http://https://www.fmcagricola.com.br/index.aspx
http://site.orplana.com.br/pages/caminhos-da-cana-2017/
http://www.ideaonline.com.br/conteudo/20-seminario-de-mecanizacao-e-producao-de-cana-de-acucar.html

Coluna Caipirinha: 63% da cana virando etanol

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Colunista

16/01/2018

Por: Marcos Fava Neves*

O que aconteceu com nosso agro?
 
Na terceira projeção da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) para a safra2017/18, estima-se uma produçãode 226,5 milhões de toneladas,4,7% menor que a atual safra recorde. A área crescerá quase 1%, atingindo 61,5 milhões de hectares. A safra de soja está estimada em 109,2 milhões de toneladas, numa área cerca de 3,1% maior, de 34,94 milhões de hectares. O milho deve perder 3%, com 17 milhões de hectares e expectativa de produção de 92,2 milhões de toneladas. Se o clima voltar a ajudar, novo recorde.

As exportações de novembro foram de US$ 7,1 bilhões,praticamente 23%acima de novembro de 2016, deixando um superavit de US$ 5,9 bilhões.No acumulado de janeiro a outubro, o agro trouxe US$ 89,1 bilhões, quase 13% acima de 2016. O superavit deixado pelo agro, quando se tira as importações, já esta em US$ 76,1 bilhões (14,3% acima de 2016).A soja trouxe US$ 1,3 bilhão no mês, as carnes trouxeram US$ 1,3 bilhão e açúcar/etanol algo próximo a US$ 870milhões.


Quando comparamos os preços atuais das commodities mais exportadas pelo Brasil com exatamente um ano atrás, o tombo é grande. No açúcar, é de quase 26,4%, no suco 24,3% e no café 21,5%, porém no mês passado, açúcar e suco subiram um pouco e o café caiu quase 1%, devido à grande safra esperada no Brasil. A soja está praticamente com o mesmo preço (subiu 0,87%) e o milho praticamente não oscilou, porém tem viés de alta devido ao petróleo mais caro e a soja viés de baixa, pois choveu e a safra brasileira vem grande e forte.

O índice mensal de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 175,8 pontos, 0,5% abaixo de outubro e 2,3% menor que novembro de 2016. Caíram de preços as carnes (0,1%) e os lácteos (4,9%), derrubando o índice. E subiram os cereais (0,3%), óleos vegetais (1,3%) e açúcar (4,5%). Já há alguns meses estamos perdendo preços internacionais.

A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) estima que oPIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio (considerando as cadeias todas) deve aumentar cerca de 0,5% a 1% em 2018, contra uma queda de 2% em 2017. Devemos colher 6% a menos de grãos com alguma reação nos preços. Apenas a agropecuária, o PIB deve aumentar 5% em 2018 e 11% neste ano. OVBP (Valor Bruto da Produção) deve aumentar 7,1% chegando a R$ 559,6 bilhões, sendo 6% de aumento no agrícola e 9% na pecuária. Ou seja, se o clima não atrapalhar o agro coloca quase R$ 560 bilhões em renda nos nossos municípios.

O Banco do Brasil anunciou lançamento de um produto interessante ao agronegócio, muito presente em outros países. Um seguro para o faturamento (proteção de renda), que vem em boa hora, resta torcer para que seu custo compense.

Seguem firmes os investimentos da COFCO, trading chinesa, que colocou como meta dobrar o volume de compras diretas de agricultores em cinco anos, chegando a 60 milhões de toneladas. Aqui temos grandes oportunidades às cooperativas brasileiras. A empresa já conta com 145 mil empregados, fatura US$ 70 bilhões e teve nos últimos anos arrojada política de aquisições, comprando empresas como a Nidera e a Noble Agri, agora já integradas, com muitas dificuldades no processo. O agro brasileiro deve prestar muita atenção à COFCO e buscar oportunidades de investimentos e acesso a mercados.

Sobre os preços futuros, o artigo da FAO e UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), chamado "Relatório sobre Commodities e Desenvolvimento 2017", diz que os preços das commodities alimentares subirão apenas 1,4% até 2030, o que de certa forma já havia comentado ao longo deste ano.

