a setembro/16) do etanol hidratado está 10,1% superior ao da safra passada. O anidro está 10,5% acima. Na última semana de setembro o preço foi de R$ 1,73 para o hidratado e R$ 1,92 para o anidro. 
 Distribuidores compraram muito etanol em setembro, com medo do aumento dos preços. O volume no mercado spot nas usinas paulistas cresceu quase 50% no hidratado e 170% no anidro. Estes preços começam a ser repassados nos postos.
 Menor produção de etanol neste ano (até o momento 6,7% menor) vai forçar importação de gasolina. Pela FG/A custa R$ 0,2760 o litro para importar, somado ao preço na bolsa de Nova York de R$ 1,219 o litro, chega-se a um valor de R$ 1,495 o litro, enquanto que a Petrobrás vendia a gasolina A por R$ 1,503 o litro.
 Segundo Pedro Parente, presidente da Petrobras, a empresa passa a ter mais autonomia para fixar os preços. Neste momento os preços de gasolina e diesel estão acima dos internacionais (27% e 23%, respectivamente), para melhorar a situação financeira da empresa. Além disto, deixará as áreas de fertilizantes, biocombustível, petroquímica e distribuição de GLP. No seu plano de negócios, estimam preço do petróleo a R$ 157 por barril para 2016 (Brent a US$ 45 e câmbio a R$ 3,48), e em R$ 268 para 2021 (Brent a US$ 71 e câmbio a R$ 3,78).
 A Nissan traz a novidade do etanol sendo usado para o carro movido à hidrogênio, pois o etanol pode gerá-lo através de um catalisador. De acordo com o prof. Plínio Nastari, a atual tecnologia é ineficiente ao converter o poder calorífico. Nos motores a combustão interna do ciclo Otto, a eficiência termodinâmica é 25%, nos do ciclo Diesel de 29%, sendo que o resto se perde em calor e os motores precisam ser pesados para resistir e ter sistemas de refrigeração. O veículo elétrico seria bem mais eficiente, mas este tem problemas se a geração for feita por combustível fóssil, bem como o custo e durabilidade das baterias. 
 O novo carro é abastecido com etanol, que é transformado em hidrogênio. A reação do hidrogênio e do oxigênio gera eletricidade e água. Segundo o prof. Plínio, a eficiência termodinâmica é mais do que o dobro do motor atual, permitindo grande queda de consumo.
 De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda global de petróleo cresce 1,2% ao ano e será de 100 milhões de barris diários em 2020.
 Fato interessante é que o petróleo chegou recentemente a 52 dólares, quase perto do preço que equilibra o nosso preço (Petrobras) com o internacional (US$ 58 de acordo com a Tendências Consultoria). Neste preço o diesel está 24% mais caro e a gasolina 16%. Analistas acreditam que a Petrobras precisa de pelo menos dois anos com este diferencial positivo de preços para se recuperar do dano causado pelo subsídio de anos anteriores, que espalhou destruição tanto na empresa como na cadeia da cana. 
 Desde julho venho dizendo sobre um cenário preocupante. Temos menos cana, e desta, mais participação de açúcar no destino do produto. O consumo de combustível deve cair apenas 1%, e a importação de gasolina tem pouca possibilidade de crescimento. Arrisco que o etanol subirá bastante nos próximos meses.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Marcos Landell, um craque da cana que dispensa comentários. Por falar em homenagem, participo ao leitor da Caipirinha minha alegria ao completar neste outubro 25 anos (Jubileu de Prata) de formado Engenheiro Agronômo na ESALQ, e participar da mesma cerimônia onde meu pai completa 50 anos de formado (Jubileu de Ouro). Haja emoção. Termino esta coluna justamente no dia do Engenheiro Agrônomo (12 de outubro) e ficam meus parabéns a todos!
Haja Limão
 Que coisa boa o Brasil andando para frente. Neste momento foi aprovada a PEC que controla os gastos deste glutão que é o Estado brasileiro, e outras importantes vêm por aí. Novos tempos, o Brasil de volta no trilho. A acidez vai diminuindo, mas ainda é interessante ver os partidos da esquerda, que foram humilhantemente derrotados nas urnas neste outubro, sempre indo contra o que o Brasil precisa. E a conversa de “golpistas” foi sepultada pelas urnas. 
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, 
Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do 
Conselho da Orplana.
O que acontece com nosso agro?
 As exportações do agronegócio de janeiro a setembro chega a US$ 67,36 bilhões, 0,6% a mais que o mesmo período do ano passado.  As importações caíram 3,4%, para US$ 9,79 bilhões, com isto o agro deixa um saldo de US$ 57,57 bilhões. O complexo soja já trouxe US$ 23,52 bilhões; em açúcar de janeiro a setembro, exportamos 21,570 milhões de toneladas (32,7% a mais) e com isto entraram US$ 7,371 bilhões (37,5% a mais que em 2015). Em etanol o volume cresceu 44,2% (para 1,294 milhões de litros) e a receita em 40,3% (para US$ 787 milhões). É renda entrando no Brasil!
 Se o clima não atrapalhar nossa safra 2016/17 de acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ficará entre 210,5 milhões e 214,8 milhões de toneladas de grãos. Pode ser até 15% maior que a anterior. A soja deve ficar entre 102 e 104 milhões de toneladas, quase 9% a mais, beneficiada por um aumento de 2,7% na área (total de 34,1 milhões de hectares) e 6% na produtividade. O milho deve produzir entre 26,3 milhões e 27,7 milhões de toneladas (7,3% a mais) e na safrinha serão plantados 10,53 milhões de hectares e colhidos 56,1 milhões de toneladas (37,3% mais). Somando-se as duas safras teremos algo perto de 83 milhões de toneladas, 25% a mais, o que deve dar um refresco para produtores de aves e suínos, que sofreram muito em 2016.
 A Conab acredita também em salto nas exportações. A soja exportará 57 milhões de toneladas (5,4% a mais) e milho 24 milhões de toneladas (20% a mais) na safra 2016/17. 
 A área total ficará entre 58,5 e 59,7 milhões de hectares, podendo ser até 2,3% maior que a 2015/2016, que teve 58,3 milhões de hectares. Lembremos do desafio colocado pela UNCTAD/FAO/ONU (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) em seu relatório deste ano, que precisamos crescer até 2026 simplesmente 11 milhões de hectares só de soja para atender o apetite mundial!
