Marcos Fava Neves

Economista

Marcos

Fava Neves

professor titular de planejamento e estratégia na FEA/USP Campus Ribeirão Preto e coordenador científico do Markestrat.

revistacanavieiros@revistacanavieiros.com.br

O etanol reage e a China surpreende

 
05/10/2017

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em setembro, projeta a safra de grãos 2016/2017 em 238,8 milhões de toneladas, sendo 28% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16 ou simplesmente 52,2 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada chega a quase 70 milhões de hectares (4,4% maior que a anterior) somando mais de 2,5 milhões de hectares à produção. Analisando-se por algumas culturas, no algodão já quase terminamos a colheita, com 1.529,5 mil toneladas de pluma e 2.298,3 mil toneladas de caroço. De amendoim foram 438,8 mil toneladas, também 13% acima. O arroz também veio forte, com 12,33 milhões de toneladas de produção. A soja manteve as 114 milhões de toneladas e o milho ajudou a dar incrível este salto, chegando a 97,71 milhões de toneladas, somando-se as duas safras. Por fim, de trigo ainda temos riscos, mas devemos produzir algo ao redor de 5,22 milhões de toneladas. Grãos e mais grãos! 
Outra boa notícia foi a performance nas exportações. Foram US$ 9 bilhões trazidos pelo agro (46,4% das vendas do país) em agosto, praticamente 18,5% mais que agosto de 2016, deixando um superavit de US$ 7,8 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto o agro trouxe US$ 65,4 bilhões, quase 8,3% acima de 2016. O superavit deixado já está em US$ 56 bilhões (7,5% acima). Os produtos da soja vêm sendo o destaque do ano e em julho foram exportados mais US$ 2,7 bilhões. Só de soja-grão foram quase 6 milhões de toneladas. No milho exportamos US$ 818 milhões, quase 90% a mais. Carnes também estão 20% acima, trazendo mais de US$ 1,5 bilhão neste mês. Dólares e mais dólares!
O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 176,6 pontos, 1,3% abaixo de julho e 6% acima de agosto de 2016. Cereais (5,4% de queda), açúcar (1,7%) e carnes (1,2%) derrubaram o índice, mesmo com os aumentos de óleos vegetais (2,5%) e os lácteos (1,4%). A FAO estima que a produção de grãos em 2017 vai atingir recorde, pois o mundo deve produzir 2,611 bilhões de toneladas e utilizar 2,591 bilhões, praticamente 1% a mais que em 2016 ou 23 milhões de toneladas a mais. Cerca de 403 milhões de toneladas serão comercializadas internacionalmente, 2,2% acima do ano anterior, jogando também os estoques para valores recordes de 719 milhões de toneladas (2% acima). 
Isto trouxe reflexos nos preços e no ânimo dos produtores. Pelos números do Valor Data os preços da soja recuaram quase 5,5% em agosto e 4,6% em relação a agosto de 2016. Os do milho recuaram 5,7% em relação ao mês passado, mas estão 10,3% acima do ano passado. O trigo caiu também 13,3% no mês e está 6,23% acima em relação ao ano passado. As demais commodities também caíram em agosto e em relação ao ano anterior, nos seguintes valores: cacau (34,72%), açúcar (28,99%), suco de laranja (26,22%), café (5,18%) e algodão (1,95%).
As expectativas da safra que se inicia (2017/18) não são das melhores. Como vimos no balanço da FAO, tem muito grão sendo produzido e elevados estoques no mundo, a safra americana veio razoavelmente bem. Com esta análise, o USDA (departamento de Agricultura dos Estados Unidos) projeta os preços para este próximo ciclo ligeiramente piores. A soja deve ficar entre US$ 8,35 e US$ 10,05 por bushel (27,2 kg), pois a situação de estoques é muito confortável e para o milho, esperam entre US$ 2,80 e US$ 3,60 por bushel (25,2 kg). Portanto, muito cuidado agora, pois o cobertor de preços estará bem curto, agravado pela valorização do Real.
Sempre temos como melhorar em custos de produção. Apenas um exemplo, o ESALQLOG trouxe interessante estudo sobre a infraestrutura brasileira e o prejuízo ao setor de grãos, com destaque para soja e milho, que em 2015 tiveram perdas de 2,4 milhões de toneladas, ou praticamente R$ 2 bilhões, no transporte (incluindo transbordos) e armazenagem distante das fazendas. Mais de 2,3% da carga transportada é perdida.
Neste mês vale destacar a apresentação da Cargill sobre seus dados no agro brasileiro. A receita foi de R$ 33,1 bilhões, acima dos R$ 32,8 bilhões de 2015, e um lucro de quase 50% a mais. Cerca de R$ 3,8 bilhões foram investidos desde 2010, sendo R$ 775 milhões em 2016. Fortaleceram a originação com o uso do banco próprio e de mais ações de barter.  Destaca o investimento feito em etanol de milho junto com a USJ em Quirinópolis e na Alvean, que já movimenta 35% do açúcar mundial transacionado. 
Enfim, as notícias de final de agosto e setembro no geral foram de muita produção, muita exportação, mas queda de preços dos principais produtos e valorização do real. Também continua a bagunça no cenário político, com denúncias e condenações sequenciais, mas que não tem contaminado um relativo otimismo na economia. Chama atenção a entrada de capitais de risco em investimentos no setor de produção de alimentos, visando a grandes inovações. Desde gestão de dados, máquinas e engenharia de plantas e micróbios. Neste mês li sobre a NewLeaf Symbiotics, que também está em Saint Louis, EUA, estudando o bioma das plantas, principalmente os componentes do solo, bactérias e outros, e seus efeitos melhorando as condições das sementes e das plantas. A inovação segue firme. 
O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de agosto foi de 381,52 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 3,62% em relação à safra anterior. Já foram produzidos 23,26 milhões de toneladas de açúcar (22,51 milhões em 2016), e no etanol 15,29 bilhões de litros (-7,55%). O hidratado caiu 11,33%, para 8,69 bilhões de litros e o anidro caiu 2,3%, para 6,6 bilhões de litros. Porém, com a mudança do mix, o etanol começa a buscar os números, pelo menos do ano passado. 
No ATR estamos ligeiramente acima do ano passado, chegando a 131,99 kg/ton (0,95% acima). Esta última quinzena já mostra uma safra menos açucareira, finalmente o mix está mudando. Foi de 46,95% para açúcar, 3,5% a menos que na quinzena anterior. Com isto produzimos 3,15% a mais de etanol e conseguimos a maior venda quinzenal dos últimos 12 meses, com 12% de crescimento na quinzena. No mês de agosto foram vendidos 2,19 bilhões de litros para o mercado interno, sendo 1,37 bilhões de hidratado (23% a mais que julho). Tardou, mas chegou a onda do etanol.
No primeiro trimestre da safra 2017/18 a USJ teve prejuízo de R$ 42 milhões, contra lucro de R$ 50 milhões no ano anterior. Pesaram aumento dos custos operacionais e variação cambial. O endividamento em 30 de junho estava em R$ 1,125 bilhão, 5,6% a mais que no ano anterior. 
O CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) prepara a abertura de capital para 2021, na B3 e na Nasdaq onde estão muitas empresas de biotecnologia, agora que a empresa tem sua primeira cana geneticamente modificada. Espera até este período manter as vendas crescendo 20% ao ano e aumentar o share de suas variedades para 20%, hoje estimado em 12 a 13% do total plantado no Brasil. Mesmo valor é a margem EBDTA e também neste caso a meta é chegar a 20%. Hoje a empresa investe cerca de R$ 200 milhões por ano em P&D e deve construir um laboratório nos EUA. 
 