Enfim, as notícias de novembro foram neutras ao agro, com pouca oscilação cambial, alguma oscilação para cima do petróleo. A principal notícia negativa do mês tem relação com a possibilidade de revogação da lei Kandir e suas nefastas consequências em tributar exportações.
 
O que acontece com a nossa cana?
 
De acordo com a UNICA (União da Indústria da Cana-de-Açúcar) a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de novembro foi de 568,2 milhões de toneladas, 2,33% menor que no mesmo período anterior. Já foram produzidos 35,09 milhões de toneladas de açúcar (1,1% a mais), e no etanol 24,46 bilhões de litros (+0,21%). O hidratado caiu 0,57%, para 13,96 bilhões de litros e o anidro subiu1,27%, para 10,5 bilhões de litros.O mix na safra é de 52,89% para açúcar e na quinzena seguiu bem mais alcooleiro, alcançando 63,17%, derrubando a produção de açúcar em 35% quando comparado com a mesma quinzena da safra passada.Pena que isto não começou antes na safra.Moeu-se 34% menos na quinzena graças ao período chuvoso. Lembremos que 1% de diminuição no mix de açúcar reduz a produção de açúcar em 750 mil toneladas. Se o que eu disse aqui reiteradas vezes tivesse sido feito, poderíamos alocar uns 4 a 5% a mais de mix para os combustíveis, ter volume suficiente para boas vendas agora na entressafra com os bons preços atuais e provavelmente teríamos faturado a mesma coisa no açúcar, vendendo um pouco menos a um preço um pouco maior.

No ATR houve boa melhoria, chegando a 137,57 kg/ton, contra 134 na safra anterior (2,7% melhor). O rendimento de etanol e açúcar por tonelada de cana processada nesta safra está em 42,61 litros (1,98% acima) e 61,76kg (3,52% acima), respectivamente. Em 1º de dezembro, 147 usinas já haviam encerrado as atividades, contra 167 na anterior.

Os preços do açúcar que vinham se recuperando tombaram na segunda semana de dezembro, voltando a 14 centavos de dólar por libra-peso. A Archer estima em seu modelo preços de 14,61 em dezembro de 14,20 em janeiro e reduziu também sua projeção de produção de cana no Centro-Sul na safra 2018/19 para 585 milhões de toneladas (eram 591 milhões). Interessante que a empresa deu um corte drástico na sua estimativa de produção de açúcar, vindo de 35,5 para 32,7 milhões de toneladas. A empresa elevou sua projeção para o etanol em quase 1 bilhão de litros, para 25,5 bilhões, sendo 14,1 bilhões de litros de hidratado.

Até novembro de 2017 contando 12 meses, o Brasil exportou 29,4 milhões de toneladas de açúcar.

A Biosev continua com seu forte processo de reestruturação, e entre as novas medidas estão a otimização do uso da vinhaça e na alteração do calendário de plantio, concentrando a atividade entre dezembro a março, mantendo uma taxa de renovação de 13% em seus 346 mil hectares de canaviais, levando a idade média das plantas para 4 anos. A empresa também deixou de fazer alguns produtos que estavam contribuindo pouco, tais como açúcar branco em três unidades, ração animal e melaço e busca fontes alternativas de financiamento para lidar com seu elevado endividamento.

A Tereos também apresentou bons resultados, principalmente na produtividade de seus canaviais, que cresceu 6% (84 toneladas/ha) e 4% no ATR (141,5 quilos por tonelada de cana), aumentando o volume moído em 2%, para 20,2 milhões de toneladas. Espera 20,7 milhões em 2018/19. A unidade brasileira representa cerca de 20% do total do grupo e fecha esta safra produzindo 1,8 milhão de toneladas de açúcar (12,5% a mais) e 649 milhões de litros de etanol, 2% a mais. Seu CAPEX no agrícola na próxima safra será de R$ 600 milhões.

A BP e a Copersucar anunciaram uma joint-venture na logística de etanol, compartilhando o uso do terminal de Paulínia (Terminal Copersucar de Etanol) e ampliando com isto a presença comercial da BP.

Segundo levantamento da RPA Consultoria, das 444 usinas existentes no Brasil cerca de 79 não operarão na próxima safra, contra 76 nesta. São empresas com pouco caixa, e teremos menos cana, cerca de 560 milhões de toneladas e que pode ser processada num menor número de usinas. São duas da Raizen e a da Biosev em Maracaju. O triste deste quadro é que se perdem 750 empregos.