 O Índice de Preços dos Alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) subiu 2,9% em setembro (170,9 pontos). É o maior índice desde março de 2015. Ajudaram os preços de açúcar, lácteos, carne e óleos. Cereais caíram 2,7%. Vale dizer que o índice está 10% acima de setembro de 2015. Ou seja, preços melhores em dólar para os produtores no mundo.
 Em 2016, a produção de cereais deve ser recorde no mundo, crescendo 1,5% (38 milhões de toneladas) sobre o ciclo anterior chegando a 2,569 bilhões de toneladas. O consumo também deve crescer 1,6%, puxado pelo crescimento de rações, e deve atingir 2,560 bilhões de toneladas. Abre-se um mercado de mais 40 milhões de toneladas de grãos.
 A nave do agro tem boas perspectivas de consumo (demanda) e de preços para o período à frente, o clima ajudando, muita renda deve ser gerada. 
O que acontece com nossa cana?
 Relatório do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), mostra que o setor voltou a buscar recursos, quem sabe uma virada à vista. Preveem em 2016, R$ 1,5 bilhão tomados pelo setor, menos que em 2015, mas com recente aceleração. Praticamente 60% dos empréstimos serão para a indústria e principalmente para o açúcar. Porém, a nova diretriz do banco é reduzir a porcentagem no total dos investimentos, exigindo maior participação privada.
 A Tailândia aprova a instalação de 25 novas unidades, chegando a 79 usinas até 2022. É o concorrente que mais vai atrapalhar o Brasil. Devem aumentar de 100 para 180 milhões de toneladas (aumentando de 11 para 20,4 milhões de toneladas de açúcar produzidas ao ano). Também devem aumentar o etanol de 2,5 para 5,4 bilhões de litros. Segundo a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), o Brasil deve abrir um painel contra a Tailândia na OMC - Organização Mundial do Comércio, devido à política de subsídios que afeta exportações. Na minha leitura já deveríamos ter aberto.
 Andamento da safra em setembro: pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar, na primeira quinzena de setembro processou-se 37,67 milhões de toneladas de cana, 26,8% mais que em 2015. De açúcar foram produzidos 2,4 milhões de toneladas (44% a mais), 18% a mais de anidro (705,3 milhões de litros) e 6,3% a mais de hidratado (893,8 milhões de litros).
 Unica estima a produção em 605 milhões de toneladas no ciclo 2016/17. Desde o início da safra processamos 431,32 milhões de toneladas e produzimos 24,82 milhões de toneladas de açúcar e 18,06 bilhões de litros de etanol (7,44 bilhões de litros de etanol anidro e 10,61 bilhões de litros de etanol hidratado).
 Como vai faltar cana e consequentemente sobrar capacidade de moagem, teremos perda operacional (maior ociosidade neste ano) e isto gera deseconomias de escala e custo unitário médio maior. Por outro lado, usinas estão reduzindo a moagem e colocando mais caldo para fazer açúcar, o que vem transformando fortemente o perfil da safra, crescendo o mix para açúcar. 
 O interessante é que mesmo com preços muito mais remuneradores, a conversa inicial é que a safra 2017/18 não deve crescer muito em relação aos 605 milhões desta... E teremos consumo crescente... 
O que acontece com nosso açúcar?
 Em 2016/17, a Índia devera produzir menos do que o seu consumo  (primeira vez em mais de 6 anos). Deve importar a partir de 1/10, devido à diminuição dos estoques. A estimativa da indústria é produzir 23,37 milhões de toneladas de açúcar em 2016/17 (7% a menos). Deverão importar 2 milhões de toneladas, com impacto positivo no mercado mundial. 
 O mundo terá que aumentar a produção de açúcar, pois vêm períodos de déficits. A melhor safra mundial (lembra que começa em 1 de outubro de cada ano) foi em 12/13, com 182,2 milhões de toneladas. Segundo a Platts, existe capacidade hoje para produzir 190,8 milhões de toneladas de açúcar por safra, caso o clima seja perfeito e os tratos culturais também (no mundo todo). Neste caso seria possível atender ao consumo, mas sabemos que isto é muito difícil de acontecer. A Platts acredita na Tailândia como o maior ganhador do crescimento do mercado. A limitação da Índia seria mais no agrícola, mas acreditam que com melhorias nas lavouras pode crescer até 9 milhões de toneladas, atingindo em 20/21 quase 34 milhões de toneladas. Acredita-se que o deficit em 2016/17 será de 6,45 milhões de toneladas, contra 5,21 milhões de toneladas desta safra.
 Acredita-se que a China tem cerca de 7 milhões de toneladas estocadas (cerca de 40% do consumo anual) e pode vender ao redor de 2 milhões de toneladas nesta safra 2016/17, sendo este um fator baixista.
  Seguem estimativas de déficit global também na safra 16/17, ao redor de 7 milhões de toneladas. A FC Stone projeta déficit de 9,7 milhões de toneladas. 
 A União Europeia na safra 16/17 deve produzir ao redor de 17,3 milhões de toneladas, crescendo 16% sobre a produção de 15/16. 
 Segundo o Governo da Tailândia, a produção de cana de açúcar de 2016/17 cairá 3,2% devido à seca. Deve colher 91 milhões de toneladas, contra 94,05 milhões de toneladas em 2015/16. Com isto a produção de açúcar cairá de 9,7 para 9,3 milhões de toneladas, contribuindo para o aumento do déficit global. 
 Este cenário fez o preço passar de 23 centavos de dólar a libra-peso em Nova York e chegar quase a R$ 100 a saca de 50 kg de açúcar cristal no Brasil. Só perde do preço em agosto de 2011, quando atingiu R$ 96,54 a valores de hoje. Em setembro o açúcar subiu mais de 10%.
 A exportação em setembro foi gigante, com 2,7 milhões de toneladas, 90% acima de setembro de 2015 e de 21% acima de agosto de 2016. Segundo maior da história, abaixo apenas das 3,17 milhões de toneladas de outubro/12. Podemos bater neste ano 27 milhões de toneladas exportadas. Estamos até o final de setembro, 39% acima do mesmo período de 2015. 
 Como fator de preocupação no mercado, temos a recente avaliação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que sugere novos impostos que possam reduzir de fato o consumo de produtos que contém muito açúcar. Isto poderia elevar os preços destes produtos em mais de 20% e reduzir o consumo, segundo eles, melhorando a nutrição e reduzindo a obesidade. Segundo a OMS, em 2014 cerca de 39% dos adultos estariam obesos, e esta taxa mais do que dobra desde 1980. México e Hungria já iniciaram impostos nesses produtos, enquanto Filipinas, África do Sul e Reino Unido têm projetos.