O que aconteceu com nosso açúcar?
Notícia boa ao mercado foi uma possível sinalização da Índia para abrir importações visando cobrir o deficit deste ano, onde produzirão 21 milhões de toneladas e consumirão 25 milhões.
Também ajudou a alta do petróleo, graças aos problemas nos EUA, devendo estimular mais o etanol. Desde o dia 3 de julho a gasolina já subiu 16%. 
Segundo a Archer, os preços médios de fechamento de agosto foram de 13,80 centavos de dólar por libra-peso. Usinas também estão atrasando a fixação de preços para o ano que vem, o que pode ser expectativa altista. 
Segue firme o pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas de grande oferta, com notícias vindas da União Europeia, Paquistão e outros. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 14,40 centavos de dólar por libra-peso. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 53,00, bem decepcionante. Resta esperar a onda de hidratado!
O que acontece com nosso etanol?
O consumo de combustíveis cresceu 1,48% em julho, sendo o terceiro mês seguido de crescimento. Porém, no ano até o momento a queda é de 0,9%.  O diesel cresceu 2,5%, Ciclo Otto cresceu 1,5%, puxado por um aumento de 7,5% na gasolina no mês e 7,3% no ano. No etanol hidratado seguem más as notícias, pois em julho o consumo caiu 21% (total de 1,035 milhão de m3) e no acumulado do ano, quase 20%. Porém, nos primeiros 15 dias de agosto as vendas de etanol no Centro-Sul, das Usinas para as distribuidoras, tiveram crescimento de 14%, o que pode levar a demanda superar 1,3 bilhão de litros.
Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) do Ministério de Minas e Energia, pelo uso de etanol e biodiesel, o país deixou de emitir em 2016, respectivamente, 55,1 milhões e 9,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq). 75,7% do nosso biodiesel é feito com óleo de soja, e 15,4% com sebo bovino. A EPE também estima em quase 31% a participação da biomassa na geração energética brasileira. Do consumo brasileiro, 5% já vem da cogeração das usinas. Da matriz energética brasileira em 2016, 44% da oferta é de fontes renováveis, e ainda crescendo 2,2% em relação a 2015.
Exportamos em agosto US$ 90 milhões em etanol e no ano US$ 529 milhões. Como importamos US$ 64 milhões em etanol, e no acumulado do ano temos US$ 741 milhões, cerca de 276,1% a mais que o mesmo período de 2016, a balança está negativa em US$ 212,322 milhões entre janeiro e agosto.
Segundo a Datagro, cresceu mais de 30% a produção de etanol na Argentina neste primeiro trimestre, pulando para 504 mil m³. Estimam que no ano a produção crescerá quase 20%, passando de 1 bilhão de litros. Existem planos para se vender carros flex e se colocar hidratado nos postos.
A China também anunciou que estuda proibir as vendas de carros movidos a combustíveis fósseis em 2040 e fez um anúncio que pode ser a grande notícia do mês: a partir de 2020 toda a gasolina vendida neste que é o maior mercado de carros do mundo, passará a ter 10% de etanol. Isto é uma excelente informação aos produtores de grãos, significando quase que literalmente, a queima dos estoques chineses de milho, sem colocar um grão sequer no mercado. Devem fazer pelo menos 10 grandes unidades de etanol até o próximo ano, que consumirão 3 milhões de toneladas de milho. Estima-se que para fazer o E10, ao consumo de hoje, seriam necessárias 45 milhões de toneladas de milho por ano. 
No fechamento da leitura, o hidratado estava R$ 1,58 e o anidro R$ 1,73/litro (spot Cepea). Meu viés para o etanol também é altista, continuo acreditando no aumento do consumo de combustíveis agora e podemos ser surpreendidos com o real tamanho da safra, fora a seca de setembro que está comprometendo, pelo menos o desempenho de 2018. 
O Brasil é pródigo em fornecer ao mundo imagens incríveis. Os R$ 51 milhões achados em caixas num apartamento da Bahia entram no rol destas imagens eternas. É impressionante a dimensão da quadrilha que se estruturou para assaltar o contribuinte brasileiro. Também impressiona o volume de brasileiros que ainda não acreditam no que fez esta quadrilha.   
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto. Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.
A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em setembro, projeta a safra de grãos 2016/2017 em 238,8 milhões de toneladas, sendo 28% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16 ou simplesmente 52,2 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada chega a quase 70 milhões de hectares (4,4% maior que a anterior) somando mais de 2,5 milhões de hectares à produção. Analisando-se por algumas culturas, no algodão já quase terminamos a colheita, com 1.529,5 mil toneladas de pluma e 2.298,3 mil toneladas de caroço. De amendoim foram 438,8 mil toneladas, também 13% acima. O arroz também veio forte, com 12,33 milhões de toneladas de produção. A soja manteve as 114 milhões de toneladas e o milho ajudou a dar incrível este salto, chegando a 97,71 milhões de toneladas, somando-se as duas safras. Por fim, de trigo ainda temos riscos, mas devemos produzir algo ao redor de 5,22 milhões de toneladas. Grãos e mais grãos! 
Outra boa notícia foi a performance nas exportações. Foram US$ 9 bilhões trazidos pelo agro (46,4% das vendas do país) em agosto, praticamente 18,5% mais que agosto de 2016, deixando um superavit de US$ 7,8 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto o agro trouxe US$ 65,4 bilhões, quase 8,3% acima de 2016. O superavit deixado já está em US$ 56 bilhões (7,5% acima). Os produtos da soja vêm sendo o destaque do ano e em julho foram exportados mais US$ 2,7 bilhões. Só de soja-grão foram quase 6 milhões de toneladas. No milho exportamos US$ 818 milhões, quase 90% a mais. Carnes também estão 20% acima, trazendo mais de US$ 1,5 bilhão neste mês. Dólares e mais dólares!
O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 176,6 pontos, 1,3% abaixo de julho e 6% acima de agosto de 2016. Cereais (5,4% de queda), açúcar (1,7%) e carnes (1,2%) derrubaram o índice, mesmo com os aumentos de óleos vegetais (2,5%) e os lácteos (1,4%). A FAO estima que a produção de grãos em 2017 vai atingir recorde, pois o mundo deve produzir 2,611 bilhões de toneladas e utilizar 2,591 bilhões, praticamente 1% a mais que em 2016 ou 23 milhões de toneladas a mais. Cerca de 403 milhões de toneladas serão comercializadas internacionalmente, 2,2% acima do ano anterior, jogando também os estoques para valores recordes de 719 milhões de toneladas (2% acima). 
Isto trouxe reflexos nos preços e no ânimo dos produtores. Pelos números do Valor Data os preços da soja recuaram quase 5,5% em agosto e 4,6% em relação a agosto de 2016. Os do milho recuaram 5,7% em relação ao mês passado, mas estão 10,3% acima do ano passado. O trigo caiu também 13,3% no mês e está 6,23% acima em relação ao ano passado. As demais commodities também caíram em agosto e em relação ao ano anterior, nos seguintes valores: cacau (34,72%), açúcar (28,99%), suco de laranja (26,22%), café (5,18%) e algodão (1,95%).
As expectativas da safra que se inicia (2017/18) não são das melhores. Como vimos no balanço da FAO, tem muito grão sendo produzido e elevados estoques no mundo, a safra americana veio razoavelmente bem. Com esta análise, o USDA (departamento de Agricultura dos Estados Unidos) projeta os preços para este próximo ciclo ligeiramente piores. A soja deve ficar entre US$ 8,35 e US$ 10,05 por bushel (27,2 kg), pois a situação de estoques é muito confortável e para o milho, esperam entre US$ 2,80 e US$ 3,60 por bushel (25,2 kg). Portanto, muito cuidado agora, pois o cobertor de preços estará bem curto, agravado pela valorização do Real.
Sempre temos como melhorar em custos de produção. Apenas um exemplo, o ESALQLOG trouxe interessante estudo sobre a infraestrutura brasileira e o prejuízo ao setor de grãos, com destaque para soja e milho, que em 2015 tiveram perdas de 2,4 milhões de toneladas, ou praticamente R$ 2 bilhões, no transporte (incluindo transbordos) e armazenagem distante das fazendas. Mais de 2,3% da carga transportada é perdida.
Neste mês vale destacar a apresentação da Cargill sobre seus dados no agro brasileiro. A receita foi de R$ 33,1 bilhões, acima dos R$ 32,8 bilhões de 2015, e um lucro de quase 50% a mais. Cerca de R$ 3,8 bilhões foram investidos desde 2010, sendo R$ 775 milhões em 2016. Fortaleceram a originação com o uso do banco próprio e de mais ações de barter.  Destaca o investimento feito em etanol de milho junto com a USJ em Quirinópolis e na Alvean, que já movimenta 35% do açúcar mundial transacionado. 
Enfim, as notícias de final de agosto e setembro no geral foram de muita produção, muita exportação, mas queda de preços dos principais produtos e valorização do real. Também continua a bagunça no cenário político, com denúncias e condenações sequenciais, mas que não tem contaminado um relativo otimismo na economia. Chama atenção a entrada de capitais de risco em investimentos no setor de produção de alimentos, visando a grandes inovações. Desde gestão de dados, máquinas e engenharia de plantas e micróbios. Neste mês li sobre a NewLeaf Symbiotics, que também está em Saint Louis, EUA, estudando o bioma das plantas, principalmente os componentes do solo, bactérias e outros, e seus efeitos melhorando as condições das sementes e das plantas. A inovação segue firme. 