Para a próxima safra, temos as seguintes projeções levantadas pela Reuters: Agroconsult 612, Archer Consulting 585, Biosev 586, Datagro 580, FCStone 587, Sucden 588 ficando a média ao redor de 590. Se for este o número, ficará pouco maior que o da atual safra, a depender ainda de cana bisada que ficará para o ano que vem. O mercado acredita numa virada para o etanol, produzindo 6% a mais e o açúcar caindo ao redor de 6%, 33 milhões de toneladas de açúcar e 26 bilhões de litros de etanol.

Continuo minha aposta de mais crescimento econômico e aumento de consumo de combustíveis, se os preços do Petróleo se mantiverem ao redor de US$ 55, alocaremos mais cana para etanol, contribuindo para recuperar os preços do açúcar e hoje analisando o conjunto de fatos na mesa, aposto que a safra 2018/19 terá um valor de ATR maior que esta. Minha previsão que o valor médio chegaria a R$ 0,62/kg nesta safra está difícil de acontecer, pois não teve a explosão de consumo de etanol que eu esperava, em parte devido à política de precificação da distribuição e dos postos, que fixaram o etanol a 70% do preço da gasolina, praticamente independente do preço que está sendo vendido na usina.
 
O que aconteceu com nosso açúcar?

Segundo a Archer, o açúcar já vendido da safra 2018/19 teve um preço de R$ 1.187/ton FOB Santos.

Espera-se grande produção da União Europeia neste ciclo 2018/19, chegando a 20,1 milhões de toneladas, 3,5 milhões a mais que na safra anterior. A desregulamentação começou neste outubro, e agora não se tem mais limites de produção e exportação. Só a França deve crescer 25%. A UE deve colocar no mercado 3 milhões de toneladas, o dobro do limite até então vigente. Pelo Rabobank a produção vai a 19 milhões de toneladas e pode alcançar 22 milhões de toneladas. Porém, alertam que a UE pode proibir os subsídios dados à parte de seus produtores, o que entraria em prática no ano de 2020, desestimulando a produção. A UE deixa de comprar do Brasil e ainda compete com o nosso refinado em mercados do Oriente Médio e África. Os prêmios menores também podem estimular agricultores a plantarem alternativas.

O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) acredita que na safra 2017/18 a produção supera o consumo em incríveis 10 milhões de toneladas, com uma oferta total de 184,949 milhões de toneladas (13,5 milhões de toneladas superior a 2016/2017, que teve 171,472 milhões). Sua última estimativa era de 179,636 milhões de toneladas.Crescimento no Brasil, para 40,2 milhões de toneladas gerando uma exportação de 29,6 milhões, pois o Brasil consome 10,6 milhões. Índia teria 27,7 milhões e Tailândia 11,2 milhões, além do já comentado avanço da União Europeia e produção maior na China. O consumo mundial deve crescerde 171,559 milhões alcançando 174,223 milhões de toneladas. Entre os maiores importadores o destaque é para a China, que fica em segundo lugar comprando 4,2 milhões (400 mil toneladas a menos) para seu consumo estimado de 15,8 milhões de toneladas, sendo superada pela Indonésia, que deve comprar 4,55 milhões de toneladas.

A OIA (Organização Internacional do Açúcar) acredita em produção mundial de 179,45 milhões de toneladas, 6,58% acima da safra 2016/17. O consumo deve ficar em 174,41 milhões de toneladas (1,71% acima). Devem ser comercializadas internacionalmente 61,09 milhões de toneladas, e os estoques crescerem 1,6%, para 89,62 milhões de toneladas, dando uma relação estoque/consumo de 51,38%. O superavit será de 5,03 milhões de toneladas contra o deficit observado de 3,1 milhões em 2016/17. Também prevê outros 3 milhões de superavit em 2018/19.

Estamos... inundados de açúcar.
 
O que acontece com nosso etanol?

Segundo a UNICA em novembro as usinas do Centro Sul venderam 2,33 bilhões de litros (apenas 90 milhões na exportação). De hidratado foram 1,46 bilhão de litros, 40% a mais que o mesmo mês do ano passado. O mix da quinzena produtiva foi muito para etanol, com mais de 63% da cana alocada, pena que demorou. Foi competitivo em outubro abastecer com etanol em SP, MG, GO e MT. Ponto negativo aqui é o Paraná, que é grande produtor, precisaria ajudar mais no consumo. Tarefa de casa para a cadeia produtiva.

