Marcos Fava Neves

Economista

Marcos

Fava Neves

professor titular de planejamento e estratégia na FEA/USP Campus Ribeirão Preto e coordenador científico do Markestrat.

revistacanavieiros@revistacanavieiros.com.br

Pessimismo na conjuntura, mas otimismo no futuro

 
21/07/2017

A estimativa da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) de julho para a safra de grãos 2016/2017 agora está em 237,22 milhões de toneladas, sendo 27,1% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16. Agregamos em apenas um ano 50 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada é de quase 60,6 milhões de hectares e 3,7% maior que na safra anterior. Ou seja, em um ano aumentamos a área em mais de 2,2 milhões de hectares. Que desempenho fantástico. 
Na soja foram colhidas 113,93 milhões de toneladas. A safra que termina é quase 20% maior que a anterior, de 95,4 milhões. Também no milho a nova estimativa traz quase 3 milhões de toneladas a mais que a anterior, passando para 96 milhões (30,4 na primeira safra e 65,6 na segunda). No arroz subimos mais 200 mil toneladas, indo para 12,3 milhões de toneladas.
A safra atual também tem ajudado na recuperação das empresas produtoras de grãos, que nesta safra tiveram produtividades maiores, e o principal destaque comparativo foi no algodão. A SLC Agrícola, por exemplo, teve lucro líquido de quase R$ 84 milhões no primeiro trimestre de 2017, a Terra Santa R$ 33,07 milhões e a BrasilAgro R$ 4,5 milhões (dados do Valor Econômico).
Um destaque especial nesta nossa leitura do mês é que o tradicional levantamento da CONAB completou 40 anos. Se compararmos com o passado, temos grande satisfação em ver o resultado do trabalho dos nossos produtores e agentes do agronegócio. Em 1976/77 produzimos 46,9 milhões de toneladas em uma área de 37,3 milhões de hectares. 40 anos após estamos produzindo 237,2 milhões de toneladas em uma área de 60,6 milhões de hectares. São 40 anos onde a área cresceu 62,5% e a produção cresceu 405,3%, graças ao binômio tecnologia e gestão. O interessante é que com a produtividade de 1977, precisaríamos de 188,6 milhões de hectares para gerar a produção atual de grãos, portanto a tecnologia evitou o uso de mais de 125 milhões de hectares. Difícil ver outro setor da economia com tal pujança.  
Na área internacional, julho traz boas notícias. O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 175,2 pontos, 1,4% acima de maio e 7% acima do mesmo mês de 2016. Ou seja, os preços em um ano estão 7% maiores em dólar. Altas puxadas pelo leite (subiu mais de 8%), cereais e carnes (subiram 1,8%), enquanto que o açúcar (caiu 13%) e os óleos vegetais caíram. O de cereais chegou ao maior valor em 12 meses, principalmente pelas expectativas nos EUA, algo que acertamos aqui na previsão de dois a trêz meses atrás. Há ainda a presença de considerável risco climático nos EUA.
A oferta mundial de cereais na safra 2017/18 é abundante, puxada por produções recordes na América do Sul, mas menor que o recorde de 2016. A FAO projeta produção mundial de 2,593 bilhões de toneladas (0,6% menor que na safra anterior) e o consumo mundial seria de 2,584 bilhões (crescimento de apenas 0,5% sobre o ano anterior) o que elevaria os estoques mundiais para 704 milhões de toneladas. 
Nossas exportações de junho também foram boa notícia, chegando a US$ 9,3 bilhões, praticamente 11,6% mais que junho de 2016, deixando um superavit de US$ 8,1 bilhões. Na primeira metade do ano o agro trouxe US$ 48,2 bilhões, quase 7% acima de 2016. O superavit deixado foi de US$ 40,8 bilhões. Injeção na veia do Brasil. Somente o complexo soja trouxe ao Brasil incríveis US$ 20 bilhões no primeiro semestre. 
Em relação aos preços destas principais commodities, exportadas pelo Brasil (no índice da FAO entram outras) no mês de junho não foram bons, tivemos quedas expressivas no açúcar e no café, quedas também no algodão e o milho andando de lado. A soja teve alguma recuperação devido às informações vindas da safra dos EUA. Fora isto, o real voltou a se valorizar e ao que tudo indica deve continuar neste caminho voltando ao patamar em que estava na pré-crise da JBS. Este fato deve ajudar a levantar um pouco o preço em dólares das commodities onde o Brasil é grande participante das exportações mundiais. Segundo o Valor Data, porém, quando fazemos a comparação semestral (primeiro semestre de 2017 x primeiro semestre de 2016), os preços neste ano estão melhores para o algodão (23,5%), suco de laranja (12,1%), café (11,2%), açúcar (10,3%) e soja (1,6%). O milho está 2% abaixo.
Em relação ao longo prazo, algo que já tenho discutido aqui há algum tempo, o novo relatório de Perspectivas 2017/2026 da FAO e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) prevê que não teremos aumentos de preços nas commodities, inclusive havendo até ligeira queda. Haverá oferta abundante de grãos devido principalmente a crescimentos nas produtividades, demanda mais controlada nos países emergentes e as políticas de biocombustíveis não crescerão como previsto. Eventos climáticos podem alterar o quadro, mas a aposta é nesta estabilidade.  
Enfim, as notícias de julho no geral foram boas ao agro em termos de produção e ligeiramente negativas em termos de preços pelos fatores listados acima, mas muito boas nas questões macroeconômicas, com a aprovação da reforma e consequente modernização na área trabalhista e a consolidação da primeira das muitas condenações que serão dadas ao ex-presidente do Brasil. 
