http://site.orplana.com.br/pages/caminhos-da-cana-2017/
http://www.premiomulheresdoagro.com.br/
http://https://www.fmcagricola.com.br/index.aspx
http://www.rgis.com.br
http://www.ideaonline.com.br/conteudo/12-grande-encontro-sobre-variedades-de-cana-de-acucar.html

Consecana: revisão de postura

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26/03/2018
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Por: Marino Guerra

Todos os envolvidos com a cadeia sucroenergética sabem da imensa transformação que ela sofreu desde o começo do século. Olhar para a produção de cana, açúcar e álcool no final da década de 90, cerca de 20 anos atrás, nos dá a percepção de um setor totalmente encapsulado em relação ao que é hoje.

Naquela época haviam verdadeiros exércitos de “boias frias” nos canaviais colhendo a cana queimada. A cena causava a ira da população urbana em relação à poluição, sem contar a informalidade trabalhista que também refletia nos índices de desenvolvimento humano das regiões. O assunto gerava pautas saborosas para a imprensa deixar a opinião pública da atividade em patamares iguais aos índices de aprovação de presidentes e presidenciáveis.

Olhar para os produtos entregues pela indústria também mostra o tanto que essa viagem está acelerada. Não estava implantada, em escala comercial, a tecnologia flex, os motores ou eram a álcool ou à gasolina. A ideia de que uma unidade industrial poderia queimar o seu bagaço para fornecer energia elétrica à rede ainda era fala restrita aos mais visionários do segmento.

O objetivo desse texto não é enumerar cada avanço, em cada ponto. Para isso seria necessário escrever um livro e, com certeza, ele estaria desatualizado ao final da empreitada. Há uma enxurrada de inovações que estão chegando para transformar ainda mais o setor que outrora era conhecido por ser de senhores de engenho. Hoje, graças a evolução, o setor é aclamado por lideranças mundiais com uma das atividades agrícolas mais sustentáveis do globo.

Porém, todo esse enunciado foi escrito para o leitor entender, e nesse caso a conversa vai no pé do ouvido do produtor e fornecedor de cana, de que em cima de todo esse dinamismo, não somente o modo como ele apura o preço da sua produção, mas como ele a executa, precisa acompanhar o “trem”.

Assim, a Orplana desenvolveu o Consecana Pro-Int (Produtor Integrado), onde apoiado em um audacioso planejamento estratégico, pretende trazer para cada propriedade a concepção de que é preciso acompanhar a marcha evolutiva, caso contrário as perdas de oportunidades serão imensas e decisivas para definir quem sobreviverá no negócio.

Impasse
Em primeiro lugar, o produtor precisa compreender como funciona a dinâmica de revisão do Consecana (Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo), órgão que envolve produtores e fornecedores e indústrias na apuração do valor da matéria-prima. O seu estatuto reza que sejam feitas atualizações periódicas, até mesmo em razão de defasagem da metodologia, a cada cinco anos. Ao longo de sua história, o sistema passou por esse processo duas vezes, em 2005 e 2011.

Seguindo a ordem natural das coisas, no mais tardar, em 2016, mais uma revisão deveria ter acontecido. Os estudos para a adaptação de alguns parâmetros, o que deixaria mais real a participação da matéria-prima no resultado final obtido pela indústria (venda de açúcares e etanóis), indicavam uma defasagem próxima de 15%. Número muito bom para o produtor e fornecedor de cana, afinal de contas quem não quer receber essa porcentagem de aumento em seu salário; porém não houve consenso, e então um impasse estava instalado. De um lado, o produtor e fornecedor de cana ciente de sua atividade antieconômica e, de outro, o setor industrial com um alto grau de endividamento, verificando que qualquer reajuste que se fizesse, o impacto seria em 100% da cana entregue devido ao preço da expansão do setor de quinze anos para cá.

Nessa época ocorreu a mudança no foco da questão e a compreensão de que não teria como fundamentar um novo cálculo de matéria-prima toda vez que um novo produto fosse desenvolvido, o que inviabilizaria qualquer planejamento em pesquisa e desenvolvimento - uma verdadeira heresia em tempos de economia 4.0.

Com a esperança de que a ruptura na filosofia antiga do método fosse a chave da questão na solução do impasse, foi desenvolvido um grupo de estudos para avaliar os processos e a busca de redução de custos e melhoria na entrega e com isso, desenvolver uma proposta para um complemento do Consecana.

A primeira percepção se deu através da análise do processo de colheita mecanizada de cana, onde os próprios produtores que se destacavam em algum momento- como, por exemplo, em tornar o processo de colheita mais econômico por ter feito linhas mais adaptadas à passagem da máquina, reduzindo o declive através da implantação de curva de nível; a entrega de cana com baixo índice de impurezas tanto vegetal como mineral e até mesmo o simples fato de estar mais próximo da unidade industrial -, já recebiam um bônus como premiação, além da base média estabelecida pelo Consecana.

Isso funcionaria como um mercado spot de bonificações para os produtores que de alguma maneira conseguissem provar valores referentes à sua eficiência para a unidade industrial.
Diante desse cenário, foi feito um estudo dessas práticas e desenvolvida a proposta do Consecana Pro Int, onde os valores adicionais ao atual formato do Consecana (que será mantido) serão apurados como base em um conjunto de ações baseadas dentro de uma estrutura meritocrática que proporcionará valor à operação industrial.

“O produtor consegue entregar a cana com um custo mais baixo por ter estrutura própria ou monitoramento de CTT (corte, transbordo e transporte) terceirizado, gerindo e reduzindo custos neste processo ou por ter planejamento varietal aliado à colheita na época certa,algo que pode lhe render uma produção de açúcar espetacular. Resumindo, quanto mais envolvido ou integrado ele estiver na relação de produção, venda e entrega da matéria-prima, mais ele será valorizado”, disse o gestor executivo da Orplana e um dos profissionais ligados umbilicalmente na realização desse projeto, Celso Albano.

Uma primeira confusão dos agricultores quando tomam ciência do projeto é sobre a falta de liberdade que esse terá para negociar a sua produção. Nesse ponto é preciso deixar claro a diferença entre integralidade e exclusividade. O que está no novo texto diz simplesmente que no momento de negociação de sua cana, ao fechar o contrato, quanto mais integrado, ou seja, quanto mais controle e entendimento dos processos, maior será o seu ganho. Se não cumprir com nada, receberá conforme a circular do Consecana, como já acontece hoje.

