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http://www.rossam.com.br/index.html
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http://site.orplana.com.br/pages/caminhos-da-cana-2017/

Dr. Cana

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Agronegócio

02/01/2019
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Por: Marino Guerra


Exercer a medicina é com certeza uma prática que envolve riscos, isso porque um diagnóstico errado, um medicamento mal prescrito ou um momento de desatenção na hora de executar um corte com o bisturi podem levar a complicações seríssimas.
Saber trabalhar com o risco também é uma característica de todo agricultor, pois assim como o corpo humano, o campo depende de diversos fatores para no final da safra apresentar resultados positivos, que nesse paralelo poderia ser comparado com a cura de uma doença.

Porém, as duas profissões se distanciam quando observado que o trabalho de um médico não demanda tanta estrutura, lógico que, ainda mais nos dias de hoje, há um grande aparato de ferramentas e equipamentos, mas esse número é mínimo se comparado com a agricultura, a qual abrange grandes áreas e, consequentemente, necessita de grandes máquinas e quantidade de materiais.

Diante desse raciocínio, ao conhecer a carreira do dr. Antonio Sergio Cury, que trocou a medicina pela agricultura depois de 13 anos vestindo branco, se evidencia algo mágico, que é a implantação de conceitos médicos em um ambiente agrícola.

Para entender melhor essa alquimia é necessário voltar ao ponto de mudança, em que o jaleco entrou e a botina saiu de seu armário. O ano exato foi 1992, quando foi tomada a decisão de implantar um canavial em uma região dominada por algodão, soja e pecuária, se tornando o primeiro fornecedor de cana de Ituverava.

Ilhado, seu primeiro desafio foi encontrar um fornecedor de insumos que estivesse em paralelo com a cultura, pois quando ele precisou de adubos ou defensivos, os estoques das cooperativas, focadas em outras atividades, eram baixos. Esse fato também acabava com a competitividade de preços e prazos para pagamento.

O remédio foi procurar a filial da Copercana em Pitangueiras, há cerca de 115 km de distância, onde encontrou, através do atendimento do representante técnico Carlos Abel Madeira, o apoio que precisava para seu desenvolvimento.

Prova de que o casamento entre a cooperativa e o produtor foi bem-sucedido é de que ele permaneceu isolado na área por pelo menos 14 anos, quando, com a quebra da soja e a saída de um importante grupo algodoeiro, os produtores da região passaram  a substituir suas lavouras por canaviais.

Meiosi
Trazendo a forma de grafia das especialidades médicas para o mundo canavieiro, não é exagero nenhum dizer que o dr. Cury é um meiosiologista, isso em decorrência dos 16 anos que trabalha com a técnica de plantio.
Hoje, principalmente no círculo dos fornecedores de cana, ainda existe muito receio sobre o tema, porém quando o produtor começa a explicar como faz, deixa transparecer seu lado médico lembrando muito um profissional da saúde explicando para o paciente uma receita.

Nela ele prescreve o uso de MPBs em solos mais rigorosos, enquanto que para ambientes melhores é recomendado o uso de toletes (filhos das MPBs). Além do ambiente, muitas outras variáveis também influenciam nessa escolha, como por exemplo o déficit hídrico da região, pois nos toletes, como a muda está protegida por uma estrutura úmida, são capazes de enfrentar ambientes com menos água.

Outra terapia recomendada é a respeito do manejo no plantio, tanto para a desdobra como para formar as linhas, o qual considerando a questão da eficiência, o manual é imbatível.

No preparo de solo, sua posição é formar linhas-mãe através do uso de GPS, local onde vai eliminar as soqueiras, gradear e subsolar. “Preciso de uma linha de meiosi muito bem instalada”. Em áreas muito praguejadas, ele recorre a uma operação de pré-plantio incorporado (PPI), que consiste no uso de herbicidas agregados ao solo, já em talhões limpos é feito o plantio direto.