O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de agosto foi de 381,52 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 3,62% em relação à safra anterior. Já foram produzidos 23,26 milhões de toneladas de açúcar (22,51 milhões em 2016), e no etanol 15,29 bilhões de litros (-7,55%). O hidratado caiu 11,33%, para 8,69 bilhões de litros e o anidro caiu 2,3%, para 6,6 bilhões de litros. Porém, com a mudança do mix, o etanol começa a buscar os números, pelo menos do ano passado. 
No ATR estamos ligeiramente acima do ano passado, chegando a 131,99 kg/ton (0,95% acima). Esta última quinzena já mostra uma safra menos açucareira, finalmente o mix está mudando. Foi de 46,95% para açúcar, 3,5% a menos que na quinzena anterior. Com isto produzimos 3,15% a mais de etanol e conseguimos a maior venda quinzenal dos últimos 12 meses, com 12% de crescimento na quinzena. No mês de agosto foram vendidos 2,19 bilhões de litros para o mercado interno, sendo 1,37 bilhões de hidratado (23% a mais que julho). Tardou, mas chegou a onda do etanol.
No primeiro trimestre da safra 2017/18 a USJ teve prejuízo de R$ 42 milhões, contra lucro de R$ 50 milhões no ano anterior. Pesaram aumento dos custos operacionais e variação cambial. O endividamento em 30 de junho estava em R$ 1,125 bilhão, 5,6% a mais que no ano anterior. 
O CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) prepara a abertura de capital para 2021, na B3 e na Nasdaq onde estão muitas empresas de biotecnologia, agora que a empresa tem sua primeira cana geneticamente modificada. Espera até este período manter as vendas crescendo 20% ao ano e aumentar o share de suas variedades para 20%, hoje estimado em 12 a 13% do total plantado no Brasil. Mesmo valor é a margem EBDTA e também neste caso a meta é chegar a 20%. Hoje a empresa investe cerca de R$ 200 milhões por ano em P&D e deve construir um laboratório nos EUA. 
 