Multicolorido
Na masmorra que o tempo e a crise trataram de aprisionar o Consecana fez com que o produtor e fornecedor desenvolvesse uma visão monocromática onde era possível enxergar apenas o número do ATR como resultado, de uma forma maquiavélica adaptada ao mundo rural, o fim (quantidade de açúcar) justificava o meio (plantio, tratos, colheita, transporte e qualquer outro processo da lavoura).
No entanto, o método adicional de apuração do valor da matéria-prima veio para trazer cores a esse cenário mostrando que é possível ganhar mais respeitando conceitos de reconhecimento, eficiência e qualidade.

Para ilustrar o conceito de reconhecimento, imagine o produtor que tem contrato para entregar a cana com uma unidade industrial, cumprindo com um acordo que definirá previamente a quantidade de matéria-prima a ser entregue todos os meses.Isso fará com que a indústria consiga montar um plano orçamentário mais assertivo com relação ao seu ritmo de moagem, gerando valor à sua operação, principalmente pela previsibilidade que terá na produção e na consequente segurança em operações de venda a mercado futuro para o açúcar, por exemplo.

Reconhecendo a importância do produtor e fornecedor nesse mecanismo, o mesmo passa a receber parte desse valor, lembrando que todas recomendações e formas de pagamentos serão discriminadas no documento a ser anexado ao Consecana, caso o consenso entre produtores e fornecedores de cana e indústrias ocorra.

Outro exemplo de reconhecimento de valor é sobre as normas, principalmente trabalhistas e ambientais, já que cada vez mais o mercado final, em especial o externo, exige uma rastreabilidade ou compliance que obriga as empresas a investirem em departamentos, recursos humanos e equipamentos para auditar toda a área rural, não importando se é de origem própria ou de terceiros. Um produtor fornecedor que consiga seguir todas as regras da boa gestão de sua cana, com certeza reduzirá custos para a execução desse serviço, gerando valor e recebendo por isso.

Albano faz questão de deixar claro que o produtor é livre para aceitar ou não cada processo. “Principalmente no caso do produtor spot, que tem duas, três ou até mesmo quatro usinas em sua volta. Nesse caso, ele não tem com o que se preocupar, vai continuar a fazer um leilão de sua matéria-prima, é um privilegiado. Existe ainda muita confusão ao achar que esse novo modelo será uma imposição, é preciso frisar que é uma alternativa e que apenas estamos criando uma metodologia para formalizar o que já é praticado na praça”.

A eficiência será a segunda base que o fornecedor de cana deverá se pautar para aumentar seus ganhos. Antes de entrar em exemplos práticos é preciso recorrer aos livros de administração de empresas para entender o conceito desse termo: o primeiro detalhe que precisa ficar claro é que eficiência é algo a mais que eficácia, que consiste em fazer as coisas de maneira correta. Os eficientes fazem sua atividade de maneira correta tendo sempre a obsessão em escalar sua produção utilizando menos recursos (insumos, tempo, maquinário, pessoas), aliando-se ainda ao princípio da efetividade, sustentável e duradouro no negócio da cana.

Entrando no carreador, o executivo da Orplana aponta que hoje existem diversos tipos de fornecedores de cana, desde aqueles que recebem um canavial pronto e fazem apenas os tratos culturais, terceirizando as operações de plantio e colheita e com um controle mínimo sobre sua operação. Dentro dessa nova visão do negócio, esse perfil é identificado como básico.

A partir do momento que ele se desenvolve um pouco mais, a tendência natural dessa expansão é focar na operação de plantio. Com isso terá que administrar o trato varietal de seu canavial e o uso de outros insumos, fazendo um planejamento que lhe garante atingir níveis de excelência quanto a curva de entrega ótima da cana.

Vale esclarecer que em um primeiro momento não será necessário realizar grandes alavancagens em máquinas modernas. Todos sabem que o produtor básico de cana não terá grandes frentes de plantio de quarta para quinta-feira, porém o que o novo Consecana pretende estimular é que ele (produtor) entre na gestão da atividade, mesmo ela sendo terceirizada, que busque informações sobre variedades, planeje a época de plantio e como será a operação. Dessa forma terá ganhos além do diferencial relacionado a nova proposta e abrirá mais duas novas fontes de renda ou de economia planejada, onde se destacam a primeira na taxa de açúcar da cana e a segunda na queda de custos.

O próximo passo na escalada evolutiva é atingir o processo de colheita, onde novos desafios, principalmente ligados a gestão de máquinas, oficina e logística terão que ser encarados. No momento em que passar a executar também o serviço de transporte -o que não é uma etapa simples, pois se trata praticamente da abertura de um novo negócio tamanha a complexidade de desenvolvimento de uma logística rodoviária eficiente -, o produtor atinge o limiar de sua atividade.
O último ponto para a evolução na renda é simplesmente a consequência dos dois aspectos anteriores, pois quem conseguir o reconhecimento e praticar os aspectos de integração com a usina, evoluir no sentido da meritocracia pela eficiência na ampliação e gestão de sua atividade, dificilmente chegará na usina com uma cana suja, cheia de impurezas e com uma matéria-prima de baixa qualidade. Percebe como tudo se encaixa?

Quer seja produtor básico, produtor intermediário, produtor integral ou produtor completo, todos estarão na balança do mérito pela eficiência, pelo reconhecimento e pela qualidade.

Cabe a cada um com controle, monitoramento e ferramentas de gestão produtiva e administrativa buscarem eficácia, eficiência e efetividade.

Conhecimento
O leitor deve estar se perguntando, tudo muito engenhoso, tudo muito bonito, mas para acontecer toda essa mudança é preciso investimento e todos sabem que o setor se encontra em uma situação grave de endividamento. Se o cobertor está curto para todos, como essa conta será paga?