 Outra ameaça mais premente vem da China, devido a um problema ligado a um questionário do país para investigações das importações de açúcar. O Brasil exporta 50% do total comprado pelos chineses, passando de 2,5 milhões de toneladas/ano. Torcer para isto não dar problema. 
 Surgiu a RAW, joint venture entre Raízen (por sua vez outra joint venture da Cosan e Shell) e a Wilmar. Devem exportar ao redor de 4,5 milhões de toneladas, sendo 3 milhões vindos da produção da Raízen. A Alvean (joint venture da Cargill e Copersucar), comercializa mundialmente cerca de 11,5 milhões de toneladas, originando 5 milhões do Brasil. Mundo de gigantes.
 Trago aqui comentário do Arnaldo Correa, estimando que usinas com boa capacidade de gestão produzem açúcar a 13,25 centavos de dólar por libra-peso na usina, e sem custo financeiro. Isto daria em torno de R$ 1.000-1.050 por tonelada de custo (FOB Santos). No início de outubro, o preço de fechamento bateu R$ 1.700 por tonelada. É um bom preço de fechamento, ainda mais se pensarmos na possibilidade de valorização do real, que compensaria uma subida de preços do açúcar. Ou seja, podemos planejar bem 2016/17 e 2017/18 com parte sendo fixada. 
 Nesta safra aconteceu algo muito interessante. Usinas altamente endividadas que não conseguiram fazer hedge no início da safra, acabaram tendo muito produto livre para vender agora a preços incrivelmente remuneradores, o que deve ajudar na difícil luta contra a doença financeira.  
 Como reflexão final, vale outra vez a minha frase aqui... “preço muito bom, não é bom”. Torço para que o preço do açúcar não suba mais, pois o boleto aparece mais adiante, com estímulo a investir, superávits de produção no mundo e preços baixos.
O que acontece com nosso etanol?
 ANP: o consumo de combustíveis em agosto/2016 em gasolina equivalente foi de 4,48 bilhões de litros. De setembro de 2015 até agosto de 2016 foram consumidos 53,18 bilhões de litros (1,72% menor que igual período no ano anterior). O consumo deve encerrar 2016 caindo apenas 1%, o que é um bom número frente à crise que vivemos. 
 A Índia está fortalecendo a produção de etanol, visando reduzir a dependência do petróleo (importa 80% do seu consumo de gasolina e diesel). A mistura de etanol na gasolina é de 4% em média, devendo ir a 10%, meta estabelecida em dezembro do ano passado. Em 2015 a Índia já produziu 3 bilhões de litros. 
 Segundo o Cepea, o preço médio da parcial desta safra 2016/17 (de abril/16 a setembro/16) do etanol hidratado está 10,1% superior ao da safra passada. O anidro está 10,5% acima. Na última semana de setembro o preço foi de R$ 1,73 para o hidratado e R$ 1,92 para o anidro. 
 Distribuidores compraram muito etanol em setembro, com medo do aumento dos preços. O volume no mercado spot nas usinas paulistas cresceu quase 50% no hidratado e 170% no anidro. Estes preços começam a ser repassados nos postos.
 Menor produção de etanol neste ano (até o momento 6,7% menor) vai forçar importação de gasolina. Pela FG/A custa R$ 0,2760 o litro para importar, somado ao preço na bolsa de Nova York de R$ 1,219 o litro, chega-se a um valor de R$ 1,495 o litro, enquanto que a Petrobrás vendia a gasolina A por R$ 1,503 o litro.
 Segundo Pedro Parente, presidente da Petrobras, a empresa passa a ter mais autonomia para fixar os preços. Neste momento os preços de gasolina e diesel estão acima dos internacionais (27% e 23%, respectivamente), para melhorar a situação financeira da empresa. Além disto, deixará as áreas de fertilizantes, biocombustível, petroquímica e distribuição de GLP. No seu plano de negócios, estimam preço do petróleo a R$ 157 por barril para 2016 (Brent a US$ 45 e câmbio a R$ 3,48), e em R$ 268 para 2021 (Brent a US$ 71 e câmbio a R$ 3,78).
 A Nissan traz a novidade do etanol sendo usado para o carro movido à hidrogênio, pois o etanol pode gerá-lo através de um catalisador. De acordo com o prof. Plínio Nastari, a atual tecnologia é ineficiente ao converter o poder calorífico. Nos motores a combustão interna do ciclo Otto, a eficiência termodinâmica é 25%, nos do ciclo Diesel de 29%, sendo que o resto se perde em calor e os motores precisam ser pesados para resistir e ter sistemas de refrigeração. O veículo elétrico seria bem mais eficiente, mas este tem problemas se a geração for feita por combustível fóssil, bem como o custo e durabilidade das baterias. 
 O novo carro é abastecido com etanol, que é transformado em hidrogênio. A reação do hidrogênio e do oxigênio gera eletricidade e água. Segundo o prof. Plínio, a eficiência termodinâmica é mais do que o dobro do motor atual, permitindo grande queda de consumo.
 De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda global de petróleo cresce 1,2% ao ano e será de 100 milhões de barris diários em 2020.
 Fato interessante é que o petróleo chegou recentemente a 52 dólares, quase perto do preço que equilibra o nosso preço (Petrobras) com o internacional (US$ 58 de acordo com a Tendências Consultoria). Neste preço o diesel está 24% mais caro e a gasolina 16%. Analistas acreditam que a Petrobras precisa de pelo menos dois anos com este diferencial positivo de preços para se recuperar do dano causado pelo subsídio de anos anteriores, que espalhou destruição tanto na empresa como na cadeia da cana. 
 Desde julho venho dizendo sobre um cenário preocupante. Temos menos cana, e desta, mais participação de açúcar no destino do produto. O consumo de combustível deve cair apenas 1%, e a importação de gasolina tem pouca possibilidade de crescimento. Arrisco que o etanol subirá bastante nos próximos meses.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Marcos Landell, um craque da cana que dispensa comentários. Por falar em homenagem, participo ao leitor da Caipirinha minha alegria ao completar neste outubro 25 anos (Jubileu de Prata) de formado Engenheiro Agronômo na ESALQ, e participar da mesma cerimônia onde meu pai completa 50 anos de formado (Jubileu de Ouro). Haja emoção. Termino esta coluna justamente no dia do Engenheiro Agrônomo (12 de outubro) e ficam meus parabéns a todos!