O que aconteceu com nosso açúcar?
Notícia boa ao mercado foi uma possível sinalização da Índia para abrir importações visando cobrir o deficit deste ano, onde produzirão 21 milhões de toneladas e consumirão 25 milhões.
Também ajudou a alta do petróleo, graças aos problemas nos EUA, devendo estimular mais o etanol. Desde o dia 3 de julho a gasolina já subiu 16%. 
Segundo a Archer, os preços médios de fechamento de agosto foram de 13,80 centavos de dólar por libra-peso. Usinas também estão atrasando a fixação de preços para o ano que vem, o que pode ser expectativa altista. 
Segue firme o pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas de grande oferta, com notícias vindas da União Europeia, Paquistão e outros. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 14,40 centavos de dólar por libra-peso. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 53,00, bem decepcionante. Resta esperar a onda de hidratado!
O que acontece com nosso etanol?
O consumo de combustíveis cresceu 1,48% em julho, sendo o terceiro mês seguido de crescimento. Porém, no ano até o momento a queda é de 0,9%.  O diesel cresceu 2,5%, Ciclo Otto cresceu 1,5%, puxado por um aumento de 7,5% na gasolina no mês e 7,3% no ano. No etanol hidratado seguem más as notícias, pois em julho o consumo caiu 21% (total de 1,035 milhão de m3) e no acumulado do ano, quase 20%. Porém, nos primeiros 15 dias de agosto as vendas de etanol no Centro-Sul, das Usinas para as distribuidoras, tiveram crescimento de 14%, o que pode levar a demanda superar 1,3 bilhão de litros.
Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) do Ministério de Minas e Energia, pelo uso de etanol e biodiesel, o país deixou de emitir em 2016, respectivamente, 55,1 milhões e 9,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq). 75,7% do nosso biodiesel é feito com óleo de soja, e 15,4% com sebo bovino. A EPE também estima em quase 31% a participação da biomassa na geração energética brasileira. Do consumo brasileiro, 5% já vem da cogeração das usinas. Da matriz energética brasileira em 2016, 44% da oferta é de fontes renováveis, e ainda crescendo 2,2% em relação a 2015.
Exportamos em agosto US$ 90 milhões em etanol e no ano US$ 529 milhões. Como importamos US$ 64 milhões em etanol, e no acumulado do ano temos US$ 741 milhões, cerca de 276,1% a mais que o mesmo período de 2016, a balança está negativa em US$ 212,322 milhões entre janeiro e agosto.
Segundo a Datagro, cresceu mais de 30% a produção de etanol na Argentina neste primeiro trimestre, pulando para 504 mil m³. Estimam que no ano a produção crescerá quase 20%, passando de 1 bilhão de litros. Existem planos para se vender carros flex e se colocar hidratado nos postos.
A China também anunciou que estuda proibir as vendas de carros movidos a combustíveis fósseis em 2040 e fez um anúncio que pode ser a grande notícia do mês: a partir de 2020 toda a gasolina vendida neste que é o maior mercado de carros do mundo, passará a ter 10% de etanol. Isto é uma excelente informação aos produtores de grãos, significando quase que literalmente, a queima dos estoques chineses de milho, sem colocar um grão sequer no mercado. Devem fazer pelo menos 10 grandes unidades de etanol até o próximo ano, que consumirão 3 milhões de toneladas de milho. Estima-se que para fazer o E10, ao consumo de hoje, seriam necessárias 45 milhões de toneladas de milho por ano. 
No fechamento da leitura, o hidratado estava R$ 1,58 e o anidro R$ 1,73/litro (spot Cepea). Meu viés para o etanol também é altista, continuo acreditando no aumento do consumo de combustíveis agora e podemos ser surpreendidos com o real tamanho da safra, fora a seca de setembro que está comprometendo, pelo menos o desempenho de 2018. 
O Brasil é pródigo em fornecer ao mundo imagens incríveis. Os R$ 51 milhões achados em caixas num apartamento da Bahia entram no rol destas imagens eternas. É impressionante a dimensão da quadrilha que se estruturou para assaltar o contribuinte brasileiro. Também impressiona o volume de brasileiros que ainda não acreditam no que fez esta quadrilha.   