Pela ANP (Agência Nacioanl de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) em outubro já se consumiu 15% a mais de etanol, derrubando o consumo de gasolina A em quase 60 milhões de litros na comparação entre os períodos.

Porém, no ano a conta é negativa para o setor de cana: de janeiro a outubro consumimos de gasolina A 26,906 bilhões de litros (5% a mais) e o hidratado apenas 10,8 bilhões de litros, quase 15% a menos.

Seguem firmes as importações de etanol, mesmo após a tributação acima do que exceder 150 milhões de litros por trimestre, pagando-se 20% de imposto. Já em outubro 51 milhões de litros pagaram a cota, pois em setembro foram importados 110 milhões e, em outubro, 91 milhões. De janeiro a outubro já importamos 1,7 bilhão de litros.

A ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) acredita que 15% da frota nacional ainda seja a gasolina, um total de 15 milhões de carros. Estima-se que nossa frota deve crescer em 3% por ano até 2030 e o consumo de combustíveis chegará a 170 bilhões de litros, quase 60% a mais do atual.

Foi aprovado na Câmara e no Senado o projeto RenovaBio. Todo o programa sebaseia em metas de descarbonização e estima-se que gerará 1,4 milhão de empregos diretos e 4,2 milhões de empregos indiretos, investimentos de 1,4 trilhão de reais e substituição de importações na casa de 300 bilhões de litros de gasolina e diesel, necessários como se verá mais à frente. 

Em muitas regiões do país já não se tem mais etanol. De acordo com a ANP, em novembro tínhamos42.171 postos no Brasil 8.249 não tem bombas de hidratado(19,56%).

Pela ANP, o consumo de combustíveis em outubro foi 1,7% maior que setembro e neste ano estamos com 0,2% acima de 2016, mesmo com sensível aumento de preços. Acumulado no ano, o diesel estar 0,4% acima, a gasolina 5% acima e o etanol 13% abaixo.

Importamos em outubro 60% a mais de petróleo que o mesmo mês de 2016. Foram 21,4 milhões de barris, ante 13,4 milhões um ano atrás. Desde janeiro crescemos 25%, trazendo já 193 milhões de barris. Nossa produção desse ano atingiu o menor volume desde 2010. Dobramos a importação de diesel também no mês de outubro e desde janeiro estamos 61% acima, com 65 milhões de barris. Tombo também na gasolina, que teve suas importações crescendo 56% neste ano, em parte pela queda na produção de derivados do petróleo no Brasil em quase 6%.

No fechamento da leitura o hidratado - base Paulínia estava R$ 1,90 e o anidro R$ 2,00/litro. Acertei meu viés de alta para os preços que coloquei aqui há 4 meses, quem seguiu e estocou ganhou bastante e mantenho ainda que devem subir mais. Para quem ganhou, pode me mandar um vinho no Natal.
 
Quem é o homenageado do mês?

Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai aoRoberto Sachs, grande técnico do setor que tem feito excelente trabalho com diversas conquistas à cadeia produtiva.
 
Haja Limão

Nesta semana assisti a um discurso do nosso ex-presidente feito no Rio de Janeiro, onde na sua simplicidade de pensamento e de valores morais, atribui à Lava Jato a falência do Rio de Janeiro e prega que os governadores ladrões que este Estado teve pelo voto de seu povo não deveriam estar presos. Talvez tenha passadoda hora de dar um basta na liberdade deste senhor de continuar viajando o país, vociferando asneiras e fazendo campanha fora de hora para públicos sem capacidade de discernimento e degradando nossa chance de crescimento, nossos valores, nossa moral. Até quando a justiça brasileira permitirá isto?  Já passou da hora de deter este cidadão, de tirar este senhor de cena. Ele consegue superar a “workalcólica”.
 
A todos os leitores, boas festas, um feliz Natal, boas férias e um 2018 cheio de trabalho e saúde.
 
*Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.Em 2013, foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana e da Ouro Fino.