O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a UNICA (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 01 de julho foi de 198,75 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 7,81%. Já foram produzidos 11,05 milhões de toneladas de açúcar (11,02 milhões em 2016), praticamente o mesmo volume, mas tombamos no etanol, com produção total de 7,61 bilhões de litros (-14,33%). O hidratado caiu 19,5%, para 4,39 bilhões de litros e o anidro caiu 6,1%, para 3,22 bilhões de litros.
No ATR a diferença diminuiu bastante, estávamos bem piores que na safra anterior, e agora praticamente alcançamos, chegando a 123,17 kg/ton. A produtividade também quase alcançou o ano passado, chegando no acumulado da safra a 82,12 toneladas por hectare, o que dá 0,91% a menos que na safra anterior. O teor de ATR desta última quinzena foi de 129,97 quilos/tonelada de cana, contra 129,80 do mesmo período do ano passado. Na quinzena também o mix foi de 50,48% para açúcar e moemos 1,42% a menos que a comparação do mesmo período.
Em relação às empresas, destaque para a nova dimensão da Raízen com a aquisição das duas usinas da Tonon, passando para a uma capacidade de moagem de 73 milhões de toneladas anuais.
Também é destaque o memorando assinado entre indústria e produtores no Ethanol Summit, que passa a ser um novo Protocolo Agroambiental, com ações para estimular o reflorestamento, com recuperação de matas ciliares e o fim definitivo da queimada.
O que acontece com nosso açúcar?
O mês no açúcar não foi bom. Seguem aparecendo os números que mostram o excesso de produção. Pela Datagro a safra de 2017/18 (outubro/setembro) será de superavit ao redor de 590 mil toneladas, e também houve queda na previsão do deficit de 2016/17, que antes era 6,78 milhões de toneladas e agora passa a ser 5,71 milhões de toneladas.
Na Índia estamos com chuvas acima do normal, ajudando na produtividade e fazendo a produção provavelmente voltar a 25 milhões de toneladas. Só a Índia aumentará quase 5 milhões de toneladas na produção comparada à safra anterior, com aumento de área de 4,48 para 4,75 milhões de hectares. O consumo no país também está impactado negativamente por preocupações com saúde, impostos em refrigerantes e outros. 
Na exportação, o desempenho é bom. Em junho foram enviadas 3,089 milhões de toneladas de açúcar, o que dá 26,6% a mais que o embarque de maio e 15% acima de junho de 2016. Isto trouxe ao Brasil US$ 1,273 bilhão, dando quase 23% acima de maio e quase 40% acima de junho de 2016. Em 2017 o açúcar já buscou no exterior US$ 5,514 bilhões, pouco mais de 40% acima, exportando 12,783 milhões de toneladas, volume pouco acima de 2016 (+2,2%).
Há clima de pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas e pouca expectativa que o petróleo possa reagir. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 13,68 centavos de dólar por libra-peso e ainda temos a valorização do real. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 64,00, razoavelmente menor que o mesmo período do ano passado. Ou seja, não foi um bom mês. 
O que acontece com nosso etanol?
Dentro do processo de destruição de valor pelo qual passamos, em dez anos o etanol perdeu quase dez pontos na participação dos veículos de Cido Otto, de 55% para 45,8% em 2016. Só de 2015 para 2016 perdemos 3,3% de participação.
O consumo de etanol não reagiu como precisaria. Pela UNICA, o total de etanol vendido pelas usinas do Centro-Sul foi de 2,12 bilhões de litros em junho, sendo 149,46 milhões de litros exportados e 1,97 bilhão para o mercado interno. De anidro foram vendidos 838,70 milhões de litros, menos que os 861,69 milhões do mês de junho de 2016. O hidratado também caiu para 1,13 bilhão de litros, contra 1,16 bilhão de maio. 
Preços do petróleo neste ano já caíram 20%, vindo desde o pico de US$ 56 para os atuais US$ 44 o barril. Temos hoje muito mais produtores com distintas tecnologias de produção, o que faz com que o cartel do petróleo perca sua força de controle. 
Resta esperar pela volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, pelo menos a inflação muito abaixo da melhor expectativa e a necessidade de arrecadar do Governo são fatores de estímulo. 
Enquanto a cana contribui fortemente para a balança comercial, o deficit na balança comercial advindos do diesel e da gasolina só aumenta. No primeiro trimestre tivemos deficit de 2,63 bilhões de litros de diesel e 1,411 bilhão de litros de gasolina. São números sensivelmente superiores ao mesmo período do ano passado, de 1,44 bilhão de litros para o diesel e de 568 milhões de litros para a gasolina. Mais um estímulo ao RenovaBio.
Os EUA apresentaram via EPA (Agência de Proteção Ambiental) a nova meta para os mandatos de biocombustíveis, com ligeira redução no volume onde se encaixa a cana (biocombustíveis “avançados”) para 4,24 bilhões de galões em 2018 face aos 4,28 bilhões de 2017. É uma mudança praticamente imperceptível, uma vez que o Brasil se tornou importador líquido de etanol (em 2016 tivemos US$ 321 milhões de deficit na balança comercial de etanol com os EUA). O milho manterá em 15 bilhões de galões, o que é uma boa notícia ao agro brasileiro, face ao risco que uma diminuição desta meta traz nos preços das commodities. Segundo a Datagro, a participação do Brasil nas exportações mundiais de 2013 para 2015 caiu de 40% para 26%, enquanto os EUA pularam para quase 50% do mercado. 
No fechamento da leitura o hidratado estava R$ 1,39 e o anidro R$ 1,54, neste momento, sem grandes perspectivas de alteração. Um mês que na conjuntura não foi bom ao setor, mas na estrutura, um pouco mais de esperança na adoção do RenovaBio e na volta da CIDE, além da aprovação da reforma trabalhista. 
Haja Limão 