A Orplana conhece muito bem a fase que os canaviais atravessam, sabe de seu envelhecimento, que a produtividade anda há tempos a passos de siri e que a retomada tão esperada está para acontecer, mas ainda não chegou.
Porém, a grande sacada do projeto do novo Consecana é agregar um capital de enorme valor, mas que não exige grande investimento, mas sim conhecimento.
Com isso está em fase final de implantação o projeto “Muda Cana”, que será uma verdadeira Business School para quem está ligado ao associativismo canavieiro.
“No Muda Cana nós colocamos o conhecimento como o nosso compromisso.
Vamos capacitar os produtores para melhorar a sua gestão, melhorar seus índices de produtividade, melhorar a sua performance na administração do seu negócio, adequação em relação a risco, em relação ao entendimento do comércio da sua matéria-prima perante o modelo que é o Consecana. Quando essa transformação acontecer, o associado passará a ser mais disputado pelas usinas”, explica Albano.
A ideia do projeto é fazer com que o produtor atinja um nível de excelência em sua atividade que o deixe pronto para conquistar uma eventual certificação de qualidade. O que será uma verdadeira revolução em se tratando de planejamento para uma unidade industrial.

Como exemplo de impacto monetário real que essa mudança pode causar, Albano cita: “Com a informação de onde e quanto o produtor estima de entrega mensal ou diária ao longo da safra, evitará problemas gravíssimos como o de uma usina parada, que gera custos entre R$ 20 a R$ 80 mil por dia. Ao conhecer as fatias que formarão o grande bolo de entrega a cada mês ou até mesmo de toda a safra, através do planejamento, ele conseguirá mitigar esse prejuízo. Outra questão é a quantidade de impurezas da matéria-prima. Uma cana entregue com muita palha, pode perder açúcar do caldo, e se entrar com muita sujeira mineral, com certeza terá impacto no processo de deterioração dos componentes industriais”, pontua.

Funcionamento
Quem sustentará o Muda Cana? Será a usina? Não! Não será a usina, não serão as associações e não haverá aumento na taxa de recolhimento. Para entender como ele será sustentado é preciso conhecer a história de sua criação.

Tudo começou em 2013, quando a Orplana buscou entender a necessidade dela própria, das associações que a compõe e da base de produtores e fornecedores em executar um plano estratégico de longo prazo no sentido de buscar uma profissionalização. Para isso foi contratado o professor da FEA-USP e colunista da Revista Canavieiros, Marcos Fava Neves, que executou a função através da Markestrat (Centro de pesquisa e projetos em marketing e estratégia), que elaborou 19 projetos ao longo de 10 anos, buscando entender as bases através de uma poderosa ferramenta de diagnóstico e estratégia que foi o “Caminhos da Cana” que terminou no final de 2017, totalizando quatro anos de transmissão da mensagem associativista, 1.000 questionários preenchidos, 40.000 km percorridos, 80 municípios visitados e uma real visão da realidade do produtor de cana.

Já com esse processo de profissionalização funcionando a plenos pulmões dentro da própria organização, chegou o momento de replicar o avanço para as associações e associados, sendo esse o estopim para o nascimento do “Muda Cana”, que acabou ganhando muito mais força a partir da mudança de foco em relação ao Consecana.

No entanto, a Orplana não conseguiria tocar o projeto sozinha, até porque em sua história nunca teve uma pegada voltada à capacitação. Sendo assim,a entidade buscou,mais uma vez, o apoio da Markestrat para a coordenação das disciplinas a serem proferidas e somou ao trazer o Solidaridad Network (organização do terceiro setor que atua em diversos países e várias cadeias de atividades agropecuárias diferentes). Sua atuação específica no setor sucroenergético consiste na capacitação e busca pela sustentabilidade dos produtores e fornecedores de cana através de ferramentas digitais e parcerias institucionais, destacando-se os programas Elo, da Raízen, e Muda Cana, da Orplana.

Com as cabeças pensantes unidas foi desenhado o escopo de todo o projeto e definido que a sustentação financeira do mesmo partiria da implantação de uma política de marketing de relacionamento, no qual empresas interessadas no desenvolvimento do produtor e fornecedor de cana patrocinariam a empreitada. 

Depois de um ano e meio batendo na porta de diversas empresas dos mais variados segmentos, foi viabilizada a implantação do Muda Cana. A expectativa é de que entre em funcionamento até o final do primeiro trimestre de 2018.

A base curricular do programa será dividida em três diretrizes. A primeira se trata do ganho de produtividade com sustentabilidade, onde o objetivo é que o produtor consiga enxergar quais são os riscos de seu negócio, como evoluir sob o ponto de vista da eficiência e as formas de não apenas permanecer nele, mas também de crescimento.

A segunda diretriz focará nos aspectos comerciais da atividade e em fazer o aluno dominar toda a sistemática do processo de comercialização da matéria-prima, e a partir de aí transmitir conhecimentos sobre a gestão do mesmo. A última é transformar o agricultor em um agroempresário do ponto de vista de gestão e controle do negócio, na qual serão transmitidas noções de processos perante o perfil de cada associado. “Não importa que o fornecedor tenha 5 hectares de terra. Ele tem que entender que é um microempresário”, afirma Albano.

Baseada nesse tripé foi realizada a grade curricular, onde cada módulo será criado respeitando o nível do perfil do produtor, levando em consideração aspectos de conhecimento, tamanho e região. A ideia é que o produtor cresça de turma na mesma proporção de evolução de seu negócio, ou seja, a sua nota final será o seu resultado em uma safra. O Muda Cana será a maior plataforma de EAD(Ensino a Distância) voltado para produtores rurais em todo o mundo.

O Muda Cana também irá utilizar uma ferramenta digital de acompanhamento de práticas agrícolas complementares a base curricular. Trata-se de um aplicativo que os produtores podem baixar em seu celular e se cadastrar gratuitamente.

Feito isso, eles poderão avaliar seu negócio nos aspectos de produção, ambiental, econômico e social em um ambiente digital que fornecerá orientações para a melhoria contínua de sua propriedade. Dentro do aplicativo, o produtor também poderá acessar a biblioteca de boas práticas, receber notícias atualizadas sobre os temas de interesse e compartilhar suas melhorias com os outros produtores. Essa ferramenta, chamada de FarmingSolution, está sendo desenvolvida pela Solidaridad e será utilizada no Muda Cana e em outros projetos apoiados pela organização.