Fonte: Revista Canavieiros

Coluna Caipirinha: 63% da cana virando etanol

16/01/2018

Por: Marcos Fava Neves*

O que aconteceu com nosso agro?
 
Na terceira projeção da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) para a safra2017/18, estima-se uma produçãode 226,5 milhões de toneladas,4,7% menor que a atual safra recorde. A área crescerá quase 1%, atingindo 61,5 milhões de hectares. A safra de soja está estimada em 109,2 milhões de toneladas, numa área cerca de 3,1% maior, de 34,94 milhões de hectares. O milho deve perder 3%, com 17 milhões de hectares e expectativa de produção de 92,2 milhões de toneladas. Se o clima voltar a ajudar, novo recorde.

As exportações de novembro foram de US$ 7,1 bilhões,praticamente 23%acima de novembro de 2016, deixando um superavit de US$ 5,9 bilhões.No acumulado de janeiro a outubro, o agro trouxe US$ 89,1 bilhões, quase 13% acima de 2016. O superavit deixado pelo agro, quando se tira as importações, já esta em US$ 76,1 bilhões (14,3% acima de 2016).A soja trouxe US$ 1,3 bilhão no mês, as carnes trouxeram US$ 1,3 bilhão e açúcar/etanol algo próximo a US$ 870milhões.


Quando comparamos os preços atuais das commodities mais exportadas pelo Brasil com exatamente um ano atrás, o tombo é grande. No açúcar, é de quase 26,4%, no suco 24,3% e no café 21,5%, porém no mês passado, açúcar e suco subiram um pouco e o café caiu quase 1%, devido à grande safra esperada no Brasil. A soja está praticamente com o mesmo preço (subiu 0,87%) e o milho praticamente não oscilou, porém tem viés de alta devido ao petróleo mais caro e a soja viés de baixa, pois choveu e a safra brasileira vem grande e forte.

O índice mensal de preços de commodities alimentares da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) chegou a 175,8 pontos, 0,5% abaixo de outubro e 2,3% menor que novembro de 2016. Caíram de preços as carnes (0,1%) e os lácteos (4,9%), derrubando o índice. E subiram os cereais (0,3%), óleos vegetais (1,3%) e açúcar (4,5%). Já há alguns meses estamos perdendo preços internacionais.

A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) estima que oPIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio (considerando as cadeias todas) deve aumentar cerca de 0,5% a 1% em 2018, contra uma queda de 2% em 2017. Devemos colher 6% a menos de grãos com alguma reação nos preços. Apenas a agropecuária, o PIB deve aumentar 5% em 2018 e 11% neste ano. OVBP (Valor Bruto da Produção) deve aumentar 7,1% chegando a R$ 559,6 bilhões, sendo 6% de aumento no agrícola e 9% na pecuária. Ou seja, se o clima não atrapalhar o agro coloca quase R$ 560 bilhões em renda nos nossos municípios.

O Banco do Brasil anunciou lançamento de um produto interessante ao agronegócio, muito presente em outros países. Um seguro para o faturamento (proteção de renda), que vem em boa hora, resta torcer para que seu custo compense.

Seguem firmes os investimentos da COFCO, trading chinesa, que colocou como meta dobrar o volume de compras diretas de agricultores em cinco anos, chegando a 60 milhões de toneladas. Aqui temos grandes oportunidades às cooperativas brasileiras. A empresa já conta com 145 mil empregados, fatura US$ 70 bilhões e teve nos últimos anos arrojada política de aquisições, comprando empresas como a Nidera e a Noble Agri, agora já integradas, com muitas dificuldades no processo. O agro brasileiro deve prestar muita atenção à COFCO e buscar oportunidades de investimentos e acesso a mercados.

Sobre os preços futuros, o artigo da FAO e UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), chamado "Relatório sobre Commodities e Desenvolvimento 2017", diz que os preços das commodities alimentares subirão apenas 1,4% até 2030, o que de certa forma já havia comentado ao longo deste ano.

Enfim, as notícias de novembro foram neutras ao agro, com pouca oscilação cambial, alguma oscilação para cima do petróleo. A principal notícia negativa do mês tem relação com a possibilidade de revogação da lei Kandir e suas nefastas consequências em tributar exportações.
 
O que acontece com a nossa cana?
 