A estratégia acima somada ao plantio nivelado, sem quebra-lombo, elimina uma segunda aplicação de herbicida na área, o que poupa energia da planta ao não precisar metabolizar o defensivo, além de toda a redução de custo operacional.

Sobre fazer uso de linha simples ou dupla, sua visão é também bastante prática, “quando você faz uma linha até consegue uma taxa de reprodução maior, o famoso 1 para 10, isso porque os dois lados da cana recebem banhos de sol o dia todo. Na linha dupla ele atinge a planta ou pela manhã ou à tarde. Mas o que eu vejo são os problemas na hora da distribuição, porque com uma linha teoricamente metade vai para o lado esquerdo e a outra para o direito, porém se o trabalho operacional não for muito bem feito, falhas ocorrerão. Sendo assim, eu prefiro não arriscar e plantar em duas linhas garantindo a desdobra para apenas um lado”.

Diante dessa explicação é lógico imaginar que conseguir bater recorde na desdobra não é seu objetivo, com isso ele acaba colocando um pouco mais de cana que o recomendado (apenas uma) na cova, resultando em desdobras entre 1 para 5 e 1 para 8 linhas. “Se você coloca uma cana só é preciso colocar na ordem de pé com ponta, o que exige precisão operacional maior”.

Seguindo essa receita mais rústica, o dr. Cury garante que é possível a adoção da meiosi por qualquer fornecedor de médio porte e afirma que quem entrar, depois de ver os resultados, dificilmente vai querer sair.

Plano varietal
Uma segunda receita do médico, essa bastante polêmica, é sobre a estratégia varietal que ele utiliza. Como detém uma área muito grande, por volta de três mil hectares, acaba entregando cana o ano inteiro, mas quando pode, vai contra pelo menos 90% do mundo canavieiro e concentra em variedades precoces.

Na justificativa pela escolha, além da alta produtividade dos exemplares dessa categoria, ele enxerga que ao retirar nos primeiros meses de safra, mesmo em anos de seca severa, ela sempre terá as melhores condições de umidade pensando na rebrota.
Nesse contexto, a sua campeã para o canavial de Ituverava é a IAC91-1099, uma variedade indicada para o corte em ambientes médios e restritivos na segunda quinzena de maio, enquanto que em situações melhores dá para tirar até em julho, vale lembrar que ela também é uma cana com ótima resposta ao uso de maturadores, bastante recomendado para o período.

Outra variedade que se destaca em solos ituveravenses é a RB96-6928, uma cana com recomendação de colheita bem no começo da safra (abril ou maio), identificada com ótima brotação (tanto em planta como soca) e perfilhamento, a qual tem sua curva de maturação muito parecida com a RB85-5156, porém com maior produtividade (toneladas de cana por hectare).

A RB96-6928 também se destaca na segunda unidade de cultivo tocada pelo dr. Cury, localizada em Minas Gerais, e que tem um solo mais restrito, além dela ele salienta também a SP83-2847, como uma variedade que está respondendo bem à missão de substituição da RB86-7515, isso pela sua capacidade de suportar esse tipo de ambiente.
Falando em RB86-7515, o agricultor a aponta como a única que ainda o impede de cumprir o teto de plantio de 10% da área com a mesma variedade, e o motivo disso? A falta de remédio no mercado ou o baixo número de opções para se utilizar em ambientes pesados.

Tática de defesa
Assim como um médico conclui seu diagnóstico baseado no resultado de exames, a forma com que é traçada a estratégia de defesa perante a concorrência das plantas daninhas também é pautada no resultado de um estudo (matologia), e com isso definidas quais moléculas de herbicida serão usadas a partir dos três ou quatro tipos de maior população.