Haja Limão
 Que coisa boa o Brasil andando para frente. Neste momento foi aprovada a PEC que controla os gastos deste glutão que é o Estado brasileiro, e outras importantes vêm por aí. Novos tempos, o Brasil de volta no trilho. A acidez vai diminuindo, mas ainda é interessante ver os partidos da esquerda, que foram humilhantemente derrotados nas urnas neste outubro, sempre indo contra o que o Brasil precisa. E a conversa de “golpistas” foi sepultada pelas urnas. 

Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, 
Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do 
Conselho da Orplana.

Fonte: Revista Canavieiros - edição 124 - outubro/2016

Fundamentos ficam cada vez melhores

17/11/2016

O que acontece com nosso agro?
 As exportações do agronegócio de janeiro a setembro chega a US$ 67,36 bilhões, 0,6% a mais que o mesmo período do ano passado.  As importações caíram 3,4%, para US$ 9,79 bilhões, com isto o agro deixa um saldo de US$ 57,57 bilhões. O complexo soja já trouxe US$ 23,52 bilhões; em açúcar de janeiro a setembro, exportamos 21,570 milhões de toneladas (32,7% a mais) e com isto entraram US$ 7,371 bilhões (37,5% a mais que em 2015). Em etanol o volume cresceu 44,2% (para 1,294 milhões de litros) e a receita em 40,3% (para US$ 787 milhões). É renda entrando no Brasil!
 Se o clima não atrapalhar nossa safra 2016/17 de acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ficará entre 210,5 milhões e 214,8 milhões de toneladas de grãos. Pode ser até 15% maior que a anterior. A soja deve ficar entre 102 e 104 milhões de toneladas, quase 9% a mais, beneficiada por um aumento de 2,7% na área (total de 34,1 milhões de hectares) e 6% na produtividade. O milho deve produzir entre 26,3 milhões e 27,7 milhões de toneladas (7,3% a mais) e na safrinha serão plantados 10,53 milhões de hectares e colhidos 56,1 milhões de toneladas (37,3% mais). Somando-se as duas safras teremos algo perto de 83 milhões de toneladas, 25% a mais, o que deve dar um refresco para produtores de aves e suínos, que sofreram muito em 2016.
 A Conab acredita também em salto nas exportações. A soja exportará 57 milhões de toneladas (5,4% a mais) e milho 24 milhões de toneladas (20% a mais) na safra 2016/17. 
 A área total ficará entre 58,5 e 59,7 milhões de hectares, podendo ser até 2,3% maior que a 2015/2016, que teve 58,3 milhões de hectares. Lembremos do desafio colocado pela UNCTAD/FAO/ONU (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) em seu relatório deste ano, que precisamos crescer até 2026 simplesmente 11 milhões de hectares só de soja para atender o apetite mundial!
 O Índice de Preços dos Alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) subiu 2,9% em setembro (170,9 pontos). É o maior índice desde março de 2015. Ajudaram os preços de açúcar, lácteos, carne e óleos. Cereais caíram 2,7%. Vale dizer que o índice está 10% acima de setembro de 2015. Ou seja, preços melhores em dólar para os produtores no mundo.
 Em 2016, a produção de cereais deve ser recorde no mundo, crescendo 1,5% (38 milhões de toneladas) sobre o ciclo anterior chegando a 2,569 bilhões de toneladas. O consumo também deve crescer 1,6%, puxado pelo crescimento de rações, e deve atingir 2,560 bilhões de toneladas. Abre-se um mercado de mais 40 milhões de toneladas de grãos.
 A nave do agro tem boas perspectivas de consumo (demanda) e de preços para o período à frente, o clima ajudando, muita renda deve ser gerada. 
O que acontece com nossa cana?
 Relatório do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), mostra que o setor voltou a buscar recursos, quem sabe uma virada à vista. Preveem em 2016, R$ 1,5 bilhão tomados pelo setor, menos que em 2015, mas com recente aceleração. Praticamente 60% dos empréstimos serão para a indústria e principalmente para o açúcar. Porém, a nova diretriz do banco é reduzir a porcentagem no total dos investimentos, exigindo maior participação privada.
 A Tailândia aprova a instalação de 25 novas unidades, chegando a 79 usinas até 2022. É o concorrente que mais vai atrapalhar o Brasil. Devem aumentar de 100 para 180 milhões de toneladas (aumentando de 11 para 20,4 milhões de toneladas de açúcar produzidas ao ano). Também devem aumentar o etanol de 2,5 para 5,4 bilhões de litros. Segundo a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), o Brasil deve abrir um painel contra a Tailândia na OMC - Organização Mundial do Comércio, devido à política de subsídios que afeta exportações. Na minha leitura já deveríamos ter aberto.
 Andamento da safra em setembro: pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar, na primeira quinzena de setembro processou-se 37,67 milhões de toneladas de cana, 26,8% mais que em 2015. De açúcar foram produzidos 2,4 milhões de toneladas (44% a mais), 18% a mais de anidro (705,3 milhões de litros) e 6,3% a mais de hidratado (893,8 milhões de litros).
 Unica estima a produção em 605 milhões de toneladas no ciclo 2016/17. Desde o início da safra processamos 431,32 milhões de toneladas e produzimos 24,82 milhões de toneladas de açúcar e 18,06 bilhões de litros de etanol (7,44 bilhões de litros de etanol anidro e 10,61 bilhões de litros de etanol hidratado).
 Como vai faltar cana e consequentemente sobrar capacidade de moagem, teremos perda operacional (maior ociosidade neste ano) e isto gera deseconomias de escala e custo unitário médio maior. Por outro lado, usinas estão reduzindo a moagem e colocando mais caldo para fazer açúcar, o que vem transformando fortemente o perfil da safra, crescendo o mix para açúcar. 
 O interessante é que mesmo com preços muito mais remuneradores, a conversa inicial é que a safra 2017/18 não deve crescer muito em relação aos 605 milhões desta... E teremos consumo crescente... 
O que acontece com nosso açúcar?
 Em 2016/17, a Índia devera produzir menos do que o seu consumo  (primeira vez em mais de 6 anos). Deve importar a partir de 1/10, devido à diminuição dos estoques. A estimativa da indústria é produzir 23,37 milhões de toneladas de açúcar em 2016/17 (7% a menos). Deverão importar 2 milhões de toneladas, com impacto positivo no mercado mundial. 