De acordo com a UNICA (União da Indústria da Cana-de-Açúcar) a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de novembro foi de 568,2 milhões de toneladas, 2,33% menor que no mesmo período anterior. Já foram produzidos 35,09 milhões de toneladas de açúcar (1,1% a mais), e no etanol 24,46 bilhões de litros (+0,21%). O hidratado caiu 0,57%, para 13,96 bilhões de litros e o anidro subiu1,27%, para 10,5 bilhões de litros.O mix na safra é de 52,89% para açúcar e na quinzena seguiu bem mais alcooleiro, alcançando 63,17%, derrubando a produção de açúcar em 35% quando comparado com a mesma quinzena da safra passada.Pena que isto não começou antes na safra.Moeu-se 34% menos na quinzena graças ao período chuvoso. Lembremos que 1% de diminuição no mix de açúcar reduz a produção de açúcar em 750 mil toneladas. Se o que eu disse aqui reiteradas vezes tivesse sido feito, poderíamos alocar uns 4 a 5% a mais de mix para os combustíveis, ter volume suficiente para boas vendas agora na entressafra com os bons preços atuais e provavelmente teríamos faturado a mesma coisa no açúcar, vendendo um pouco menos a um preço um pouco maior.

No ATR houve boa melhoria, chegando a 137,57 kg/ton, contra 134 na safra anterior (2,7% melhor). O rendimento de etanol e açúcar por tonelada de cana processada nesta safra está em 42,61 litros (1,98% acima) e 61,76kg (3,52% acima), respectivamente. Em 1º de dezembro, 147 usinas já haviam encerrado as atividades, contra 167 na anterior.

Os preços do açúcar que vinham se recuperando tombaram na segunda semana de dezembro, voltando a 14 centavos de dólar por libra-peso. A Archer estima em seu modelo preços de 14,61 em dezembro de 14,20 em janeiro e reduziu também sua projeção de produção de cana no Centro-Sul na safra 2018/19 para 585 milhões de toneladas (eram 591 milhões). Interessante que a empresa deu um corte drástico na sua estimativa de produção de açúcar, vindo de 35,5 para 32,7 milhões de toneladas. A empresa elevou sua projeção para o etanol em quase 1 bilhão de litros, para 25,5 bilhões, sendo 14,1 bilhões de litros de hidratado.

Até novembro de 2017 contando 12 meses, o Brasil exportou 29,4 milhões de toneladas de açúcar.

A Biosev continua com seu forte processo de reestruturação, e entre as novas medidas estão a otimização do uso da vinhaça e na alteração do calendário de plantio, concentrando a atividade entre dezembro a março, mantendo uma taxa de renovação de 13% em seus 346 mil hectares de canaviais, levando a idade média das plantas para 4 anos. A empresa também deixou de fazer alguns produtos que estavam contribuindo pouco, tais como açúcar branco em três unidades, ração animal e melaço e busca fontes alternativas de financiamento para lidar com seu elevado endividamento.

A Tereos também apresentou bons resultados, principalmente na produtividade de seus canaviais, que cresceu 6% (84 toneladas/ha) e 4% no ATR (141,5 quilos por tonelada de cana), aumentando o volume moído em 2%, para 20,2 milhões de toneladas. Espera 20,7 milhões em 2018/19. A unidade brasileira representa cerca de 20% do total do grupo e fecha esta safra produzindo 1,8 milhão de toneladas de açúcar (12,5% a mais) e 649 milhões de litros de etanol, 2% a mais. Seu CAPEX no agrícola na próxima safra será de R$ 600 milhões.

A BP e a Copersucar anunciaram uma joint-venture na logística de etanol, compartilhando o uso do terminal de Paulínia (Terminal Copersucar de Etanol) e ampliando com isto a presença comercial da BP.

Segundo levantamento da RPA Consultoria, das 444 usinas existentes no Brasil cerca de 79 não operarão na próxima safra, contra 76 nesta. São empresas com pouco caixa, e teremos menos cana, cerca de 560 milhões de toneladas e que pode ser processada num menor número de usinas. São duas da Raizen e a da Biosev em Maracaju. O triste deste quadro é que se perdem 750 empregos.