Vários mundos
Hoje, ao percorrer os açougues de uma cidade com média de 100 mil habitantes no interior de São Paulo é possível encontrar estabelecimentos completamente diferentes: há aquele tradicional, onde o dono faz a desossa da carcaça e os pedaços são separados e vendidos praticamente de maneira fresca. Existem também as casas de carnes que trabalham um pouco mais a carne, vendendo peças a vácuo, já temperadas, em espetinhos, e até mesmo já assada, principalmente nas manhãs de domingo.

Recentemente, com o advento da pecuária intensiva e a introdução de novas raças é fácil encontrar em um município desse porte os chamados shoppings da carne, que geralmente vendem cortes diferenciados da própria produção em um ambiente que permite o cliente consumir o produto “in loco” acompanhado de uma saborosa bebida especial.

Essa variação não é exclusividade dos comerciantes de carne, sendo possível um comparativo entre padarias, supermercados, farmácias e até mesmo empresas que fazem parte da mesma rede e que possuem as suas peculiaridades. Com o avanço da tecnologia, se tornou viável o desenvolvimento de atividades que atendam o ambiente de maneira mais personalizada se comparado com o início da industrialização em massa onde as ferramentas e informações eram todas padronizadas.

Sendo assim, a atividade de cultivar cana-de-açúcar não poderia ser diferente. Hoje encontram-se produtores considerados pequenos que desenvolvem o seu negócio através da integração de sua propriedade com outras atividades (piscicultura, pecuária, produção de grãos na rotação, eucaliptos, apicultura, entre outras). Outros conseguem aumentar a rentabilidade se unindo com vizinhos e formando condomínios rurais, sendo verdadeiros exemplares do que deverá ser a atividade no futuro.

Para se ter noção de quanto heterogêneos são os fornecedores de cana, se pegarmos dois produtores que tenham um canavial de 150 hectares, um será considerado pequeno no Mato Grosso do Sul e o outro médio na região de Ribeirão Preto.

Entender todo esse universo é fundamental para a Orplana implementar o Muda Cana e fará com que os produtores melhorem sua eficiência na atividade e passem a elevar seus ganhos através do Consecana Pro-Int.

A complexidade - que com o passar dos anos deve aumentar ainda mais -, desse público obrigou a instituição a criar o projeto “Segmentação”, que consiste na criação de um banco de dados que catalogará as mais diferentes modalidades de produtores e fornecedores de cana associados e, principalmente, quais são as maiores necessidades de cada um.

Além de conseguir entender as realidades, esse projeto visa organizar um relevante número de informações processuais do campo. Através dele será possível obter conclusões valiosas para cada produtor, como explica Albano:

“Em parceria com o Pecege estamos desenvolvendo um painel de custos de produção, onde cada produtor saberá os seus números como, por exemplo, o valor da cana posta na usina, não importando se ele está executando todas as fases do CTT ou terceirizando, na qual ele poderá ter o comparativo de quanto foi o seu resultado final. Ao abrir essa planilha, ele saberá trabalhar os custos ou então se adequar dentro do novo Consecana para aumentar a sua margem. Não é investimento, é pura gestão. O projeto tem como meta entender a base buscando a solução certa para cada segmento diferente."

Muita prosa
O que você quer que seu filho, ou as crianças de sua família, sejam no futuro? Se essa pergunta for feita para qualquer pessoa, as respostas serão variadas entre ser feliz e obter sucesso profissional.

Cada vez mais é perceptível para a sociedade que atingir a felicidade e também ter uma carreira de sucesso está inerente a conseguir se desenvolver socialmente.
Pensando no fornecedor do futuro, a Orplana não poderia deixar um vácuo em seu planejamento estratégico que seria o não desenvolvimento de um projeto que aumente a network, a troca de ideias, a boa e velha prosa entre as associações e seus associados.

Assim desenvolveu uma carregada agenda de eventos que vão desde a atualização de aspectos conjunturais do setor, como o RenovaBio, até assuntos técnicos que levarão conhecimentos para melhorar a rotina de trabalho dos produtores e fornecedores.

Na agenda de 2018 estão a manutenção de iniciativas já consolidadas, como o Fórum do Produtores de Agroenergia, que acontece durante a Fenasucro&Agrocana, no segundo semestre. Devido ao grande sucesso do ano passado, o mesmo evento também ganhará uma edição na primeira metade do ano, que acontecerá no último dia do “Agroencontro”, evento promovido pela Ouro Fino. A Orplana coordenará um painel diário que contará, a cada dia, com a participação de uma cooperativa madrinha e suas associações coligadas. Nesse espaço será apresentada a visão de cada liderança a respeito do tema “O futuro do produtor de cana”. 

Para fechar a pauta de eventos de 2018 será colocado em ação o “Agrocana Road Show”, sequência de um encontro por mês onde acontecerão palestras temáticas, como condomínio rural, agricultura de precisão, gestão da informação, RenovaBio sob o aspecto do produtor, tendência da mecanização da cana, entre outros. Vale citar que toda essa geração de conhecimento não ficará represada apenas nas datas de eventos onde o assunto será discutido, mas contará com visitas em todas as associações participantes. O objetivo é entender as necessidades específicas de cada região e assim adaptar as ferramentas de capacitação da melhor maneira possível.

Segundo Sol
A ideia abstrata da chegada de um segundo sol nos remete a imaginar a vinda de outras opiniões, a quebra de verdades absolutas. O novo Consecana precisa ser visualizado pelos atores do setor como essa filosofia. Em algum momento será necessário deixar o trabalho individual de lado e procurar o vizinho, principalmente no caso dos pequenos e médios produtores, a fim de aumentar a escala de produção. Com isso, cada membro dessa aliança se especializará em uma fase da lavoura,assim como uma empresa conta com seu corpo de executivos.

Os grandes voltarão a dar valor às associações, pois somente elas contarão com universo de conhecimento, dados e possibilidades de interação, as quais sem elas será impossível sobreviver no mercado.

Os arrendamentos deixarão de ser um bom negócio, estimulando fornecedores que saíram do negócio a voltar para, quem sabe, tornarem-se possíveis grandes produtores, condomínios rurais e até mesmo profissionais interessados em entrar nesse mundo poderão gerir essa terra que hoje, em sua grande maioria, é cultivada pelas unidades industriais.

Neste cenário, a unidade industrial poderá ter a tranquilidade de deixar toda a sua parte agrícola na mão de produtores e fornecedores profissionais totalmente integrados ao seu processo e, com isso, concentrar esforços em ganhos industriais.