Na verdade desta vez as notícias aqui são boas. O Brasil aos poucos pode ter chance de inserção como sociedade mundial organizada. Aprovar uma reforma trabalhista foi excelente, e mais ainda ver o início das condenações do ex-presidente. Esta me parece a mais leve, de 9 anos. Acho que no total arrisco que passam de 20 anos as condenações somadas.  
*Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto. Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.
A estimativa da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) de julho para a safra de grãos 2016/2017 agora está em 237,22 milhões de toneladas, sendo 27,1% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16. Agregamos em apenas um ano 50 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada é de quase 60,6 milhões de hectares e 3,7% maior que na safra anterior. Ou seja, em um ano aumentamos a área em mais de 2,2 milhões de hectares. Que desempenho fantástico. 
Na soja foram colhidas 113,93 milhões de toneladas. A safra que termina é quase 20% maior que a anterior, de 95,4 milhões. Também no milho a nova estimativa traz quase 3 milhões de toneladas a mais que a anterior, passando para 96 milhões (30,4 na primeira safra e 65,6 na segunda). No arroz subimos mais 200 mil toneladas, indo para 12,3 milhões de toneladas.
A safra atual também tem ajudado na recuperação das empresas produtoras de grãos, que nesta safra tiveram produtividades maiores, e o principal destaque comparativo foi no algodão. A SLC Agrícola, por exemplo, teve lucro líquido de quase R$ 84 milhões no primeiro trimestre de 2017, a Terra Santa R$ 33,07 milhões e a BrasilAgro R$ 4,5 milhões (dados do Valor Econômico).
Um destaque especial nesta nossa leitura do mês é que o tradicional levantamento da CONAB completou 40 anos. Se compararmos com o passado, temos grande satisfação em ver o resultado do trabalho dos nossos produtores e agentes do agronegócio. Em 1976/77 produzimos 46,9 milhões de toneladas em uma área de 37,3 milhões de hectares. 40 anos após estamos produzindo 237,2 milhões de toneladas em uma área de 60,6 milhões de hectares. São 40 anos onde a área cresceu 62,5% e a produção cresceu 405,3%, graças ao binômio tecnologia e gestão. O interessante é que com a produtividade de 1977, precisaríamos de 188,6 milhões de hectares para gerar a produção atual de grãos, portanto a tecnologia evitou o uso de mais de 125 milhões de hectares. Difícil ver outro setor da economia com tal pujança.  
Na área internacional, julho traz boas notícias. O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 175,2 pontos, 1,4% acima de maio e 7% acima do mesmo mês de 2016. Ou seja, os preços em um ano estão 7% maiores em dólar. Altas puxadas pelo leite (subiu mais de 8%), cereais e carnes (subiram 1,8%), enquanto que o açúcar (caiu 13%) e os óleos vegetais caíram. O de cereais chegou ao maior valor em 12 meses, principalmente pelas expectativas nos EUA, algo que acertamos aqui na previsão de dois a trêz meses atrás. Há ainda a presença de considerável risco climático nos EUA.
A oferta mundial de cereais na safra 2017/18 é abundante, puxada por produções recordes na América do Sul, mas menor que o recorde de 2016. A FAO projeta produção mundial de 2,593 bilhões de toneladas (0,6% menor que na safra anterior) e o consumo mundial seria de 2,584 bilhões (crescimento de apenas 0,5% sobre o ano anterior) o que elevaria os estoques mundiais para 704 milhões de toneladas. 
Nossas exportações de junho também foram boa notícia, chegando a US$ 9,3 bilhões, praticamente 11,6% mais que junho de 2016, deixando um superavit de US$ 8,1 bilhões. Na primeira metade do ano o agro trouxe US$ 48,2 bilhões, quase 7% acima de 2016. O superavit deixado foi de US$ 40,8 bilhões. Injeção na veia do Brasil. Somente o complexo soja trouxe ao Brasil incríveis US$ 20 bilhões no primeiro semestre. 
Em relação aos preços destas principais commodities, exportadas pelo Brasil (no índice da FAO entram outras) no mês de junho não foram bons, tivemos quedas expressivas no açúcar e no café, quedas também no algodão e o milho andando de lado. A soja teve alguma recuperação devido às informações vindas da safra dos EUA. Fora isto, o real voltou a se valorizar e ao que tudo indica deve continuar neste caminho voltando ao patamar em que estava na pré-crise da JBS. Este fato deve ajudar a levantar um pouco o preço em dólares das commodities onde o Brasil é grande participante das exportações mundiais. Segundo o Valor Data, porém, quando fazemos a comparação semestral (primeiro semestre de 2017 x primeiro semestre de 2016), os preços neste ano estão melhores para o algodão (23,5%), suco de laranja (12,1%), café (11,2%), açúcar (10,3%) e soja (1,6%). O milho está 2% abaixo.
Em relação ao longo prazo, algo que já tenho discutido aqui há algum tempo, o novo relatório de Perspectivas 2017/2026 da FAO e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) prevê que não teremos aumentos de preços nas commodities, inclusive havendo até ligeira queda. Haverá oferta abundante de grãos devido principalmente a crescimentos nas produtividades, demanda mais controlada nos países emergentes e as políticas de biocombustíveis não crescerão como previsto. Eventos climáticos podem alterar o quadro, mas a aposta é nesta estabilidade.  
Enfim, as notícias de julho no geral foram boas ao agro em termos de produção e ligeiramente negativas em termos de preços pelos fatores listados acima, mas muito boas nas questões macroeconômicas, com a aprovação da reforma e consequente modernização na área trabalhista e a consolidação da primeira das muitas condenações que serão dadas ao ex-presidente do Brasil. 