Para a próxima safra, temos as seguintes projeções levantadas pela Reuters: Agroconsult 612, Archer Consulting 585, Biosev 586, Datagro 580, FCStone 587, Sucden 588 ficando a média ao redor de 590. Se for este o número, ficará pouco maior que o da atual safra, a depender ainda de cana bisada que ficará para o ano que vem. O mercado acredita numa virada para o etanol, produzindo 6% a mais e o açúcar caindo ao redor de 6%, 33 milhões de toneladas de açúcar e 26 bilhões de litros de etanol.

Continuo minha aposta de mais crescimento econômico e aumento de consumo de combustíveis, se os preços do Petróleo se mantiverem ao redor de US$ 55, alocaremos mais cana para etanol, contribuindo para recuperar os preços do açúcar e hoje analisando o conjunto de fatos na mesa, aposto que a safra 2018/19 terá um valor de ATR maior que esta. Minha previsão que o valor médio chegaria a R$ 0,62/kg nesta safra está difícil de acontecer, pois não teve a explosão de consumo de etanol que eu esperava, em parte devido à política de precificação da distribuição e dos postos, que fixaram o etanol a 70% do preço da gasolina, praticamente independente do preço que está sendo vendido na usina.
 
O que aconteceu com nosso açúcar?

Segundo a Archer, o açúcar já vendido da safra 2018/19 teve um preço de R$ 1.187/ton FOB Santos.

Espera-se grande produção da União Europeia neste ciclo 2018/19, chegando a 20,1 milhões de toneladas, 3,5 milhões a mais que na safra anterior. A desregulamentação começou neste outubro, e agora não se tem mais limites de produção e exportação. Só a França deve crescer 25%. A UE deve colocar no mercado 3 milhões de toneladas, o dobro do limite até então vigente. Pelo Rabobank a produção vai a 19 milhões de toneladas e pode alcançar 22 milhões de toneladas. Porém, alertam que a UE pode proibir os subsídios dados à parte de seus produtores, o que entraria em prática no ano de 2020, desestimulando a produção. A UE deixa de comprar do Brasil e ainda compete com o nosso refinado em mercados do Oriente Médio e África. Os prêmios menores também podem estimular agricultores a plantarem alternativas.

O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) acredita que na safra 2017/18 a produção supera o consumo em incríveis 10 milhões de toneladas, com uma oferta total de 184,949 milhões de toneladas (13,5 milhões de toneladas superior a 2016/2017, que teve 171,472 milhões). Sua última estimativa era de 179,636 milhões de toneladas.Crescimento no Brasil, para 40,2 milhões de toneladas gerando uma exportação de 29,6 milhões, pois o Brasil consome 10,6 milhões. Índia teria 27,7 milhões e Tailândia 11,2 milhões, além do já comentado avanço da União Europeia e produção maior na China. O consumo mundial deve crescerde 171,559 milhões alcançando 174,223 milhões de toneladas. Entre os maiores importadores o destaque é para a China, que fica em segundo lugar comprando 4,2 milhões (400 mil toneladas a menos) para seu consumo estimado de 15,8 milhões de toneladas, sendo superada pela Indonésia, que deve comprar 4,55 milhões de toneladas.

A OIA (Organização Internacional do Açúcar) acredita em produção mundial de 179,45 milhões de toneladas, 6,58% acima da safra 2016/17. O consumo deve ficar em 174,41 milhões de toneladas (1,71% acima). Devem ser comercializadas internacionalmente 61,09 milhões de toneladas, e os estoques crescerem 1,6%, para 89,62 milhões de toneladas, dando uma relação estoque/consumo de 51,38%. O superavit será de 5,03 milhões de toneladas contra o deficit observado de 3,1 milhões em 2016/17. Também prevê outros 3 milhões de superavit em 2018/19.

Estamos... inundados de açúcar.
 
O que acontece com nosso etanol?

Segundo a UNICA em novembro as usinas do Centro Sul venderam 2,33 bilhões de litros (apenas 90 milhões na exportação). De hidratado foram 1,46 bilhão de litros, 40% a mais que o mesmo mês do ano passado. O mix da quinzena produtiva foi muito para etanol, com mais de 63% da cana alocada, pena que demorou. Foi competitivo em outubro abastecer com etanol em SP, MG, GO e MT. Ponto negativo aqui é o Paraná, que é grande produtor, precisaria ajudar mais no consumo. Tarefa de casa para a cadeia produtiva.