 O mundo terá que aumentar a produção de açúcar, pois vêm períodos de déficits. A melhor safra mundial (lembra que começa em 1 de outubro de cada ano) foi em 12/13, com 182,2 milhões de toneladas. Segundo a Platts, existe capacidade hoje para produzir 190,8 milhões de toneladas de açúcar por safra, caso o clima seja perfeito e os tratos culturais também (no mundo todo). Neste caso seria possível atender ao consumo, mas sabemos que isto é muito difícil de acontecer. A Platts acredita na Tailândia como o maior ganhador do crescimento do mercado. A limitação da Índia seria mais no agrícola, mas acreditam que com melhorias nas lavouras pode crescer até 9 milhões de toneladas, atingindo em 20/21 quase 34 milhões de toneladas. Acredita-se que o deficit em 2016/17 será de 6,45 milhões de toneladas, contra 5,21 milhões de toneladas desta safra.
 Acredita-se que a China tem cerca de 7 milhões de toneladas estocadas (cerca de 40% do consumo anual) e pode vender ao redor de 2 milhões de toneladas nesta safra 2016/17, sendo este um fator baixista.
  Seguem estimativas de déficit global também na safra 16/17, ao redor de 7 milhões de toneladas. A FC Stone projeta déficit de 9,7 milhões de toneladas. 
 A União Europeia na safra 16/17 deve produzir ao redor de 17,3 milhões de toneladas, crescendo 16% sobre a produção de 15/16. 
 Segundo o Governo da Tailândia, a produção de cana de açúcar de 2016/17 cairá 3,2% devido à seca. Deve colher 91 milhões de toneladas, contra 94,05 milhões de toneladas em 2015/16. Com isto a produção de açúcar cairá de 9,7 para 9,3 milhões de toneladas, contribuindo para o aumento do déficit global. 
 Este cenário fez o preço passar de 23 centavos de dólar a libra-peso em Nova York e chegar quase a R$ 100 a saca de 50 kg de açúcar cristal no Brasil. Só perde do preço em agosto de 2011, quando atingiu R$ 96,54 a valores de hoje. Em setembro o açúcar subiu mais de 10%.
 A exportação em setembro foi gigante, com 2,7 milhões de toneladas, 90% acima de setembro de 2015 e de 21% acima de agosto de 2016. Segundo maior da história, abaixo apenas das 3,17 milhões de toneladas de outubro/12. Podemos bater neste ano 27 milhões de toneladas exportadas. Estamos até o final de setembro, 39% acima do mesmo período de 2015. 
 Como fator de preocupação no mercado, temos a recente avaliação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que sugere novos impostos que possam reduzir de fato o consumo de produtos que contém muito açúcar. Isto poderia elevar os preços destes produtos em mais de 20% e reduzir o consumo, segundo eles, melhorando a nutrição e reduzindo a obesidade. Segundo a OMS, em 2014 cerca de 39% dos adultos estariam obesos, e esta taxa mais do que dobra desde 1980. México e Hungria já iniciaram impostos nesses produtos, enquanto Filipinas, África do Sul e Reino Unido têm projetos.
 Outra ameaça mais premente vem da China, devido a um problema ligado a um questionário do país para investigações das importações de açúcar. O Brasil exporta 50% do total comprado pelos chineses, passando de 2,5 milhões de toneladas/ano. Torcer para isto não dar problema. 
 Surgiu a RAW, joint venture entre Raízen (por sua vez outra joint venture da Cosan e Shell) e a Wilmar. Devem exportar ao redor de 4,5 milhões de toneladas, sendo 3 milhões vindos da produção da Raízen. A Alvean (joint venture da Cargill e Copersucar), comercializa mundialmente cerca de 11,5 milhões de toneladas, originando 5 milhões do Brasil. Mundo de gigantes.
 Trago aqui comentário do Arnaldo Correa, estimando que usinas com boa capacidade de gestão produzem açúcar a 13,25 centavos de dólar por libra-peso na usina, e sem custo financeiro. Isto daria em torno de R$ 1.000-1.050 por tonelada de custo (FOB Santos). No início de outubro, o preço de fechamento bateu R$ 1.700 por tonelada. É um bom preço de fechamento, ainda mais se pensarmos na possibilidade de valorização do real, que compensaria uma subida de preços do açúcar. Ou seja, podemos planejar bem 2016/17 e 2017/18 com parte sendo fixada. 
 Nesta safra aconteceu algo muito interessante. Usinas altamente endividadas que não conseguiram fazer hedge no início da safra, acabaram tendo muito produto livre para vender agora a preços incrivelmente remuneradores, o que deve ajudar na difícil luta contra a doença financeira.  
 Como reflexão final, vale outra vez a minha frase aqui... “preço muito bom, não é bom”. Torço para que o preço do açúcar não suba mais, pois o boleto aparece mais adiante, com estímulo a investir, superávits de produção no mundo e preços baixos.
O que acontece com nosso etanol?
 ANP: o consumo de combustíveis em agosto/2016 em gasolina equivalente foi de 4,48 bilhões de litros. De setembro de 2015 até agosto de 2016 foram consumidos 53,18 bilhões de litros (1,72% menor que igual período no ano anterior). O consumo deve encerrar 2016 caindo apenas 1%, o que é um bom número frente à crise que vivemos. 
 A Índia está fortalecendo a produção de etanol, visando reduzir a dependência do petróleo (importa 80% do seu consumo de gasolina e diesel). A mistura de etanol na gasolina é de 4% em média, devendo ir a 10%, meta estabelecida em dezembro do ano passado. Em 2015 a Índia já produziu 3 bilhões de litros. 
 Segundo o Cepea, o preço médio da parcial desta safra 2016/17 (de abril/16 a setembro/16) do etanol hidratado está 10,1% superior ao da safra passada. O anidro está 10,5% acima. Na última semana de setembro o preço foi de R$ 1,73 para o hidratado e R$ 1,92 para o anidro. 
 Distribuidores compraram muito etanol em setembro, com medo do aumento dos preços. O volume no mercado spot nas usinas paulistas cresceu quase 50% no hidratado e 170% no anidro. Estes preços começam a ser repassados nos postos.
 Menor produção de etanol neste ano (até o momento 6,7% menor) vai forçar importação de gasolina. Pela FG/A custa R$ 0,2760 o litro para importar, somado ao preço na bolsa de Nova York de R$ 1,219 o litro, chega-se a um valor de R$ 1,495 o litro, enquanto que a Petrobrás vendia a gasolina A por R$ 1,503 o litro.