“Se não nos permitirmos mudar, não podemos cobrar no futuro o resultado das mudanças”", finaliza Albano.
 
 

Fonte: Revista Canavieiros

Consecana: revisão de postura

26/03/2018

Por: Marino Guerra

Todos os envolvidos com a cadeia sucroenergética sabem da imensa transformação que ela sofreu desde o começo do século. Olhar para a produção de cana, açúcar e álcool no final da década de 90, cerca de 20 anos atrás, nos dá a percepção de um setor totalmente encapsulado em relação ao que é hoje.

Naquela época haviam verdadeiros exércitos de “boias frias” nos canaviais colhendo a cana queimada. A cena causava a ira da população urbana em relação à poluição, sem contar a informalidade trabalhista que também refletia nos índices de desenvolvimento humano das regiões. O assunto gerava pautas saborosas para a imprensa deixar a opinião pública da atividade em patamares iguais aos índices de aprovação de presidentes e presidenciáveis.

Olhar para os produtos entregues pela indústria também mostra o tanto que essa viagem está acelerada. Não estava implantada, em escala comercial, a tecnologia flex, os motores ou eram a álcool ou à gasolina. A ideia de que uma unidade industrial poderia queimar o seu bagaço para fornecer energia elétrica à rede ainda era fala restrita aos mais visionários do segmento.

O objetivo desse texto não é enumerar cada avanço, em cada ponto. Para isso seria necessário escrever um livro e, com certeza, ele estaria desatualizado ao final da empreitada. Há uma enxurrada de inovações que estão chegando para transformar ainda mais o setor que outrora era conhecido por ser de senhores de engenho. Hoje, graças a evolução, o setor é aclamado por lideranças mundiais com uma das atividades agrícolas mais sustentáveis do globo.

Porém, todo esse enunciado foi escrito para o leitor entender, e nesse caso a conversa vai no pé do ouvido do produtor e fornecedor de cana, de que em cima de todo esse dinamismo, não somente o modo como ele apura o preço da sua produção, mas como ele a executa, precisa acompanhar o “trem”.

Assim, a Orplana desenvolveu o Consecana Pro-Int (Produtor Integrado), onde apoiado em um audacioso planejamento estratégico, pretende trazer para cada propriedade a concepção de que é preciso acompanhar a marcha evolutiva, caso contrário as perdas de oportunidades serão imensas e decisivas para definir quem sobreviverá no negócio.

Impasse
Em primeiro lugar, o produtor precisa compreender como funciona a dinâmica de revisão do Consecana (Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo), órgão que envolve produtores e fornecedores e indústrias na apuração do valor da matéria-prima. O seu estatuto reza que sejam feitas atualizações periódicas, até mesmo em razão de defasagem da metodologia, a cada cinco anos. Ao longo de sua história, o sistema passou por esse processo duas vezes, em 2005 e 2011.

Seguindo a ordem natural das coisas, no mais tardar, em 2016, mais uma revisão deveria ter acontecido. Os estudos para a adaptação de alguns parâmetros, o que deixaria mais real a participação da matéria-prima no resultado final obtido pela indústria (venda de açúcares e etanóis), indicavam uma defasagem próxima de 15%. Número muito bom para o produtor e fornecedor de cana, afinal de contas quem não quer receber essa porcentagem de aumento em seu salário; porém não houve consenso, e então um impasse estava instalado. De um lado, o produtor e fornecedor de cana ciente de sua atividade antieconômica e, de outro, o setor industrial com um alto grau de endividamento, verificando que qualquer reajuste que se fizesse, o impacto seria em 100% da cana entregue devido ao preço da expansão do setor de quinze anos para cá.

Nessa época ocorreu a mudança no foco da questão e a compreensão de que não teria como fundamentar um novo cálculo de matéria-prima toda vez que um novo produto fosse desenvolvido, o que inviabilizaria qualquer planejamento em pesquisa e desenvolvimento - uma verdadeira heresia em tempos de economia 4.0.

Com a esperança de que a ruptura na filosofia antiga do método fosse a chave da questão na solução do impasse, foi desenvolvido um grupo de estudos para avaliar os processos e a busca de redução de custos e melhoria na entrega e com isso, desenvolver uma proposta para um complemento do Consecana.

A primeira percepção se deu através da análise do processo de colheita mecanizada de cana, onde os próprios produtores que se destacavam em algum momento- como, por exemplo, em tornar o processo de colheita mais econômico por ter feito linhas mais adaptadas à passagem da máquina, reduzindo o declive através da implantação de curva de nível; a entrega de cana com baixo índice de impurezas tanto vegetal como mineral e até mesmo o simples fato de estar mais próximo da unidade industrial -, já recebiam um bônus como premiação, além da base média estabelecida pelo Consecana.

Isso funcionaria como um mercado spot de bonificações para os produtores que de alguma maneira conseguissem provar valores referentes à sua eficiência para a unidade industrial.
Diante desse cenário, foi feito um estudo dessas práticas e desenvolvida a proposta do Consecana Pro Int, onde os valores adicionais ao atual formato do Consecana (que será mantido) serão apurados como base em um conjunto de ações baseadas dentro de uma estrutura meritocrática que proporcionará valor à operação industrial.

“O produtor consegue entregar a cana com um custo mais baixo por ter estrutura própria ou monitoramento de CTT (corte, transbordo e transporte) terceirizado, gerindo e reduzindo custos neste processo ou por ter planejamento varietal aliado à colheita na época certa,algo que pode lhe render uma produção de açúcar espetacular. Resumindo, quanto mais envolvido ou integrado ele estiver na relação de produção, venda e entrega da matéria-prima, mais ele será valorizado”, disse o gestor executivo da Orplana e um dos profissionais ligados umbilicalmente na realização desse projeto, Celso Albano.

Uma primeira confusão dos agricultores quando tomam ciência do projeto é sobre a falta de liberdade que esse terá para negociar a sua produção. Nesse ponto é preciso deixar claro a diferença entre integralidade e exclusividade. O que está no novo texto diz simplesmente que no momento de negociação de sua cana, ao fechar o contrato, quanto mais integrado, ou seja, quanto mais controle e entendimento dos processos, maior será o seu ganho. Se não cumprir com nada, receberá conforme a circular do Consecana, como já acontece hoje.