Quem é o homenageado do mês? 
Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai ao craque do setor, engenheiro agrônomo Jose Luis Coelho, a fusão perfeita de conhecimento e simpatia. 

Fonte: Revista Canavieiros edição 135 - Setembro 2017

O etanol reage e a China surpreende

05/10/2017

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em setembro, projeta a safra de grãos 2016/2017 em 238,8 milhões de toneladas, sendo 28% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16 ou simplesmente 52,2 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada chega a quase 70 milhões de hectares (4,4% maior que a anterior) somando mais de 2,5 milhões de hectares à produção. Analisando-se por algumas culturas, no algodão já quase terminamos a colheita, com 1.529,5 mil toneladas de pluma e 2.298,3 mil toneladas de caroço. De amendoim foram 438,8 mil toneladas, também 13% acima. O arroz também veio forte, com 12,33 milhões de toneladas de produção. A soja manteve as 114 milhões de toneladas e o milho ajudou a dar incrível este salto, chegando a 97,71 milhões de toneladas, somando-se as duas safras. Por fim, de trigo ainda temos riscos, mas devemos produzir algo ao redor de 5,22 milhões de toneladas. Grãos e mais grãos! 
Outra boa notícia foi a performance nas exportações. Foram US$ 9 bilhões trazidos pelo agro (46,4% das vendas do país) em agosto, praticamente 18,5% mais que agosto de 2016, deixando um superavit de US$ 7,8 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto o agro trouxe US$ 65,4 bilhões, quase 8,3% acima de 2016. O superavit deixado já está em US$ 56 bilhões (7,5% acima). Os produtos da soja vêm sendo o destaque do ano e em julho foram exportados mais US$ 2,7 bilhões. Só de soja-grão foram quase 6 milhões de toneladas. No milho exportamos US$ 818 milhões, quase 90% a mais. Carnes também estão 20% acima, trazendo mais de US$ 1,5 bilhão neste mês. Dólares e mais dólares!
O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 176,6 pontos, 1,3% abaixo de julho e 6% acima de agosto de 2016. Cereais (5,4% de queda), açúcar (1,7%) e carnes (1,2%) derrubaram o índice, mesmo com os aumentos de óleos vegetais (2,5%) e os lácteos (1,4%). A FAO estima que a produção de grãos em 2017 vai atingir recorde, pois o mundo deve produzir 2,611 bilhões de toneladas e utilizar 2,591 bilhões, praticamente 1% a mais que em 2016 ou 23 milhões de toneladas a mais. Cerca de 403 milhões de toneladas serão comercializadas internacionalmente, 2,2% acima do ano anterior, jogando também os estoques para valores recordes de 719 milhões de toneladas (2% acima). 
Isto trouxe reflexos nos preços e no ânimo dos produtores. Pelos números do Valor Data os preços da soja recuaram quase 5,5% em agosto e 4,6% em relação a agosto de 2016. Os do milho recuaram 5,7% em relação ao mês passado, mas estão 10,3% acima do ano passado. O trigo caiu também 13,3% no mês e está 6,23% acima em relação ao ano passado. As demais commodities também caíram em agosto e em relação ao ano anterior, nos seguintes valores: cacau (34,72%), açúcar (28,99%), suco de laranja (26,22%), café (5,18%) e algodão (1,95%).
As expectativas da safra que se inicia (2017/18) não são das melhores. Como vimos no balanço da FAO, tem muito grão sendo produzido e elevados estoques no mundo, a safra americana veio razoavelmente bem. Com esta análise, o USDA (departamento de Agricultura dos Estados Unidos) projeta os preços para este próximo ciclo ligeiramente piores. A soja deve ficar entre US$ 8,35 e US$ 10,05 por bushel (27,2 kg), pois a situação de estoques é muito confortável e para o milho, esperam entre US$ 2,80 e US$ 3,60 por bushel (25,2 kg). Portanto, muito cuidado agora, pois o cobertor de preços estará bem curto, agravado pela valorização do Real.
Sempre temos como melhorar em custos de produção. Apenas um exemplo, o ESALQLOG trouxe interessante estudo sobre a infraestrutura brasileira e o prejuízo ao setor de grãos, com destaque para soja e milho, que em 2015 tiveram perdas de 2,4 milhões de toneladas, ou praticamente R$ 2 bilhões, no transporte (incluindo transbordos) e armazenagem distante das fazendas. Mais de 2,3% da carga transportada é perdida.
Neste mês vale destacar a apresentação da Cargill sobre seus dados no agro brasileiro. A receita foi de R$ 33,1 bilhões, acima dos R$ 32,8 bilhões de 2015, e um lucro de quase 50% a mais. Cerca de R$ 3,8 bilhões foram investidos desde 2010, sendo R$ 775 milhões em 2016. Fortaleceram a originação com o uso do banco próprio e de mais ações de barter.  Destaca o investimento feito em etanol de milho junto com a USJ em Quirinópolis e na Alvean, que já movimenta 35% do açúcar mundial transacionado. 
Enfim, as notícias de final de agosto e setembro no geral foram de muita produção, muita exportação, mas queda de preços dos principais produtos e valorização do real. Também continua a bagunça no cenário político, com denúncias e condenações sequenciais, mas que não tem contaminado um relativo otimismo na economia. Chama atenção a entrada de capitais de risco em investimentos no setor de produção de alimentos, visando a grandes inovações. Desde gestão de dados, máquinas e engenharia de plantas e micróbios. Neste mês li sobre a NewLeaf Symbiotics, que também está em Saint Louis, EUA, estudando o bioma das plantas, principalmente os componentes do solo, bactérias e outros, e seus efeitos melhorando as condições das sementes e das plantas. A inovação segue firme. 
O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de agosto foi de 381,52 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 3,62% em relação à safra anterior. Já foram produzidos 23,26 milhões de toneladas de açúcar (22,51 milhões em 2016), e no etanol 15,29 bilhões de litros (-7,55%). O hidratado caiu 11,33%, para 8,69 bilhões de litros e o anidro caiu 2,3%, para 6,6 bilhões de litros. Porém, com a mudança do mix, o etanol começa a buscar os números, pelo menos do ano passado. 
No ATR estamos ligeiramente acima do ano passado, chegando a 131,99 kg/ton (0,95% acima). Esta última quinzena já mostra uma safra menos açucareira, finalmente o mix está mudando. Foi de 46,95% para açúcar, 3,5% a menos que na quinzena anterior. Com isto produzimos 3,15% a mais de etanol e conseguimos a maior venda quinzenal dos últimos 12 meses, com 12% de crescimento na quinzena. No mês de agosto foram vendidos 2,19 bilhões de litros para o mercado interno, sendo 1,37 bilhões de hidratado (23% a mais que julho). Tardou, mas chegou a onda do etanol.
No primeiro trimestre da safra 2017/18 a USJ teve prejuízo de R$ 42 milhões, contra lucro de R$ 50 milhões no ano anterior. Pesaram aumento dos custos operacionais e variação cambial. O endividamento em 30 de junho estava em R$ 1,125 bilhão, 5,6% a mais que no ano anterior. 
O CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) prepara a abertura de capital para 2021, na B3 e na Nasdaq onde estão muitas empresas de biotecnologia, agora que a empresa tem sua primeira cana geneticamente modificada. Espera até este período manter as vendas crescendo 20% ao ano e aumentar o share de suas variedades para 20%, hoje estimado em 12 a 13% do total plantado no Brasil. Mesmo valor é a margem EBDTA e também neste caso a meta é chegar a 20%. Hoje a empresa investe cerca de R$ 200 milhões por ano em P&D e deve construir um laboratório nos EUA. 
 