 Segundo Pedro Parente, presidente da Petrobras, a empresa passa a ter mais autonomia para fixar os preços. Neste momento os preços de gasolina e diesel estão acima dos internacionais (27% e 23%, respectivamente), para melhorar a situação financeira da empresa. Além disto, deixará as áreas de fertilizantes, biocombustível, petroquímica e distribuição de GLP. No seu plano de negócios, estimam preço do petróleo a R$ 157 por barril para 2016 (Brent a US$ 45 e câmbio a R$ 3,48), e em R$ 268 para 2021 (Brent a US$ 71 e câmbio a R$ 3,78).
 A Nissan traz a novidade do etanol sendo usado para o carro movido à hidrogênio, pois o etanol pode gerá-lo através de um catalisador. De acordo com o prof. Plínio Nastari, a atual tecnologia é ineficiente ao converter o poder calorífico. Nos motores a combustão interna do ciclo Otto, a eficiência termodinâmica é 25%, nos do ciclo Diesel de 29%, sendo que o resto se perde em calor e os motores precisam ser pesados para resistir e ter sistemas de refrigeração. O veículo elétrico seria bem mais eficiente, mas este tem problemas se a geração for feita por combustível fóssil, bem como o custo e durabilidade das baterias. 
 O novo carro é abastecido com etanol, que é transformado em hidrogênio. A reação do hidrogênio e do oxigênio gera eletricidade e água. Segundo o prof. Plínio, a eficiência termodinâmica é mais do que o dobro do motor atual, permitindo grande queda de consumo.
 De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda global de petróleo cresce 1,2% ao ano e será de 100 milhões de barris diários em 2020.
 Fato interessante é que o petróleo chegou recentemente a 52 dólares, quase perto do preço que equilibra o nosso preço (Petrobras) com o internacional (US$ 58 de acordo com a Tendências Consultoria). Neste preço o diesel está 24% mais caro e a gasolina 16%. Analistas acreditam que a Petrobras precisa de pelo menos dois anos com este diferencial positivo de preços para se recuperar do dano causado pelo subsídio de anos anteriores, que espalhou destruição tanto na empresa como na cadeia da cana. 
 Desde julho venho dizendo sobre um cenário preocupante. Temos menos cana, e desta, mais participação de açúcar no destino do produto. O consumo de combustível deve cair apenas 1%, e a importação de gasolina tem pouca possibilidade de crescimento. Arrisco que o etanol subirá bastante nos próximos meses.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Marcos Landell, um craque da cana que dispensa comentários. Por falar em homenagem, participo ao leitor da Caipirinha minha alegria ao completar neste outubro 25 anos (Jubileu de Prata) de formado Engenheiro Agronômo na ESALQ, e participar da mesma cerimônia onde meu pai completa 50 anos de formado (Jubileu de Ouro). Haja emoção. Termino esta coluna justamente no dia do Engenheiro Agrônomo (12 de outubro) e ficam meus parabéns a todos!
Haja Limão
 Que coisa boa o Brasil andando para frente. Neste momento foi aprovada a PEC que controla os gastos deste glutão que é o Estado brasileiro, e outras importantes vêm por aí. Novos tempos, o Brasil de volta no trilho. A acidez vai diminuindo, mas ainda é interessante ver os partidos da esquerda, que foram humilhantemente derrotados nas urnas neste outubro, sempre indo contra o que o Brasil precisa. E a conversa de “golpistas” foi sepultada pelas urnas. 
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, 
Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do 
Conselho da Orplana.
O que acontece com nosso agro?
 As exportações do agronegócio de janeiro a setembro chega a US$ 67,36 bilhões, 0,6% a mais que o mesmo período do ano passado.  As importações caíram 3,4%, para US$ 9,79 bilhões, com isto o agro deixa um saldo de US$ 57,57 bilhões. O complexo soja já trouxe US$ 23,52 bilhões; em açúcar de janeiro a setembro, exportamos 21,570 milhões de toneladas (32,7% a mais) e com isto entraram US$ 7,371 bilhões (37,5% a mais que em 2015). Em etanol o volume cresceu 44,2% (para 1,294 milhões de litros) e a receita em 40,3% (para US$ 787 milhões). É renda entrando no Brasil!
 Se o clima não atrapalhar nossa safra 2016/17 de acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ficará entre 210,5 milhões e 214,8 milhões de toneladas de grãos. Pode ser até 15% maior que a anterior. A soja deve ficar entre 102 e 104 milhões de toneladas, quase 9% a mais, beneficiada por um aumento de 2,7% na área (total de 34,1 milhões de hectares) e 6% na produtividade. O milho deve produzir entre 26,3 milhões e 27,7 milhões de toneladas (7,3% a mais) e na safrinha serão plantados 10,53 milhões de hectares e colhidos 56,1 milhões de toneladas (37,3% mais). Somando-se as duas safras teremos algo perto de 83 milhões de toneladas, 25% a mais, o que deve dar um refresco para produtores de aves e suínos, que sofreram muito em 2016.
 A Conab acredita também em salto nas exportações. A soja exportará 57 milhões de toneladas (5,4% a mais) e milho 24 milhões de toneladas (20% a mais) na safra 2016/17. 
 A área total ficará entre 58,5 e 59,7 milhões de hectares, podendo ser até 2,3% maior que a 2015/2016, que teve 58,3 milhões de hectares. Lembremos do desafio colocado pela UNCTAD/FAO/ONU (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) em seu relatório deste ano, que precisamos crescer até 2026 simplesmente 11 milhões de hectares só de soja para atender o apetite mundial!
 O Índice de Preços dos Alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) subiu 2,9% em setembro (170,9 pontos). É o maior índice desde março de 2015. Ajudaram os preços de açúcar, lácteos, carne e óleos. Cereais caíram 2,7%. Vale dizer que o índice está 10% acima de setembro de 2015. Ou seja, preços melhores em dólar para os produtores no mundo.
 Em 2016, a produção de cereais deve ser recorde no mundo, crescendo 1,5% (38 milhões de toneladas) sobre o ciclo anterior chegando a 2,569 bilhões de toneladas. O consumo também deve crescer 1,6%, puxado pelo crescimento de rações, e deve atingir 2,560 bilhões de toneladas. Abre-se um mercado de mais 40 milhões de toneladas de grãos.
 A nave do agro tem boas perspectivas de consumo (demanda) e de preços para o período à frente, o clima ajudando, muita renda deve ser gerada. 
O que acontece com nossa cana?