Multicolorido
Na masmorra que o tempo e a crise trataram de aprisionar o Consecana fez com que o produtor e fornecedor desenvolvesse uma visão monocromática onde era possível enxergar apenas o número do ATR como resultado, de uma forma maquiavélica adaptada ao mundo rural, o fim (quantidade de açúcar) justificava o meio (plantio, tratos, colheita, transporte e qualquer outro processo da lavoura).
No entanto, o método adicional de apuração do valor da matéria-prima veio para trazer cores a esse cenário mostrando que é possível ganhar mais respeitando conceitos de reconhecimento, eficiência e qualidade.

Para ilustrar o conceito de reconhecimento, imagine o produtor que tem contrato para entregar a cana com uma unidade industrial, cumprindo com um acordo que definirá previamente a quantidade de matéria-prima a ser entregue todos os meses.Isso fará com que a indústria consiga montar um plano orçamentário mais assertivo com relação ao seu ritmo de moagem, gerando valor à sua operação, principalmente pela previsibilidade que terá na produção e na consequente segurança em operações de venda a mercado futuro para o açúcar, por exemplo.

Reconhecendo a importância do produtor e fornecedor nesse mecanismo, o mesmo passa a receber parte desse valor, lembrando que todas recomendações e formas de pagamentos serão discriminadas no documento a ser anexado ao Consecana, caso o consenso entre produtores e fornecedores de cana e indústrias ocorra.

Outro exemplo de reconhecimento de valor é sobre as normas, principalmente trabalhistas e ambientais, já que cada vez mais o mercado final, em especial o externo, exige uma rastreabilidade ou compliance que obriga as empresas a investirem em departamentos, recursos humanos e equipamentos para auditar toda a área rural, não importando se é de origem própria ou de terceiros. Um produtor fornecedor que consiga seguir todas as regras da boa gestão de sua cana, com certeza reduzirá custos para a execução desse serviço, gerando valor e recebendo por isso.

Albano faz questão de deixar claro que o produtor é livre para aceitar ou não cada processo. “Principalmente no caso do produtor spot, que tem duas, três ou até mesmo quatro usinas em sua volta. Nesse caso, ele não tem com o que se preocupar, vai continuar a fazer um leilão de sua matéria-prima, é um privilegiado. Existe ainda muita confusão ao achar que esse novo modelo será uma imposição, é preciso frisar que é uma alternativa e que apenas estamos criando uma metodologia para formalizar o que já é praticado na praça”.

A eficiência será a segunda base que o fornecedor de cana deverá se pautar para aumentar seus ganhos. Antes de entrar em exemplos práticos é preciso recorrer aos livros de administração de empresas para entender o conceito desse termo: o primeiro detalhe que precisa ficar claro é que eficiência é algo a mais que eficácia, que consiste em fazer as coisas de maneira correta. Os eficientes fazem sua atividade de maneira correta tendo sempre a obsessão em escalar sua produção utilizando menos recursos (insumos, tempo, maquinário, pessoas), aliando-se ainda ao princípio da efetividade, sustentável e duradouro no negócio da cana.

Entrando no carreador, o executivo da Orplana aponta que hoje existem diversos tipos de fornecedores de cana, desde aqueles que recebem um canavial pronto e fazem apenas os tratos culturais, terceirizando as operações de plantio e colheita e com um controle mínimo sobre sua operação. Dentro dessa nova visão do negócio, esse perfil é identificado como básico.

A partir do momento que ele se desenvolve um pouco mais, a tendência natural dessa expansão é focar na operação de plantio. Com isso terá que administrar o trato varietal de seu canavial e o uso de outros insumos, fazendo um planejamento que lhe garante atingir níveis de excelência quanto a curva de entrega ótima da cana.

Vale esclarecer que em um primeiro momento não será necessário realizar grandes alavancagens em máquinas modernas. Todos sabem que o produtor básico de cana não terá grandes frentes de plantio de quarta para quinta-feira, porém o que o novo Consecana pretende estimular é que ele (produtor) entre na gestão da atividade, mesmo ela sendo terceirizada, que busque informações sobre variedades, planeje a época de plantio e como será a operação. Dessa forma terá ganhos além do diferencial relacionado a nova proposta e abrirá mais duas novas fontes de renda ou de economia planejada, onde se destacam a primeira na taxa de açúcar da cana e a segunda na queda de custos.

O próximo passo na escalada evolutiva é atingir o processo de colheita, onde novos desafios, principalmente ligados a gestão de máquinas, oficina e logística terão que ser encarados. No momento em que passar a executar também o serviço de transporte -o que não é uma etapa simples, pois se trata praticamente da abertura de um novo negócio tamanha a complexidade de desenvolvimento de uma logística rodoviária eficiente -, o produtor atinge o limiar de sua atividade.
O último ponto para a evolução na renda é simplesmente a consequência dos dois aspectos anteriores, pois quem conseguir o reconhecimento e praticar os aspectos de integração com a usina, evoluir no sentido da meritocracia pela eficiência na ampliação e gestão de sua atividade, dificilmente chegará na usina com uma cana suja, cheia de impurezas e com uma matéria-prima de baixa qualidade. Percebe como tudo se encaixa?

Quer seja produtor básico, produtor intermediário, produtor integral ou produtor completo, todos estarão na balança do mérito pela eficiência, pelo reconhecimento e pela qualidade.

Cabe a cada um com controle, monitoramento e ferramentas de gestão produtiva e administrativa buscarem eficácia, eficiência e efetividade.

Conhecimento
O leitor deve estar se perguntando, tudo muito engenhoso, tudo muito bonito, mas para acontecer toda essa mudança é preciso investimento e todos sabem que o setor se encontra em uma situação grave de endividamento. Se o cobertor está curto para todos, como essa conta será paga?