O que aconteceu com nosso açúcar?
Notícia boa ao mercado foi uma possível sinalização da Índia para abrir importações visando cobrir o deficit deste ano, onde produzirão 21 milhões de toneladas e consumirão 25 milhões.
Também ajudou a alta do petróleo, graças aos problemas nos EUA, devendo estimular mais o etanol. Desde o dia 3 de julho a gasolina já subiu 16%. 
Segundo a Archer, os preços médios de fechamento de agosto foram de 13,80 centavos de dólar por libra-peso. Usinas também estão atrasando a fixação de preços para o ano que vem, o que pode ser expectativa altista. 
Segue firme o pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas de grande oferta, com notícias vindas da União Europeia, Paquistão e outros. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 14,40 centavos de dólar por libra-peso. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 53,00, bem decepcionante. Resta esperar a onda de hidratado!
O que acontece com nosso etanol?
O consumo de combustíveis cresceu 1,48% em julho, sendo o terceiro mês seguido de crescimento. Porém, no ano até o momento a queda é de 0,9%.  O diesel cresceu 2,5%, Ciclo Otto cresceu 1,5%, puxado por um aumento de 7,5% na gasolina no mês e 7,3% no ano. No etanol hidratado seguem más as notícias, pois em julho o consumo caiu 21% (total de 1,035 milhão de m3) e no acumulado do ano, quase 20%. Porém, nos primeiros 15 dias de agosto as vendas de etanol no Centro-Sul, das Usinas para as distribuidoras, tiveram crescimento de 14%, o que pode levar a demanda superar 1,3 bilhão de litros.
Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) do Ministério de Minas e Energia, pelo uso de etanol e biodiesel, o país deixou de emitir em 2016, respectivamente, 55,1 milhões e 9,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq). 75,7% do nosso biodiesel é feito com óleo de soja, e 15,4% com sebo bovino. A EPE também estima em quase 31% a participação da biomassa na geração energética brasileira. Do consumo brasileiro, 5% já vem da cogeração das usinas. Da matriz energética brasileira em 2016, 44% da oferta é de fontes renováveis, e ainda crescendo 2,2% em relação a 2015.
Exportamos em agosto US$ 90 milhões em etanol e no ano US$ 529 milhões. Como importamos US$ 64 milhões em etanol, e no acumulado do ano temos US$ 741 milhões, cerca de 276,1% a mais que o mesmo período de 2016, a balança está negativa em US$ 212,322 milhões entre janeiro e agosto.
Segundo a Datagro, cresceu mais de 30% a produção de etanol na Argentina neste primeiro trimestre, pulando para 504 mil m³. Estimam que no ano a produção crescerá quase 20%, passando de 1 bilhão de litros. Existem planos para se vender carros flex e se colocar hidratado nos postos.
A China também anunciou que estuda proibir as vendas de carros movidos a combustíveis fósseis em 2040 e fez um anúncio que pode ser a grande notícia do mês: a partir de 2020 toda a gasolina vendida neste que é o maior mercado de carros do mundo, passará a ter 10% de etanol. Isto é uma excelente informação aos produtores de grãos, significando quase que literalmente, a queima dos estoques chineses de milho, sem colocar um grão sequer no mercado. Devem fazer pelo menos 10 grandes unidades de etanol até o próximo ano, que consumirão 3 milhões de toneladas de milho. Estima-se que para fazer o E10, ao consumo de hoje, seriam necessárias 45 milhões de toneladas de milho por ano. 
No fechamento da leitura, o hidratado estava R$ 1,58 e o anidro R$ 1,73/litro (spot Cepea). Meu viés para o etanol também é altista, continuo acreditando no aumento do consumo de combustíveis agora e podemos ser surpreendidos com o real tamanho da safra, fora a seca de setembro que está comprometendo, pelo menos o desempenho de 2018. 
O Brasil é pródigo em fornecer ao mundo imagens incríveis. Os R$ 51 milhões achados em caixas num apartamento da Bahia entram no rol destas imagens eternas. É impressionante a dimensão da quadrilha que se estruturou para assaltar o contribuinte brasileiro. Também impressiona o volume de brasileiros que ainda não acreditam no que fez esta quadrilha.   
Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto. Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.
A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em setembro, projeta a safra de grãos 2016/2017 em 238,8 milhões de toneladas, sendo 28% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16 ou simplesmente 52,2 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada chega a quase 70 milhões de hectares (4,4% maior que a anterior) somando mais de 2,5 milhões de hectares à produção. Analisando-se por algumas culturas, no algodão já quase terminamos a colheita, com 1.529,5 mil toneladas de pluma e 2.298,3 mil toneladas de caroço. De amendoim foram 438,8 mil toneladas, também 13% acima. O arroz também veio forte, com 12,33 milhões de toneladas de produção. A soja manteve as 114 milhões de toneladas e o milho ajudou a dar incrível este salto, chegando a 97,71 milhões de toneladas, somando-se as duas safras. Por fim, de trigo ainda temos riscos, mas devemos produzir algo ao redor de 5,22 milhões de toneladas. Grãos e mais grãos! 
Outra boa notícia foi a performance nas exportações. Foram US$ 9 bilhões trazidos pelo agro (46,4% das vendas do país) em agosto, praticamente 18,5% mais que agosto de 2016, deixando um superavit de US$ 7,8 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto o agro trouxe US$ 65,4 bilhões, quase 8,3% acima de 2016. O superavit deixado já está em US$ 56 bilhões (7,5% acima). Os produtos da soja vêm sendo o destaque do ano e em julho foram exportados mais US$ 2,7 bilhões. Só de soja-grão foram quase 6 milhões de toneladas. No milho exportamos US$ 818 milhões, quase 90% a mais. Carnes também estão 20% acima, trazendo mais de US$ 1,5 bilhão neste mês. Dólares e mais dólares!
O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 176,6 pontos, 1,3% abaixo de julho e 6% acima de agosto de 2016. Cereais (5,4% de queda), açúcar (1,7%) e carnes (1,2%) derrubaram o índice, mesmo com os aumentos de óleos vegetais (2,5%) e os lácteos (1,4%). A FAO estima que a produção de grãos em 2017 vai atingir recorde, pois o mundo deve produzir 2,611 bilhões de toneladas e utilizar 2,591 bilhões, praticamente 1% a mais que em 2016 ou 23 milhões de toneladas a mais. Cerca de 403 milhões de toneladas serão comercializadas internacionalmente, 2,2% acima do ano anterior, jogando também os estoques para valores recordes de 719 milhões de toneladas (2% acima). 
Isto trouxe reflexos nos preços e no ânimo dos produtores. Pelos números do Valor Data os preços da soja recuaram quase 5,5% em agosto e 4,6% em relação a agosto de 2016. Os do milho recuaram 5,7% em relação ao mês passado, mas estão 10,3% acima do ano passado. O trigo caiu também 13,3% no mês e está 6,23% acima em relação ao ano passado. As demais commodities também caíram em agosto e em relação ao ano anterior, nos seguintes valores: cacau (34,72%), açúcar (28,99%), suco de laranja (26,22%), café (5,18%) e algodão (1,95%).
As expectativas da safra que se inicia (2017/18) não são das melhores. Como vimos no balanço da FAO, tem muito grão sendo produzido e elevados estoques no mundo, a safra americana veio razoavelmente bem. Com esta análise, o USDA (departamento de Agricultura dos Estados Unidos) projeta os preços para este próximo ciclo ligeiramente piores. A soja deve ficar entre US$ 8,35 e US$ 10,05 por bushel (27,2 kg), pois a situação de estoques é muito confortável e para o milho, esperam entre US$ 2,80 e US$ 3,60 por bushel (25,2 kg). Portanto, muito cuidado agora, pois o cobertor de preços estará bem curto, agravado pela valorização do Real.
Sempre temos como melhorar em custos de produção. Apenas um exemplo, o ESALQLOG trouxe interessante estudo sobre a infraestrutura brasileira e o prejuízo ao setor de grãos, com destaque para soja e milho, que em 2015 tiveram perdas de 2,4 milhões de toneladas, ou praticamente R$ 2 bilhões, no transporte (incluindo transbordos) e armazenagem distante das fazendas. Mais de 2,3% da carga transportada é perdida.
Neste mês vale destacar a apresentação da Cargill sobre seus dados no agro brasileiro. A receita foi de R$ 33,1 bilhões, acima dos R$ 32,8 bilhões de 2015, e um lucro de quase 50% a mais. Cerca de R$ 3,8 bilhões foram investidos desde 2010, sendo R$ 775 milhões em 2016. Fortaleceram a originação com o uso do banco próprio e de mais ações de barter.  Destaca o investimento feito em etanol de milho junto com a USJ em Quirinópolis e na Alvean, que já movimenta 35% do açúcar mundial transacionado. 
Enfim, as notícias de final de agosto e setembro no geral foram de muita produção, muita exportação, mas queda de preços dos principais produtos e valorização do real. Também continua a bagunça no cenário político, com denúncias e condenações sequenciais, mas que não tem contaminado um relativo otimismo na economia. Chama atenção a entrada de capitais de risco em investimentos no setor de produção de alimentos, visando a grandes inovações. Desde gestão de dados, máquinas e engenharia de plantas e micróbios. Neste mês li sobre a NewLeaf Symbiotics, que também está em Saint Louis, EUA, estudando o bioma das plantas, principalmente os componentes do solo, bactérias e outros, e seus efeitos melhorando as condições das sementes e das plantas. A inovação segue firme. 