Como dito anteriormente, o produtor foca no menor número de aplicações possíveis, “nos preocupamos sempre em escolher as moléculas mais eficientes para as daninhas apresentadas na matologia, perante isso e considerando o fato de fazermos o plantio sem quebra-lombo, sempre procuramos por uma aplicação única em área total, para posteriormente executarmos a identificação e controle dos escapes através de uma equipe que passa fazendo a catação a cada 30 dias, com isso estamos percebendo que as incidências estão reduzindo e consequentemente as doses também venham a ser menores. Faz mais de dez anos que adotamos essa tática e ela vem dando muito certo”.

Ele ainda relata como enfrenta a brachiaria na unidade de Minas Gerais, considerando que lá é área de expansão em cima de pastos, na qual é aplicada a trifluralina, herbicida indicado para uma grande gama de culturas anuais e perenes e que atua na pré-emergência das plantas daninhas, sendo recomendada sua aplicação em até três dias após o manejo de plantio.

Desde 2004 em solos mineiros, que são mais arenosos, o dr. Cury conclui que o tratamento de plantas daninhas é mais rápido que suas terras paulistas, mais argilosas.
Como se destacasse a página de seu receituário e então surgisse mais uma folha em branco, o médico agricultor dá mais uma receita, dessa vez de como enfrenta as pragas da moda (cigarrinha e broca), a qual combate através do desenleiramento de 100% da área logo após a colheita acrescido de tratamento químico, não deixando um resultado extremamente limpo, mas que, perante a realidade, o deixa satisfeito.

Controle de incêndios
A prevenção faz parte do DNA de todo profissional de saúde, e ela não poderia ficar de fora em uma das principais dores de cabeça dos produtores de cana-de-açúcar atualmente, os incêndios. Na roça do dr. Cury, os aceiros seguem exatamente as recomendações da cartilha, no entanto o ponto crucial que ele aponta é a questão da bordadura das matas, “investimos muito nos quatro últimos anos na eliminação dos contaminantes, porque às vezes temos um aceiro muito bacana, porém tem uma borda lotada de capim colonião, ou seja, não adianta nada, já que na época da seca aquilo vai virar uma pólvora”.

Esse trabalho consiste em manter os carreadores limpos, as divisas bem-feitas, e não deixar mato seco nas bordaduras. Mesmo com todo esse investimento, ele ainda correu o risco, há algumas safras atrás, de ver sua sede (que é a base de todo o sistema nervoso da operação), ser exaurida pelo fogo em um grande incêndio que o atingiu advindo da vizinhança através de uma forte ventania.

Ainda sobre o tema, ele enumera os efeitos colaterais (prejuízos) causados pelo fogo, além do comprometimento de toda a programação de colheita da cultura, tem a questão da perda dos adubos e defensivos aplicados.

Ninguém é especialista em tudo
A complexidade do corpo humano ensina às pessoas que dedicam sua vida profissional a estudá-lo e manejá-lo que é impossível alguém conhecê-lo a fundo, aí se explica o motivo para serem criados o número infinito de não apenas ramos da medicina, mas de profissões e terapias.

Com o fim do corte da cana queimada, dando espaço para a colheita mecanizada, executar todo o ciclo de um canavial também se tornou tarefa muito complexa e, diante da visão de que a dificuldade cria as especialidades, o dr. Cury optou por manter sua operação de colheita 100% terceirizada e sequer passa por sua cabeça se meter nessa área, “eu nunca fiz colheita, entrego a cana pronta no campo”.

Além disso, ele enxerga problemas na integração entre fornecedores e usina citando por exemplo casos como se todos decidissem partir para colheita de uma hora para a outra, quem iria arcar com o passivo gerado pelo maquinário parado que a indústria passaria a ter? “Imagina se todo mundo decidisse entregar a cana a hora que bem entendesse e, pior, se o fornecedor com contrato contemplando o pagamento mediante um ATR fixo colhesse totalmente fora do ponto de maturação”.