O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a UNICA (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 01 de julho foi de 198,75 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 7,81%. Já foram produzidos 11,05 milhões de toneladas de açúcar (11,02 milhões em 2016), praticamente o mesmo volume, mas tombamos no etanol, com produção total de 7,61 bilhões de litros (-14,33%). O hidratado caiu 19,5%, para 4,39 bilhões de litros e o anidro caiu 6,1%, para 3,22 bilhões de litros.
No ATR a diferença diminuiu bastante, estávamos bem piores que na safra anterior, e agora praticamente alcançamos, chegando a 123,17 kg/ton. A produtividade também quase alcançou o ano passado, chegando no acumulado da safra a 82,12 toneladas por hectare, o que dá 0,91% a menos que na safra anterior. O teor de ATR desta última quinzena foi de 129,97 quilos/tonelada de cana, contra 129,80 do mesmo período do ano passado. Na quinzena também o mix foi de 50,48% para açúcar e moemos 1,42% a menos que a comparação do mesmo período.
Em relação às empresas, destaque para a nova dimensão da Raízen com a aquisição das duas usinas da Tonon, passando para a uma capacidade de moagem de 73 milhões de toneladas anuais.
Também é destaque o memorando assinado entre indústria e produtores no Ethanol Summit, que passa a ser um novo Protocolo Agroambiental, com ações para estimular o reflorestamento, com recuperação de matas ciliares e o fim definitivo da queimada.
O que acontece com nosso açúcar?
O mês no açúcar não foi bom. Seguem aparecendo os números que mostram o excesso de produção. Pela Datagro a safra de 2017/18 (outubro/setembro) será de superavit ao redor de 590 mil toneladas, e também houve queda na previsão do deficit de 2016/17, que antes era 6,78 milhões de toneladas e agora passa a ser 5,71 milhões de toneladas.
Na Índia estamos com chuvas acima do normal, ajudando na produtividade e fazendo a produção provavelmente voltar a 25 milhões de toneladas. Só a Índia aumentará quase 5 milhões de toneladas na produção comparada à safra anterior, com aumento de área de 4,48 para 4,75 milhões de hectares. O consumo no país também está impactado negativamente por preocupações com saúde, impostos em refrigerantes e outros. 
Na exportação, o desempenho é bom. Em junho foram enviadas 3,089 milhões de toneladas de açúcar, o que dá 26,6% a mais que o embarque de maio e 15% acima de junho de 2016. Isto trouxe ao Brasil US$ 1,273 bilhão, dando quase 23% acima de maio e quase 40% acima de junho de 2016. Em 2017 o açúcar já buscou no exterior US$ 5,514 bilhões, pouco mais de 40% acima, exportando 12,783 milhões de toneladas, volume pouco acima de 2016 (+2,2%).
Há clima de pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas e pouca expectativa que o petróleo possa reagir. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 13,68 centavos de dólar por libra-peso e ainda temos a valorização do real. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 64,00, razoavelmente menor que o mesmo período do ano passado. Ou seja, não foi um bom mês. 
O que acontece com nosso etanol?
Dentro do processo de destruição de valor pelo qual passamos, em dez anos o etanol perdeu quase dez pontos na participação dos veículos de Cido Otto, de 55% para 45,8% em 2016. Só de 2015 para 2016 perdemos 3,3% de participação.
O consumo de etanol não reagiu como precisaria. Pela UNICA, o total de etanol vendido pelas usinas do Centro-Sul foi de 2,12 bilhões de litros em junho, sendo 149,46 milhões de litros exportados e 1,97 bilhão para o mercado interno. De anidro foram vendidos 838,70 milhões de litros, menos que os 861,69 milhões do mês de junho de 2016. O hidratado também caiu para 1,13 bilhão de litros, contra 1,16 bilhão de maio. 
Preços do petróleo neste ano já caíram 20%, vindo desde o pico de US$ 56 para os atuais US$ 44 o barril. Temos hoje muito mais produtores com distintas tecnologias de produção, o que faz com que o cartel do petróleo perca sua força de controle. 
Resta esperar pela volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, pelo menos a inflação muito abaixo da melhor expectativa e a necessidade de arrecadar do Governo são fatores de estímulo. 
Enquanto a cana contribui fortemente para a balança comercial, o deficit na balança comercial advindos do diesel e da gasolina só aumenta. No primeiro trimestre tivemos deficit de 2,63 bilhões de litros de diesel e 1,411 bilhão de litros de gasolina. São números sensivelmente superiores ao mesmo período do ano passado, de 1,44 bilhão de litros para o diesel e de 568 milhões de litros para a gasolina. Mais um estímulo ao RenovaBio.
Os EUA apresentaram via EPA (Agência de Proteção Ambiental) a nova meta para os mandatos de biocombustíveis, com ligeira redução no volume onde se encaixa a cana (biocombustíveis “avançados”) para 4,24 bilhões de galões em 2018 face aos 4,28 bilhões de 2017. É uma mudança praticamente imperceptível, uma vez que o Brasil se tornou importador líquido de etanol (em 2016 tivemos US$ 321 milhões de deficit na balança comercial de etanol com os EUA). O milho manterá em 15 bilhões de galões, o que é uma boa notícia ao agro brasileiro, face ao risco que uma diminuição desta meta traz nos preços das commodities. Segundo a Datagro, a participação do Brasil nas exportações mundiais de 2013 para 2015 caiu de 40% para 26%, enquanto os EUA pularam para quase 50% do mercado. 
No fechamento da leitura o hidratado estava R$ 1,39 e o anidro R$ 1,54, neste momento, sem grandes perspectivas de alteração. Um mês que na conjuntura não foi bom ao setor, mas na estrutura, um pouco mais de esperança na adoção do RenovaBio e na volta da CIDE, além da aprovação da reforma trabalhista. 
Haja Limão 
Na verdade desta vez as notícias aqui são boas. O Brasil aos poucos pode ter chance de inserção como sociedade mundial organizada. Aprovar uma reforma trabalhista foi excelente, e mais ainda ver o início das condenações do ex-presidente. Esta me parece a mais leve, de 9 anos. Acho que no total arrisco que passam de 20 anos as condenações somadas.  
*Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.

Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.

Quem é o homenageado do mês? 
Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai ao Acácio Masson Filho, da Assobari, pelo pioneirismo em muitas ações de sustentabilidade na cana e pela elegância infinita.
Fonte: Revista Canavieiros ed.133 - Julho 2017

Pessimismo na conjuntura, mas otimismo no futuro

21/07/2017

A estimativa da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) de julho para a safra de grãos 2016/2017 agora está em 237,22 milhões de toneladas, sendo 27,1% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16. Agregamos em apenas um ano 50 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada é de quase 60,6 milhões de hectares e 3,7% maior que na safra anterior. Ou seja, em um ano aumentamos a área em mais de 2,2 milhões de hectares. Que desempenho fantástico. 
Na soja foram colhidas 113,93 milhões de toneladas. A safra que termina é quase 20% maior que a anterior, de 95,4 milhões. Também no milho a nova estimativa traz quase 3 milhões de toneladas a mais que a anterior, passando para 96 milhões (30,4 na primeira safra e 65,6 na segunda). No arroz subimos mais 200 mil toneladas, indo para 12,3 milhões de toneladas.
A safra atual também tem ajudado na recuperação das empresas produtoras de grãos, que nesta safra tiveram produtividades maiores, e o principal destaque comparativo foi no algodão. A SLC Agrícola, por exemplo, teve lucro líquido de quase R$ 84 milhões no primeiro trimestre de 2017, a Terra Santa R$ 33,07 milhões e a BrasilAgro R$ 4,5 milhões (dados do Valor Econômico).
Um destaque especial nesta nossa leitura do mês é que o tradicional levantamento da CONAB completou 40 anos. Se compararmos com o passado, temos grande satisfação em ver o resultado do trabalho dos nossos produtores e agentes do agronegócio. Em 1976/77 produzimos 46,9 milhões de toneladas em uma área de 37,3 milhões de hectares. 40 anos após estamos produzindo 237,2 milhões de toneladas em uma área de 60,6 milhões de hectares. São 40 anos onde a área cresceu 62,5% e a produção cresceu 405,3%, graças ao binômio tecnologia e gestão. O interessante é que com a produtividade de 1977, precisaríamos de 188,6 milhões de hectares para gerar a produção atual de grãos, portanto a tecnologia evitou o uso de mais de 125 milhões de hectares. Difícil ver outro setor da economia com tal pujança.  
Na área internacional, julho traz boas notícias. O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 175,2 pontos, 1,4% acima de maio e 7% acima do mesmo mês de 2016. Ou seja, os preços em um ano estão 7% maiores em dólar. Altas puxadas pelo leite (subiu mais de 8%), cereais e carnes (subiram 1,8%), enquanto que o açúcar (caiu 13%) e os óleos vegetais caíram. O de cereais chegou ao maior valor em 12 meses, principalmente pelas expectativas nos EUA, algo que acertamos aqui na previsão de dois a trêz meses atrás. Há ainda a presença de considerável risco climático nos EUA.
A oferta mundial de cereais na safra 2017/18 é abundante, puxada por produções recordes na América do Sul, mas menor que o recorde de 2016. A FAO projeta produção mundial de 2,593 bilhões de toneladas (0,6% menor que na safra anterior) e o consumo mundial seria de 2,584 bilhões (crescimento de apenas 0,5% sobre o ano anterior) o que elevaria os estoques mundiais para 704 milhões de toneladas. 
Nossas exportações de junho também foram boa notícia, chegando a US$ 9,3 bilhões, praticamente 11,6% mais que junho de 2016, deixando um superavit de US$ 8,1 bilhões. Na primeira metade do ano o agro trouxe US$ 48,2 bilhões, quase 7% acima de 2016. O superavit deixado foi de US$ 40,8 bilhões. Injeção na veia do Brasil. Somente o complexo soja trouxe ao Brasil incríveis US$ 20 bilhões no primeiro semestre. 
Em relação aos preços destas principais commodities, exportadas pelo Brasil (no índice da FAO entram outras) no mês de junho não foram bons, tivemos quedas expressivas no açúcar e no café, quedas também no algodão e o milho andando de lado. A soja teve alguma recuperação devido às informações vindas da safra dos EUA. Fora isto, o real voltou a se valorizar e ao que tudo indica deve continuar neste caminho voltando ao patamar em que estava na pré-crise da JBS. Este fato deve ajudar a levantar um pouco o preço em dólares das commodities onde o Brasil é grande participante das exportações mundiais. Segundo o Valor Data, porém, quando fazemos a comparação semestral (primeiro semestre de 2017 x primeiro semestre de 2016), os preços neste ano estão melhores para o algodão (23,5%), suco de laranja (12,1%), café (11,2%), açúcar (10,3%) e soja (1,6%). O milho está 2% abaixo.
Em relação ao longo prazo, algo que já tenho discutido aqui há algum tempo, o novo relatório de Perspectivas 2017/2026 da FAO e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) prevê que não teremos aumentos de preços nas commodities, inclusive havendo até ligeira queda. Haverá oferta abundante de grãos devido principalmente a crescimentos nas produtividades, demanda mais controlada nos países emergentes e as políticas de biocombustíveis não crescerão como previsto. Eventos climáticos podem alterar o quadro, mas a aposta é nesta estabilidade.  
Enfim, as notícias de julho no geral foram boas ao agro em termos de produção e ligeiramente negativas em termos de preços pelos fatores listados acima, mas muito boas nas questões macroeconômicas, com a aprovação da reforma e consequente modernização na área trabalhista e a consolidação da primeira das muitas condenações que serão dadas ao ex-presidente do Brasil. 