O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de agosto foi de 381,52 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 3,62% em relação à safra anterior. Já foram produzidos 23,26 milhões de toneladas de açúcar (22,51 milhões em 2016), e no etanol 15,29 bilhões de litros (-7,55%). O hidratado caiu 11,33%, para 8,69 bilhões de litros e o anidro caiu 2,3%, para 6,6 bilhões de litros. Porém, com a mudança do mix, o etanol começa a buscar os números, pelo menos do ano passado. 
No ATR estamos ligeiramente acima do ano passado, chegando a 131,99 kg/ton (0,95% acima). Esta última quinzena já mostra uma safra menos açucareira, finalmente o mix está mudando. Foi de 46,95% para açúcar, 3,5% a menos que na quinzena anterior. Com isto produzimos 3,15% a mais de etanol e conseguimos a maior venda quinzenal dos últimos 12 meses, com 12% de crescimento na quinzena. No mês de agosto foram vendidos 2,19 bilhões de litros para o mercado interno, sendo 1,37 bilhões de hidratado (23% a mais que julho). Tardou, mas chegou a onda do etanol.
No primeiro trimestre da safra 2017/18 a USJ teve prejuízo de R$ 42 milhões, contra lucro de R$ 50 milhões no ano anterior. Pesaram aumento dos custos operacionais e variação cambial. O endividamento em 30 de junho estava em R$ 1,125 bilhão, 5,6% a mais que no ano anterior. 
O CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) prepara a abertura de capital para 2021, na B3 e na Nasdaq onde estão muitas empresas de biotecnologia, agora que a empresa tem sua primeira cana geneticamente modificada. Espera até este período manter as vendas crescendo 20% ao ano e aumentar o share de suas variedades para 20%, hoje estimado em 12 a 13% do total plantado no Brasil. Mesmo valor é a margem EBDTA e também neste caso a meta é chegar a 20%. Hoje a empresa investe cerca de R$ 200 milhões por ano em P&D e deve construir um laboratório nos EUA. 
 