 Relatório do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), mostra que o setor voltou a buscar recursos, quem sabe uma virada à vista. Preveem em 2016, R$ 1,5 bilhão tomados pelo setor, menos que em 2015, mas com recente aceleração. Praticamente 60% dos empréstimos serão para a indústria e principalmente para o açúcar. Porém, a nova diretriz do banco é reduzir a porcentagem no total dos investimentos, exigindo maior participação privada.
 A Tailândia aprova a instalação de 25 novas unidades, chegando a 79 usinas até 2022. É o concorrente que mais vai atrapalhar o Brasil. Devem aumentar de 100 para 180 milhões de toneladas (aumentando de 11 para 20,4 milhões de toneladas de açúcar produzidas ao ano). Também devem aumentar o etanol de 2,5 para 5,4 bilhões de litros. Segundo a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), o Brasil deve abrir um painel contra a Tailândia na OMC - Organização Mundial do Comércio, devido à política de subsídios que afeta exportações. Na minha leitura já deveríamos ter aberto.
 Andamento da safra em setembro: pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar, na primeira quinzena de setembro processou-se 37,67 milhões de toneladas de cana, 26,8% mais que em 2015. De açúcar foram produzidos 2,4 milhões de toneladas (44% a mais), 18% a mais de anidro (705,3 milhões de litros) e 6,3% a mais de hidratado (893,8 milhões de litros).
 Unica estima a produção em 605 milhões de toneladas no ciclo 2016/17. Desde o início da safra processamos 431,32 milhões de toneladas e produzimos 24,82 milhões de toneladas de açúcar e 18,06 bilhões de litros de etanol (7,44 bilhões de litros de etanol anidro e 10,61 bilhões de litros de etanol hidratado).
 Como vai faltar cana e consequentemente sobrar capacidade de moagem, teremos perda operacional (maior ociosidade neste ano) e isto gera deseconomias de escala e custo unitário médio maior. Por outro lado, usinas estão reduzindo a moagem e colocando mais caldo para fazer açúcar, o que vem transformando fortemente o perfil da safra, crescendo o mix para açúcar. 
 O interessante é que mesmo com preços muito mais remuneradores, a conversa inicial é que a safra 2017/18 não deve crescer muito em relação aos 605 milhões desta... E teremos consumo crescente... 
O que acontece com nosso açúcar?
 Em 2016/17, a Índia devera produzir menos do que o seu consumo  (primeira vez em mais de 6 anos). Deve importar a partir de 1/10, devido à diminuição dos estoques. A estimativa da indústria é produzir 23,37 milhões de toneladas de açúcar em 2016/17 (7% a menos). Deverão importar 2 milhões de toneladas, com impacto positivo no mercado mundial. 
 O mundo terá que aumentar a produção de açúcar, pois vêm períodos de déficits. A melhor safra mundial (lembra que começa em 1 de outubro de cada ano) foi em 12/13, com 182,2 milhões de toneladas. Segundo a Platts, existe capacidade hoje para produzir 190,8 milhões de toneladas de açúcar por safra, caso o clima seja perfeito e os tratos culturais também (no mundo todo). Neste caso seria possível atender ao consumo, mas sabemos que isto é muito difícil de acontecer. A Platts acredita na Tailândia como o maior ganhador do crescimento do mercado. A limitação da Índia seria mais no agrícola, mas acreditam que com melhorias nas lavouras pode crescer até 9 milhões de toneladas, atingindo em 20/21 quase 34 milhões de toneladas. Acredita-se que o deficit em 2016/17 será de 6,45 milhões de toneladas, contra 5,21 milhões de toneladas desta safra.
 Acredita-se que a China tem cerca de 7 milhões de toneladas estocadas (cerca de 40% do consumo anual) e pode vender ao redor de 2 milhões de toneladas nesta safra 2016/17, sendo este um fator baixista.
  Seguem estimativas de déficit global também na safra 16/17, ao redor de 7 milhões de toneladas. A FC Stone projeta déficit de 9,7 milhões de toneladas. 
 A União Europeia na safra 16/17 deve produzir ao redor de 17,3 milhões de toneladas, crescendo 16% sobre a produção de 15/16. 
 Segundo o Governo da Tailândia, a produção de cana de açúcar de 2016/17 cairá 3,2% devido à seca. Deve colher 91 milhões de toneladas, contra 94,05 milhões de toneladas em 2015/16. Com isto a produção de açúcar cairá de 9,7 para 9,3 milhões de toneladas, contribuindo para o aumento do déficit global. 
 Este cenário fez o preço passar de 23 centavos de dólar a libra-peso em Nova York e chegar quase a R$ 100 a saca de 50 kg de açúcar cristal no Brasil. Só perde do preço em agosto de 2011, quando atingiu R$ 96,54 a valores de hoje. Em setembro o açúcar subiu mais de 10%.
 A exportação em setembro foi gigante, com 2,7 milhões de toneladas, 90% acima de setembro de 2015 e de 21% acima de agosto de 2016. Segundo maior da história, abaixo apenas das 3,17 milhões de toneladas de outubro/12. Podemos bater neste ano 27 milhões de toneladas exportadas. Estamos até o final de setembro, 39% acima do mesmo período de 2015. 
 Como fator de preocupação no mercado, temos a recente avaliação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que sugere novos impostos que possam reduzir de fato o consumo de produtos que contém muito açúcar. Isto poderia elevar os preços destes produtos em mais de 20% e reduzir o consumo, segundo eles, melhorando a nutrição e reduzindo a obesidade. Segundo a OMS, em 2014 cerca de 39% dos adultos estariam obesos, e esta taxa mais do que dobra desde 1980. México e Hungria já iniciaram impostos nesses produtos, enquanto Filipinas, África do Sul e Reino Unido têm projetos.
 Outra ameaça mais premente vem da China, devido a um problema ligado a um questionário do país para investigações das importações de açúcar. O Brasil exporta 50% do total comprado pelos chineses, passando de 2,5 milhões de toneladas/ano. Torcer para isto não dar problema. 
 Surgiu a RAW, joint venture entre Raízen (por sua vez outra joint venture da Cosan e Shell) e a Wilmar. Devem exportar ao redor de 4,5 milhões de toneladas, sendo 3 milhões vindos da produção da Raízen. A Alvean (joint venture da Cargill e Copersucar), comercializa mundialmente cerca de 11,5 milhões de toneladas, originando 5 milhões do Brasil. Mundo de gigantes.