O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a UNICA (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 01 de julho foi de 198,75 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 7,81%. Já foram produzidos 11,05 milhões de toneladas de açúcar (11,02 milhões em 2016), praticamente o mesmo volume, mas tombamos no etanol, com produção total de 7,61 bilhões de litros (-14,33%). O hidratado caiu 19,5%, para 4,39 bilhões de litros e o anidro caiu 6,1%, para 3,22 bilhões de litros.
No ATR a diferença diminuiu bastante, estávamos bem piores que na safra anterior, e agora praticamente alcançamos, chegando a 123,17 kg/ton. A produtividade também quase alcançou o ano passado, chegando no acumulado da safra a 82,12 toneladas por hectare, o que dá 0,91% a menos que na safra anterior. O teor de ATR desta última quinzena foi de 129,97 quilos/tonelada de cana, contra 129,80 do mesmo período do ano passado. Na quinzena também o mix foi de 50,48% para açúcar e moemos 1,42% a menos que a comparação do mesmo período.
Em relação às empresas, destaque para a nova dimensão da Raízen com a aquisição das duas usinas da Tonon, passando para a uma capacidade de moagem de 73 milhões de toneladas anuais.
Também é destaque o memorando assinado entre indústria e produtores no Ethanol Summit, que passa a ser um novo Protocolo Agroambiental, com ações para estimular o reflorestamento, com recuperação de matas ciliares e o fim definitivo da queimada.
O que acontece com nosso açúcar?
O mês no açúcar não foi bom. Seguem aparecendo os números que mostram o excesso de produção. Pela Datagro a safra de 2017/18 (outubro/setembro) será de superavit ao redor de 590 mil toneladas, e também houve queda na previsão do deficit de 2016/17, que antes era 6,78 milhões de toneladas e agora passa a ser 5,71 milhões de toneladas.
Na Índia estamos com chuvas acima do normal, ajudando na produtividade e fazendo a produção provavelmente voltar a 25 milhões de toneladas. Só a Índia aumentará quase 5 milhões de toneladas na produção comparada à safra anterior, com aumento de área de 4,48 para 4,75 milhões de hectares. O consumo no país também está impactado negativamente por preocupações com saúde, impostos em refrigerantes e outros. 
Na exportação, o desempenho é bom. Em junho foram enviadas 3,089 milhões de toneladas de açúcar, o que dá 26,6% a mais que o embarque de maio e 15% acima de junho de 2016. Isto trouxe ao Brasil US$ 1,273 bilhão, dando quase 23% acima de maio e quase 40% acima de junho de 2016. Em 2017 o açúcar já buscou no exterior US$ 5,514 bilhões, pouco mais de 40% acima, exportando 12,783 milhões de toneladas, volume pouco acima de 2016 (+2,2%).
Há clima de pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas e pouca expectativa que o petróleo possa reagir. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 13,68 centavos de dólar por libra-peso e ainda temos a valorização do real. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 64,00, razoavelmente menor que o mesmo período do ano passado. Ou seja, não foi um bom mês. 
O que acontece com nosso etanol?
Dentro do processo de destruição de valor pelo qual passamos, em dez anos o etanol perdeu quase dez pontos na participação dos veículos de Cido Otto, de 55% para 45,8% em 2016. Só de 2015 para 2016 perdemos 3,3% de participação.
O consumo de etanol não reagiu como precisaria. Pela UNICA, o total de etanol vendido pelas usinas do Centro-Sul foi de 2,12 bilhões de litros em junho, sendo 149,46 milhões de litros exportados e 1,97 bilhão para o mercado interno. De anidro foram vendidos 838,70 milhões de litros, menos que os 861,69 milhões do mês de junho de 2016. O hidratado também caiu para 1,13 bilhão de litros, contra 1,16 bilhão de maio. 
Preços do petróleo neste ano já caíram 20%, vindo desde o pico de US$ 56 para os atuais US$ 44 o barril. Temos hoje muito mais produtores com distintas tecnologias de produção, o que faz com que o cartel do petróleo perca sua força de controle. 
Resta esperar pela volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, pelo menos a inflação muito abaixo da melhor expectativa e a necessidade de arrecadar do Governo são fatores de estímulo. 
Enquanto a cana contribui fortemente para a balança comercial, o deficit na balança comercial advindos do diesel e da gasolina só aumenta. No primeiro trimestre tivemos deficit de 2,63 bilhões de litros de diesel e 1,411 bilhão de litros de gasolina. São números sensivelmente superiores ao mesmo período do ano passado, de 1,44 bilhão de litros para o diesel e de 568 milhões de litros para a gasolina. Mais um estímulo ao RenovaBio.
Os EUA apresentaram via EPA (Agência de Proteção Ambiental) a nova meta para os mandatos de biocombustíveis, com ligeira redução no volume onde se encaixa a cana (biocombustíveis “avançados”) para 4,24 bilhões de galões em 2018 face aos 4,28 bilhões de 2017. É uma mudança praticamente imperceptível, uma vez que o Brasil se tornou importador líquido de etanol (em 2016 tivemos US$ 321 milhões de deficit na balança comercial de etanol com os EUA). O milho manterá em 15 bilhões de galões, o que é uma boa notícia ao agro brasileiro, face ao risco que uma diminuição desta meta traz nos preços das commodities. Segundo a Datagro, a participação do Brasil nas exportações mundiais de 2013 para 2015 caiu de 40% para 26%, enquanto os EUA pularam para quase 50% do mercado. 
No fechamento da leitura o hidratado estava R$ 1,39 e o anidro R$ 1,54, neste momento, sem grandes perspectivas de alteração. Um mês que na conjuntura não foi bom ao setor, mas na estrutura, um pouco mais de esperança na adoção do RenovaBio e na volta da CIDE, além da aprovação da reforma trabalhista. 
Haja Limão 