Pela ANP (Agência Nacioanl de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) em outubro já se consumiu 15% a mais de etanol, derrubando o consumo de gasolina A em quase 60 milhões de litros na comparação entre os períodos.

Porém, no ano a conta é negativa para o setor de cana: de janeiro a outubro consumimos de gasolina A 26,906 bilhões de litros (5% a mais) e o hidratado apenas 10,8 bilhões de litros, quase 15% a menos.

Seguem firmes as importações de etanol, mesmo após a tributação acima do que exceder 150 milhões de litros por trimestre, pagando-se 20% de imposto. Já em outubro 51 milhões de litros pagaram a cota, pois em setembro foram importados 110 milhões e, em outubro, 91 milhões. De janeiro a outubro já importamos 1,7 bilhão de litros.

A ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) acredita que 15% da frota nacional ainda seja a gasolina, um total de 15 milhões de carros. Estima-se que nossa frota deve crescer em 3% por ano até 2030 e o consumo de combustíveis chegará a 170 bilhões de litros, quase 60% a mais do atual.

Foi aprovado na Câmara e no Senado o projeto RenovaBio. Todo o programa sebaseia em metas de descarbonização e estima-se que gerará 1,4 milhão de empregos diretos e 4,2 milhões de empregos indiretos, investimentos de 1,4 trilhão de reais e substituição de importações na casa de 300 bilhões de litros de gasolina e diesel, necessários como se verá mais à frente. 

Em muitas regiões do país já não se tem mais etanol. De acordo com a ANP, em novembro tínhamos42.171 postos no Brasil 8.249 não tem bombas de hidratado(19,56%).

Pela ANP, o consumo de combustíveis em outubro foi 1,7% maior que setembro e neste ano estamos com 0,2% acima de 2016, mesmo com sensível aumento de preços. Acumulado no ano, o diesel estar 0,4% acima, a gasolina 5% acima e o etanol 13% abaixo.

Importamos em outubro 60% a mais de petróleo que o mesmo mês de 2016. Foram 21,4 milhões de barris, ante 13,4 milhões um ano atrás. Desde janeiro crescemos 25%, trazendo já 193 milhões de barris. Nossa produção desse ano atingiu o menor volume desde 2010. Dobramos a importação de diesel também no mês de outubro e desde janeiro estamos 61% acima, com 65 milhões de barris. Tombo também na gasolina, que teve suas importações crescendo 56% neste ano, em parte pela queda na produção de derivados do petróleo no Brasil em quase 6%.

No fechamento da leitura o hidratado - base Paulínia estava R$ 1,90 e o anidro R$ 2,00/litro. Acertei meu viés de alta para os preços que coloquei aqui há 4 meses, quem seguiu e estocou ganhou bastante e mantenho ainda que devem subir mais. Para quem ganhou, pode me mandar um vinho no Natal.
 
Quem é o homenageado do mês?

Todos os meses temos um grande homenageado aqui neste espaço e desta vez nossa singela homenagem vai aoRoberto Sachs, grande técnico do setor que tem feito excelente trabalho com diversas conquistas à cadeia produtiva.
 
Haja Limão

Nesta semana assisti a um discurso do nosso ex-presidente feito no Rio de Janeiro, onde na sua simplicidade de pensamento e de valores morais, atribui à Lava Jato a falência do Rio de Janeiro e prega que os governadores ladrões que este Estado teve pelo voto de seu povo não deveriam estar presos. Talvez tenha passadoda hora de dar um basta na liberdade deste senhor de continuar viajando o país, vociferando asneiras e fazendo campanha fora de hora para públicos sem capacidade de discernimento e degradando nossa chance de crescimento, nossos valores, nossa moral. Até quando a justiça brasileira permitirá isto?  Já passou da hora de deter este cidadão, de tirar este senhor de cena. Ele consegue superar a “workalcólica”.
 
A todos os leitores, boas festas, um feliz Natal, boas férias e um 2018 cheio de trabalho e saúde.
 
*Marcos Fava Neves é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto.Em 2013, foi Professor Visitante Internacional da Purdue University (EUA) e desde 2006 é Professor Visitante Internacional da Universidade de Buenos Aires e Membro do Conselho da Orplana e da Ouro Fino.