 Trago aqui comentário do Arnaldo Correa, estimando que usinas com boa capacidade de gestão produzem açúcar a 13,25 centavos de dólar por libra-peso na usina, e sem custo financeiro. Isto daria em torno de R$ 1.000-1.050 por tonelada de custo (FOB Santos). No início de outubro, o preço de fechamento bateu R$ 1.700 por tonelada. É um bom preço de fechamento, ainda mais se pensarmos na possibilidade de valorização do real, que compensaria uma subida de preços do açúcar. Ou seja, podemos planejar bem 2016/17 e 2017/18 com parte sendo fixada. 
 Nesta safra aconteceu algo muito interessante. Usinas altamente endividadas que não conseguiram fazer hedge no início da safra, acabaram tendo muito produto livre para vender agora a preços incrivelmente remuneradores, o que deve ajudar na difícil luta contra a doença financeira.  
 Como reflexão final, vale outra vez a minha frase aqui... “preço muito bom, não é bom”. Torço para que o preço do açúcar não suba mais, pois o boleto aparece mais adiante, com estímulo a investir, superávits de produção no mundo e preços baixos.
O que acontece com nosso etanol?
 ANP: o consumo de combustíveis em agosto/2016 em gasolina equivalente foi de 4,48 bilhões de litros. De setembro de 2015 até agosto de 2016 foram consumidos 53,18 bilhões de litros (1,72% menor que igual período no ano anterior). O consumo deve encerrar 2016 caindo apenas 1%, o que é um bom número frente à crise que vivemos. 
 A Índia está fortalecendo a produção de etanol, visando reduzir a dependência do petróleo (importa 80% do seu consumo de gasolina e diesel). A mistura de etanol na gasolina é de 4% em média, devendo ir a 10%, meta estabelecida em dezembro do ano passado. Em 2015 a Índia já produziu 3 bilhões de litros. 
 Segundo o Cepea, o preço médio da parcial desta safra 2016/17 (de abril/16 a setembro/16) do etanol hidratado está 10,1% superior ao da safra passada. O anidro está 10,5% acima. Na última semana de setembro o preço foi de R$ 1,73 para o hidratado e R$ 1,92 para o anidro. 
 Distribuidores compraram muito etanol em setembro, com medo do aumento dos preços. O volume no mercado spot nas usinas paulistas cresceu quase 50% no hidratado e 170% no anidro. Estes preços começam a ser repassados nos postos.
 Menor produção de etanol neste ano (até o momento 6,7% menor) vai forçar importação de gasolina. Pela FG/A custa R$ 0,2760 o litro para importar, somado ao preço na bolsa de Nova York de R$ 1,219 o litro, chega-se a um valor de R$ 1,495 o litro, enquanto que a Petrobrás vendia a gasolina A por R$ 1,503 o litro.
 Segundo Pedro Parente, presidente da Petrobras, a empresa passa a ter mais autonomia para fixar os preços. Neste momento os preços de gasolina e diesel estão acima dos internacionais (27% e 23%, respectivamente), para melhorar a situação financeira da empresa. Além disto, deixará as áreas de fertilizantes, biocombustível, petroquímica e distribuição de GLP. No seu plano de negócios, estimam preço do petróleo a R$ 157 por barril para 2016 (Brent a US$ 45 e câmbio a R$ 3,48), e em R$ 268 para 2021 (Brent a US$ 71 e câmbio a R$ 3,78).
 A Nissan traz a novidade do etanol sendo usado para o carro movido à hidrogênio, pois o etanol pode gerá-lo através de um catalisador. De acordo com o prof. Plínio Nastari, a atual tecnologia é ineficiente ao converter o poder calorífico. Nos motores a combustão interna do ciclo Otto, a eficiência termodinâmica é 25%, nos do ciclo Diesel de 29%, sendo que o resto se perde em calor e os motores precisam ser pesados para resistir e ter sistemas de refrigeração. O veículo elétrico seria bem mais eficiente, mas este tem problemas se a geração for feita por combustível fóssil, bem como o custo e durabilidade das baterias. 
 O novo carro é abastecido com etanol, que é transformado em hidrogênio. A reação do hidrogênio e do oxigênio gera eletricidade e água. Segundo o prof. Plínio, a eficiência termodinâmica é mais do que o dobro do motor atual, permitindo grande queda de consumo.
 De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda global de petróleo cresce 1,2% ao ano e será de 100 milhões de barris diários em 2020.
 Fato interessante é que o petróleo chegou recentemente a 52 dólares, quase perto do preço que equilibra o nosso preço (Petrobras) com o internacional (US$ 58 de acordo com a Tendências Consultoria). Neste preço o diesel está 24% mais caro e a gasolina 16%. Analistas acreditam que a Petrobras precisa de pelo menos dois anos com este diferencial positivo de preços para se recuperar do dano causado pelo subsídio de anos anteriores, que espalhou destruição tanto na empresa como na cadeia da cana. 
 Desde julho venho dizendo sobre um cenário preocupante. Temos menos cana, e desta, mais participação de açúcar no destino do produto. O consumo de combustível deve cair apenas 1%, e a importação de gasolina tem pouca possibilidade de crescimento. Arrisco que o etanol subirá bastante nos próximos meses.
Quem é o homenageado do mês? 
 Todos os meses nossa coluna traz uma singela homenagem a alguém que sempre contribui com o agronegócio e com a cana. Neste mês o homenageado é o Marcos Landell, um craque da cana que dispensa comentários. Por falar em homenagem, participo ao leitor da Caipirinha minha alegria ao completar neste outubro 25 anos (Jubileu de Prata) de formado Engenheiro Agronômo na ESALQ, e participar da mesma cerimônia onde meu pai completa 50 anos de formado (Jubileu de Ouro). Haja emoção. Termino esta coluna justamente no dia do Engenheiro Agrônomo (12 de outubro) e ficam meus parabéns a todos!
Haja Limão
 Que coisa boa o Brasil andando para frente. Neste momento foi aprovada a PEC que controla os gastos deste glutão que é o Estado brasileiro, e outras importantes vêm por aí. Novos tempos, o Brasil de volta no trilho. A acidez vai diminuindo, mas ainda é interessante ver os partidos da esquerda, que foram humilhantemente derrotados nas urnas neste outubro, sempre indo contra o que o Brasil precisa. E a conversa de “golpistas” foi sepultada pelas urnas. 

Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, 
Campus de Ribeirão Preto.
Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do 
Conselho da Orplana.

Marcos Landell