Na verdade desta vez as notícias aqui são boas. O Brasil aos poucos pode ter chance de inserção como sociedade mundial organizada. Aprovar uma reforma trabalhista foi excelente, e mais ainda ver o início das condenações do ex-presidente. Esta me parece a mais leve, de 9 anos. Acho que no total arrisco que passam de 20 anos as condenações somadas.  
*Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto. Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.
A estimativa da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) de julho para a safra de grãos 2016/2017 agora está em 237,22 milhões de toneladas, sendo 27,1% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16. Agregamos em apenas um ano 50 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada é de quase 60,6 milhões de hectares e 3,7% maior que na safra anterior. Ou seja, em um ano aumentamos a área em mais de 2,2 milhões de hectares. Que desempenho fantástico. 
Na soja foram colhidas 113,93 milhões de toneladas. A safra que termina é quase 20% maior que a anterior, de 95,4 milhões. Também no milho a nova estimativa traz quase 3 milhões de toneladas a mais que a anterior, passando para 96 milhões (30,4 na primeira safra e 65,6 na segunda). No arroz subimos mais 200 mil toneladas, indo para 12,3 milhões de toneladas.
A safra atual também tem ajudado na recuperação das empresas produtoras de grãos, que nesta safra tiveram produtividades maiores, e o principal destaque comparativo foi no algodão. A SLC Agrícola, por exemplo, teve lucro líquido de quase R$ 84 milhões no primeiro trimestre de 2017, a Terra Santa R$ 33,07 milhões e a BrasilAgro R$ 4,5 milhões (dados do Valor Econômico).
Um destaque especial nesta nossa leitura do mês é que o tradicional levantamento da CONAB completou 40 anos. Se compararmos com o passado, temos grande satisfação em ver o resultado do trabalho dos nossos produtores e agentes do agronegócio. Em 1976/77 produzimos 46,9 milhões de toneladas em uma área de 37,3 milhões de hectares. 40 anos após estamos produzindo 237,2 milhões de toneladas em uma área de 60,6 milhões de hectares. São 40 anos onde a área cresceu 62,5% e a produção cresceu 405,3%, graças ao binômio tecnologia e gestão. O interessante é que com a produtividade de 1977, precisaríamos de 188,6 milhões de hectares para gerar a produção atual de grãos, portanto a tecnologia evitou o uso de mais de 125 milhões de hectares. Difícil ver outro setor da economia com tal pujança.  
Na área internacional, julho traz boas notícias. O índice de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 175,2 pontos, 1,4% acima de maio e 7% acima do mesmo mês de 2016. Ou seja, os preços em um ano estão 7% maiores em dólar. Altas puxadas pelo leite (subiu mais de 8%), cereais e carnes (subiram 1,8%), enquanto que o açúcar (caiu 13%) e os óleos vegetais caíram. O de cereais chegou ao maior valor em 12 meses, principalmente pelas expectativas nos EUA, algo que acertamos aqui na previsão de dois a trêz meses atrás. Há ainda a presença de considerável risco climático nos EUA.
A oferta mundial de cereais na safra 2017/18 é abundante, puxada por produções recordes na América do Sul, mas menor que o recorde de 2016. A FAO projeta produção mundial de 2,593 bilhões de toneladas (0,6% menor que na safra anterior) e o consumo mundial seria de 2,584 bilhões (crescimento de apenas 0,5% sobre o ano anterior) o que elevaria os estoques mundiais para 704 milhões de toneladas. 
Nossas exportações de junho também foram boa notícia, chegando a US$ 9,3 bilhões, praticamente 11,6% mais que junho de 2016, deixando um superavit de US$ 8,1 bilhões. Na primeira metade do ano o agro trouxe US$ 48,2 bilhões, quase 7% acima de 2016. O superavit deixado foi de US$ 40,8 bilhões. Injeção na veia do Brasil. Somente o complexo soja trouxe ao Brasil incríveis US$ 20 bilhões no primeiro semestre. 
Em relação aos preços destas principais commodities, exportadas pelo Brasil (no índice da FAO entram outras) no mês de junho não foram bons, tivemos quedas expressivas no açúcar e no café, quedas também no algodão e o milho andando de lado. A soja teve alguma recuperação devido às informações vindas da safra dos EUA. Fora isto, o real voltou a se valorizar e ao que tudo indica deve continuar neste caminho voltando ao patamar em que estava na pré-crise da JBS. Este fato deve ajudar a levantar um pouco o preço em dólares das commodities onde o Brasil é grande participante das exportações mundiais. Segundo o Valor Data, porém, quando fazemos a comparação semestral (primeiro semestre de 2017 x primeiro semestre de 2016), os preços neste ano estão melhores para o algodão (23,5%), suco de laranja (12,1%), café (11,2%), açúcar (10,3%) e soja (1,6%). O milho está 2% abaixo.
Em relação ao longo prazo, algo que já tenho discutido aqui há algum tempo, o novo relatório de Perspectivas 2017/2026 da FAO e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) prevê que não teremos aumentos de preços nas commodities, inclusive havendo até ligeira queda. Haverá oferta abundante de grãos devido principalmente a crescimentos nas produtividades, demanda mais controlada nos países emergentes e as políticas de biocombustíveis não crescerão como previsto. Eventos climáticos podem alterar o quadro, mas a aposta é nesta estabilidade.  
Enfim, as notícias de julho no geral foram boas ao agro em termos de produção e ligeiramente negativas em termos de preços pelos fatores listados acima, mas muito boas nas questões macroeconômicas, com a aprovação da reforma e consequente modernização na área trabalhista e a consolidação da primeira das muitas condenações que serão dadas ao ex-presidente do Brasil. 