A Orplana conhece muito bem a fase que os canaviais atravessam, sabe de seu envelhecimento, que a produtividade anda há tempos a passos de siri e que a retomada tão esperada está para acontecer, mas ainda não chegou.
Porém, a grande sacada do projeto do novo Consecana é agregar um capital de enorme valor, mas que não exige grande investimento, mas sim conhecimento.
Com isso está em fase final de implantação o projeto “Muda Cana”, que será uma verdadeira Business School para quem está ligado ao associativismo canavieiro.
“No Muda Cana nós colocamos o conhecimento como o nosso compromisso.
Vamos capacitar os produtores para melhorar a sua gestão, melhorar seus índices de produtividade, melhorar a sua performance na administração do seu negócio, adequação em relação a risco, em relação ao entendimento do comércio da sua matéria-prima perante o modelo que é o Consecana. Quando essa transformação acontecer, o associado passará a ser mais disputado pelas usinas”, explica Albano.
A ideia do projeto é fazer com que o produtor atinja um nível de excelência em sua atividade que o deixe pronto para conquistar uma eventual certificação de qualidade. O que será uma verdadeira revolução em se tratando de planejamento para uma unidade industrial.

Como exemplo de impacto monetário real que essa mudança pode causar, Albano cita: “Com a informação de onde e quanto o produtor estima de entrega mensal ou diária ao longo da safra, evitará problemas gravíssimos como o de uma usina parada, que gera custos entre R$ 20 a R$ 80 mil por dia. Ao conhecer as fatias que formarão o grande bolo de entrega a cada mês ou até mesmo de toda a safra, através do planejamento, ele conseguirá mitigar esse prejuízo. Outra questão é a quantidade de impurezas da matéria-prima. Uma cana entregue com muita palha, pode perder açúcar do caldo, e se entrar com muita sujeira mineral, com certeza terá impacto no processo de deterioração dos componentes industriais”, pontua.

Funcionamento
Quem sustentará o Muda Cana? Será a usina? Não! Não será a usina, não serão as associações e não haverá aumento na taxa de recolhimento. Para entender como ele será sustentado é preciso conhecer a história de sua criação.

Tudo começou em 2013, quando a Orplana buscou entender a necessidade dela própria, das associações que a compõe e da base de produtores e fornecedores em executar um plano estratégico de longo prazo no sentido de buscar uma profissionalização. Para isso foi contratado o professor da FEA-USP e colunista da Revista Canavieiros, Marcos Fava Neves, que executou a função através da Markestrat (Centro de pesquisa e projetos em marketing e estratégia), que elaborou 19 projetos ao longo de 10 anos, buscando entender as bases através de uma poderosa ferramenta de diagnóstico e estratégia que foi o “Caminhos da Cana” que terminou no final de 2017, totalizando quatro anos de transmissão da mensagem associativista, 1.000 questionários preenchidos, 40.000 km percorridos, 80 municípios visitados e uma real visão da realidade do produtor de cana.

Já com esse processo de profissionalização funcionando a plenos pulmões dentro da própria organização, chegou o momento de replicar o avanço para as associações e associados, sendo esse o estopim para o nascimento do “Muda Cana”, que acabou ganhando muito mais força a partir da mudança de foco em relação ao Consecana.

No entanto, a Orplana não conseguiria tocar o projeto sozinha, até porque em sua história nunca teve uma pegada voltada à capacitação. Sendo assim,a entidade buscou,mais uma vez, o apoio da Markestrat para a coordenação das disciplinas a serem proferidas e somou ao trazer o Solidaridad Network (organização do terceiro setor que atua em diversos países e várias cadeias de atividades agropecuárias diferentes). Sua atuação específica no setor sucroenergético consiste na capacitação e busca pela sustentabilidade dos produtores e fornecedores de cana através de ferramentas digitais e parcerias institucionais, destacando-se os programas Elo, da Raízen, e Muda Cana, da Orplana.

Com as cabeças pensantes unidas foi desenhado o escopo de todo o projeto e definido que a sustentação financeira do mesmo partiria da implantação de uma política de marketing de relacionamento, no qual empresas interessadas no desenvolvimento do produtor e fornecedor de cana patrocinariam a empreitada. 

Depois de um ano e meio batendo na porta de diversas empresas dos mais variados segmentos, foi viabilizada a implantação do Muda Cana. A expectativa é de que entre em funcionamento até o final do primeiro trimestre de 2018.

A base curricular do programa será dividida em três diretrizes. A primeira se trata do ganho de produtividade com sustentabilidade, onde o objetivo é que o produtor consiga enxergar quais são os riscos de seu negócio, como evoluir sob o ponto de vista da eficiência e as formas de não apenas permanecer nele, mas também de crescimento.

A segunda diretriz focará nos aspectos comerciais da atividade e em fazer o aluno dominar toda a sistemática do processo de comercialização da matéria-prima, e a partir de aí transmitir conhecimentos sobre a gestão do mesmo. A última é transformar o agricultor em um agroempresário do ponto de vista de gestão e controle do negócio, na qual serão transmitidas noções de processos perante o perfil de cada associado. “Não importa que o fornecedor tenha 5 hectares de terra. Ele tem que entender que é um microempresário”, afirma Albano.

Baseada nesse tripé foi realizada a grade curricular, onde cada módulo será criado respeitando o nível do perfil do produtor, levando em consideração aspectos de conhecimento, tamanho e região. A ideia é que o produtor cresça de turma na mesma proporção de evolução de seu negócio, ou seja, a sua nota final será o seu resultado em uma safra. O Muda Cana será a maior plataforma de EAD(Ensino a Distância) voltado para produtores rurais em todo o mundo.

O Muda Cana também irá utilizar uma ferramenta digital de acompanhamento de práticas agrícolas complementares a base curricular. Trata-se de um aplicativo que os produtores podem baixar em seu celular e se cadastrar gratuitamente.

Feito isso, eles poderão avaliar seu negócio nos aspectos de produção, ambiental, econômico e social em um ambiente digital que fornecerá orientações para a melhoria contínua de sua propriedade. Dentro do aplicativo, o produtor também poderá acessar a biblioteca de boas práticas, receber notícias atualizadas sobre os temas de interesse e compartilhar suas melhorias com os outros produtores. Essa ferramenta, chamada de FarmingSolution, está sendo desenvolvida pela Solidaridad e será utilizada no Muda Cana e em outros projetos apoiados pela organização.

Vários mundos
Hoje, ao percorrer os açougues de uma cidade com média de 100 mil habitantes no interior de São Paulo é possível encontrar estabelecimentos completamente diferentes: há aquele tradicional, onde o dono faz a desossa da carcaça e os pedaços são separados e vendidos praticamente de maneira fresca. Existem também as casas de carnes que trabalham um pouco mais a carne, vendendo peças a vácuo, já temperadas, em espetinhos, e até mesmo já assada, principalmente nas manhãs de domingo.