O que aconteceu com nosso açúcar?
Notícia boa ao mercado foi uma possível sinalização da Índia para abrir importações visando cobrir o deficit deste ano, onde produzirão 21 milhões de toneladas e consumirão 25 milhões.
Também ajudou a alta do petróleo, graças aos problemas nos EUA, devendo estimular mais o etanol. Desde o dia 3 de julho a gasolina já subiu 16%. 
Segundo a Archer, os preços médios de fechamento de agosto foram de 13,80 centavos de dólar por libra-peso. Usinas também estão atrasando a fixação de preços para o ano que vem, o que pode ser expectativa altista. 
Segue firme o pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas de grande oferta, com notícias vindas da União Europeia, Paquistão e outros. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 14,40 centavos de dólar por libra-peso. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 53,00, bem decepcionante. Resta esperar a onda de hidratado!
O que acontece com nosso etanol?
O consumo de combustíveis cresceu 1,48% em julho, sendo o terceiro mês seguido de crescimento. Porém, no ano até o momento a queda é de 0,9%.  O diesel cresceu 2,5%, Ciclo Otto cresceu 1,5%, puxado por um aumento de 7,5% na gasolina no mês e 7,3% no ano. No etanol hidratado seguem más as notícias, pois em julho o consumo caiu 21% (total de 1,035 milhão de m3) e no acumulado do ano, quase 20%. Porém, nos primeiros 15 dias de agosto as vendas de etanol no Centro-Sul, das Usinas para as distribuidoras, tiveram crescimento de 14%, o que pode levar a demanda superar 1,3 bilhão de litros.
Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) do Ministério de Minas e Energia, pelo uso de etanol e biodiesel, o país deixou de emitir em 2016, respectivamente, 55,1 milhões e 9,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2 eq). 75,7% do nosso biodiesel é feito com óleo de soja, e 15,4% com sebo bovino. A EPE também estima em quase 31% a participação da biomassa na geração energética brasileira. Do consumo brasileiro, 5% já vem da cogeração das usinas. Da matriz energética brasileira em 2016, 44% da oferta é de fontes renováveis, e ainda crescendo 2,2% em relação a 2015.
Exportamos em agosto US$ 90 milhões em etanol e no ano US$ 529 milhões. Como importamos US$ 64 milhões em etanol, e no acumulado do ano temos US$ 741 milhões, cerca de 276,1% a mais que o mesmo período de 2016, a balança está negativa em US$ 212,322 milhões entre janeiro e agosto.
Segundo a Datagro, cresceu mais de 30% a produção de etanol na Argentina neste primeiro trimestre, pulando para 504 mil m³. Estimam que no ano a produção crescerá quase 20%, passando de 1 bilhão de litros. Existem planos para se vender carros flex e se colocar hidratado nos postos.
A China também anunciou que estuda proibir as vendas de carros movidos a combustíveis fósseis em 2040 e fez um anúncio que pode ser a grande notícia do mês: a partir de 2020 toda a gasolina vendida neste que é o maior mercado de carros do mundo, passará a ter 10% de etanol. Isto é uma excelente informação aos produtores de grãos, significando quase que literalmente, a queima dos estoques chineses de milho, sem colocar um grão sequer no mercado. Devem fazer pelo menos 10 grandes unidades de etanol até o próximo ano, que consumirão 3 milhões de toneladas de milho. Estima-se que para fazer o E10, ao consumo de hoje, seriam necessárias 45 milhões de toneladas de milho por ano. 
No fechamento da leitura, o hidratado estava R$ 1,58 e o anidro R$ 1,73/litro (spot Cepea). Meu viés para o etanol também é altista, continuo acreditando no aumento do consumo de combustíveis agora e podemos ser surpreendidos com o real tamanho da safra, fora a seca de setembro que está comprometendo, pelo menos o desempenho de 2018. 
O Brasil é pródigo em fornecer ao mundo imagens incríveis. Os R$ 51 milhões achados em caixas num apartamento da Bahia entram no rol destas imagens eternas. É impressionante a dimensão da quadrilha que se estruturou para assaltar o contribuinte brasileiro. Também impressiona o volume de brasileiros que ainda não acreditam no que fez esta quadrilha.   

Quem é o homenageado do mês? 
Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai ao craque do setor, engenheiro agrônomo Jose Luis Coelho, a fusão perfeita de conhecimento e simpatia.