O que acontece com a nossa cana?
De acordo com a UNICA (União da Indústria de Cana-de-açúcar), a moagem acumulada desta safra até o dia 01 de julho foi de 198,75 milhões de toneladas. Estamos atrasados em quase 7,81%. Já foram produzidos 11,05 milhões de toneladas de açúcar (11,02 milhões em 2016), praticamente o mesmo volume, mas tombamos no etanol, com produção total de 7,61 bilhões de litros (-14,33%). O hidratado caiu 19,5%, para 4,39 bilhões de litros e o anidro caiu 6,1%, para 3,22 bilhões de litros.
No ATR a diferença diminuiu bastante, estávamos bem piores que na safra anterior, e agora praticamente alcançamos, chegando a 123,17 kg/ton. A produtividade também quase alcançou o ano passado, chegando no acumulado da safra a 82,12 toneladas por hectare, o que dá 0,91% a menos que na safra anterior. O teor de ATR desta última quinzena foi de 129,97 quilos/tonelada de cana, contra 129,80 do mesmo período do ano passado. Na quinzena também o mix foi de 50,48% para açúcar e moemos 1,42% a menos que a comparação do mesmo período.
Em relação às empresas, destaque para a nova dimensão da Raízen com a aquisição das duas usinas da Tonon, passando para a uma capacidade de moagem de 73 milhões de toneladas anuais.
Também é destaque o memorando assinado entre indústria e produtores no Ethanol Summit, que passa a ser um novo Protocolo Agroambiental, com ações para estimular o reflorestamento, com recuperação de matas ciliares e o fim definitivo da queimada.
O que acontece com nosso açúcar?
O mês no açúcar não foi bom. Seguem aparecendo os números que mostram o excesso de produção. Pela Datagro a safra de 2017/18 (outubro/setembro) será de superavit ao redor de 590 mil toneladas, e também houve queda na previsão do deficit de 2016/17, que antes era 6,78 milhões de toneladas e agora passa a ser 5,71 milhões de toneladas.
Na Índia estamos com chuvas acima do normal, ajudando na produtividade e fazendo a produção provavelmente voltar a 25 milhões de toneladas. Só a Índia aumentará quase 5 milhões de toneladas na produção comparada à safra anterior, com aumento de área de 4,48 para 4,75 milhões de hectares. O consumo no país também está impactado negativamente por preocupações com saúde, impostos em refrigerantes e outros. 
Na exportação, o desempenho é bom. Em junho foram enviadas 3,089 milhões de toneladas de açúcar, o que dá 26,6% a mais que o embarque de maio e 15% acima de junho de 2016. Isto trouxe ao Brasil US$ 1,273 bilhão, dando quase 23% acima de maio e quase 40% acima de junho de 2016. Em 2017 o açúcar já buscou no exterior US$ 5,514 bilhões, pouco mais de 40% acima, exportando 12,783 milhões de toneladas, volume pouco acima de 2016 (+2,2%).
Há clima de pessimismo no mercado contaminado pelos fatores baixistas e pouca expectativa que o petróleo possa reagir. No fechamento desta leitura o mercado futuro de açúcar estava em 13,68 centavos de dólar por libra-peso e ainda temos a valorização do real. No mercado interno, a saca está ao redor de R$ 64,00, razoavelmente menor que o mesmo período do ano passado. Ou seja, não foi um bom mês. 
O que acontece com nosso etanol?
Dentro do processo de destruição de valor pelo qual passamos, em dez anos o etanol perdeu quase dez pontos na participação dos veículos de Cido Otto, de 55% para 45,8% em 2016. Só de 2015 para 2016 perdemos 3,3% de participação.
O consumo de etanol não reagiu como precisaria. Pela UNICA, o total de etanol vendido pelas usinas do Centro-Sul foi de 2,12 bilhões de litros em junho, sendo 149,46 milhões de litros exportados e 1,97 bilhão para o mercado interno. De anidro foram vendidos 838,70 milhões de litros, menos que os 861,69 milhões do mês de junho de 2016. O hidratado também caiu para 1,13 bilhão de litros, contra 1,16 bilhão de maio. 
Preços do petróleo neste ano já caíram 20%, vindo desde o pico de US$ 56 para os atuais US$ 44 o barril. Temos hoje muito mais produtores com distintas tecnologias de produção, o que faz com que o cartel do petróleo perca sua força de controle. 
Resta esperar pela volta da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) na gasolina, pelo menos a inflação muito abaixo da melhor expectativa e a necessidade de arrecadar do Governo são fatores de estímulo. 
Enquanto a cana contribui fortemente para a balança comercial, o deficit na balança comercial advindos do diesel e da gasolina só aumenta. No primeiro trimestre tivemos deficit de 2,63 bilhões de litros de diesel e 1,411 bilhão de litros de gasolina. São números sensivelmente superiores ao mesmo período do ano passado, de 1,44 bilhão de litros para o diesel e de 568 milhões de litros para a gasolina. Mais um estímulo ao RenovaBio.
Os EUA apresentaram via EPA (Agência de Proteção Ambiental) a nova meta para os mandatos de biocombustíveis, com ligeira redução no volume onde se encaixa a cana (biocombustíveis “avançados”) para 4,24 bilhões de galões em 2018 face aos 4,28 bilhões de 2017. É uma mudança praticamente imperceptível, uma vez que o Brasil se tornou importador líquido de etanol (em 2016 tivemos US$ 321 milhões de deficit na balança comercial de etanol com os EUA). O milho manterá em 15 bilhões de galões, o que é uma boa notícia ao agro brasileiro, face ao risco que uma diminuição desta meta traz nos preços das commodities. Segundo a Datagro, a participação do Brasil nas exportações mundiais de 2013 para 2015 caiu de 40% para 26%, enquanto os EUA pularam para quase 50% do mercado. 
No fechamento da leitura o hidratado estava R$ 1,39 e o anidro R$ 1,54, neste momento, sem grandes perspectivas de alteração. Um mês que na conjuntura não foi bom ao setor, mas na estrutura, um pouco mais de esperança na adoção do RenovaBio e na volta da CIDE, além da aprovação da reforma trabalhista. 
Haja Limão 
Na verdade desta vez as notícias aqui são boas. O Brasil aos poucos pode ter chance de inserção como sociedade mundial organizada. Aprovar uma reforma trabalhista foi excelente, e mais ainda ver o início das condenações do ex-presidente. Esta me parece a mais leve, de 9 anos. Acho que no total arrisco que passam de 20 anos as condenações somadas.  
*Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.

Em 2013 foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana.

Quem é o homenageado do mês? 
Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai ao Acácio Masson Filho, da Assobari, pelo pioneirismo em muitas ações de sustentabilidade na cana e pela elegância infinita.
Fonte: Revista Canavieiros ed.133 - Julho 2017