Recentemente, com o advento da pecuária intensiva e a introdução de novas raças é fácil encontrar em um município desse porte os chamados shoppings da carne, que geralmente vendem cortes diferenciados da própria produção em um ambiente que permite o cliente consumir o produto “in loco” acompanhado de uma saborosa bebida especial.

Essa variação não é exclusividade dos comerciantes de carne, sendo possível um comparativo entre padarias, supermercados, farmácias e até mesmo empresas que fazem parte da mesma rede e que possuem as suas peculiaridades. Com o avanço da tecnologia, se tornou viável o desenvolvimento de atividades que atendam o ambiente de maneira mais personalizada se comparado com o início da industrialização em massa onde as ferramentas e informações eram todas padronizadas.

Sendo assim, a atividade de cultivar cana-de-açúcar não poderia ser diferente. Hoje encontram-se produtores considerados pequenos que desenvolvem o seu negócio através da integração de sua propriedade com outras atividades (piscicultura, pecuária, produção de grãos na rotação, eucaliptos, apicultura, entre outras). Outros conseguem aumentar a rentabilidade se unindo com vizinhos e formando condomínios rurais, sendo verdadeiros exemplares do que deverá ser a atividade no futuro.

Para se ter noção de quanto heterogêneos são os fornecedores de cana, se pegarmos dois produtores que tenham um canavial de 150 hectares, um será considerado pequeno no Mato Grosso do Sul e o outro médio na região de Ribeirão Preto.

Entender todo esse universo é fundamental para a Orplana implementar o Muda Cana e fará com que os produtores melhorem sua eficiência na atividade e passem a elevar seus ganhos através do Consecana Pro-Int.

A complexidade - que com o passar dos anos deve aumentar ainda mais -, desse público obrigou a instituição a criar o projeto “Segmentação”, que consiste na criação de um banco de dados que catalogará as mais diferentes modalidades de produtores e fornecedores de cana associados e, principalmente, quais são as maiores necessidades de cada um.

Além de conseguir entender as realidades, esse projeto visa organizar um relevante número de informações processuais do campo. Através dele será possível obter conclusões valiosas para cada produtor, como explica Albano:

“Em parceria com o Pecege estamos desenvolvendo um painel de custos de produção, onde cada produtor saberá os seus números como, por exemplo, o valor da cana posta na usina, não importando se ele está executando todas as fases do CTT ou terceirizando, na qual ele poderá ter o comparativo de quanto foi o seu resultado final. Ao abrir essa planilha, ele saberá trabalhar os custos ou então se adequar dentro do novo Consecana para aumentar a sua margem. Não é investimento, é pura gestão. O projeto tem como meta entender a base buscando a solução certa para cada segmento diferente."

Muita prosa
O que você quer que seu filho, ou as crianças de sua família, sejam no futuro? Se essa pergunta for feita para qualquer pessoa, as respostas serão variadas entre ser feliz e obter sucesso profissional.

Cada vez mais é perceptível para a sociedade que atingir a felicidade e também ter uma carreira de sucesso está inerente a conseguir se desenvolver socialmente.
Pensando no fornecedor do futuro, a Orplana não poderia deixar um vácuo em seu planejamento estratégico que seria o não desenvolvimento de um projeto que aumente a network, a troca de ideias, a boa e velha prosa entre as associações e seus associados.

Assim desenvolveu uma carregada agenda de eventos que vão desde a atualização de aspectos conjunturais do setor, como o RenovaBio, até assuntos técnicos que levarão conhecimentos para melhorar a rotina de trabalho dos produtores e fornecedores.

Na agenda de 2018 estão a manutenção de iniciativas já consolidadas, como o Fórum do Produtores de Agroenergia, que acontece durante a Fenasucro&Agrocana, no segundo semestre. Devido ao grande sucesso do ano passado, o mesmo evento também ganhará uma edição na primeira metade do ano, que acontecerá no último dia do “Agroencontro”, evento promovido pela Ouro Fino. A Orplana coordenará um painel diário que contará, a cada dia, com a participação de uma cooperativa madrinha e suas associações coligadas. Nesse espaço será apresentada a visão de cada liderança a respeito do tema “O futuro do produtor de cana”. 

Para fechar a pauta de eventos de 2018 será colocado em ação o “Agrocana Road Show”, sequência de um encontro por mês onde acontecerão palestras temáticas, como condomínio rural, agricultura de precisão, gestão da informação, RenovaBio sob o aspecto do produtor, tendência da mecanização da cana, entre outros. Vale citar que toda essa geração de conhecimento não ficará represada apenas nas datas de eventos onde o assunto será discutido, mas contará com visitas em todas as associações participantes. O objetivo é entender as necessidades específicas de cada região e assim adaptar as ferramentas de capacitação da melhor maneira possível.

Segundo Sol
A ideia abstrata da chegada de um segundo sol nos remete a imaginar a vinda de outras opiniões, a quebra de verdades absolutas. O novo Consecana precisa ser visualizado pelos atores do setor como essa filosofia. Em algum momento será necessário deixar o trabalho individual de lado e procurar o vizinho, principalmente no caso dos pequenos e médios produtores, a fim de aumentar a escala de produção. Com isso, cada membro dessa aliança se especializará em uma fase da lavoura,assim como uma empresa conta com seu corpo de executivos.

Os grandes voltarão a dar valor às associações, pois somente elas contarão com universo de conhecimento, dados e possibilidades de interação, as quais sem elas será impossível sobreviver no mercado.

Os arrendamentos deixarão de ser um bom negócio, estimulando fornecedores que saíram do negócio a voltar para, quem sabe, tornarem-se possíveis grandes produtores, condomínios rurais e até mesmo profissionais interessados em entrar nesse mundo poderão gerir essa terra que hoje, em sua grande maioria, é cultivada pelas unidades industriais.

Neste cenário, a unidade industrial poderá ter a tranquilidade de deixar toda a sua parte agrícola na mão de produtores e fornecedores profissionais totalmente integrados ao seu processo e, com isso, concentrar esforços em ganhos industriais.

“Se não nos permitirmos mudar, não podemos cobrar no futuro o resultado das mudanças”", finaliza Albano.