Quando questionado sobre os principais problemas relatados pelos produtores que têm a cana colhida pela usina, ele diz que o fornecedor precisa compreender quando não há cumprimento da programação da frente em decorrência de incêndio, além disso percebe grande e constante evolução na qualidade do serviço, “tem usina trabalhando muito bem, dando longevidade para o canavial, estou percebendo a melhoria a cada safra, cito como exemplo o trabalho no aumento das bitolas de tratores e transbordos com o objetivo de evitar pisoteio”.
E essa certeza não fica apenas na percepção, sabendo muito bem o quanto custa a reforma de um canavial, ele consegue medir os resultados através de um time de fiscais de colheita.

Números exatos
Assim como um hematogista conta a presença de cada tipo de glóbulo na corrente sanguínea, dr. Cury não deixa passar nenhum detalhe sem contabilizar em seu sistema. Logo que se chega à sede da fazenda dá para perceber que há algo de diferente, profissional, com funcionários uniformizados e dentro do imóvel se revela uma estrutura igual ao escritório administrativo de uma empresa da cidade, “não consigo assimilar a ideia de uma fazenda sem ser administrada como um negócio, aqui temos um software que faz toda a parte financeira e agronômica, então se eu quero saber o que eu plantei há cinco anos ou o que adubei na safra passada, tenho tudo registrado”.
Seu foco por construir uma gestão profissional está presente desde o primeiro dia que assumiu a nova profissão, “quando era médico não precisava de capital de giro, entrava em um hospital com receituário, caneta e carimbo e fazia miséria, nem passava pela minha cabeça me relacionar profissionalmente com banco, e me preocupar com juros e financiamento”.

Diante de tamanha organização, ele lamenta ainda não conseguir dar um zoom maior em sua estrutura de custo e ver seus resultados por talhão, isso porque no momento da colheita as informações referentes às canas ainda se confundem para esse recorte mais específico, por não ter essa organização, ele prefere manter suas contas por propriedade. Sempre preocupado com a impiedosa lei da tecnologia da informação: entra lixo, sai lixo.

Colesterol quase bom
Imagine que a produtividade de um canavial seja um exame de colesterol, e que para ele estar bom é preciso atingir as 100 toneladas por hectare. Nesse caso, o dr. Cury ocupa a cadeira do paciente e ao abrir o exame de sua safra passada, confiante em atingir o resultado almejado em decorrência de todas as boas práticas citadas acima, fica sabendo que faltou uma mísera tonelada para chegar à meta.

Essa foi a produtividade dele na safra passada, e diante da grave seca deste ano, ele imagina que esse número deva cair para cerca de 95. Nada que tire o seu sono ou que o leve para o hospital com uma ameaça de infarto, pois com toda a sua sabedoria ele sabe que a meta virá naturalmente, porque simplesmente faz tudo da maneira mais correta possível.

Fonte: Revista Canavieiros

Dr. Cana

02/01/2019

Por: Marino Guerra


Exercer a medicina é com certeza uma prática que envolve riscos, isso porque um diagnóstico errado, um medicamento mal prescrito ou um momento de desatenção na hora de executar um corte com o bisturi podem levar a complicações seríssimas.
Saber trabalhar com o risco também é uma característica de todo agricultor, pois assim como o corpo humano, o campo depende de diversos fatores para no final da safra apresentar resultados positivos, que nesse paralelo poderia ser comparado com a cura de uma doença.

Porém, as duas profissões se distanciam quando observado que o trabalho de um médico não demanda tanta estrutura, lógico que, ainda mais nos dias de hoje, há um grande aparato de ferramentas e equipamentos, mas esse número é mínimo se comparado com a agricultura, a qual abrange grandes áreas e, consequentemente, necessita de grandes máquinas e quantidade de materiais.

Diante desse raciocínio, ao conhecer a carreira do dr. Antonio Sergio Cury, que trocou a medicina pela agricultura depois de 13 anos vestindo branco, se evidencia algo mágico, que é a implantação de conceitos médicos em um ambiente agrícola.

Para entender melhor essa alquimia é necessário voltar ao ponto de mudança, em que o jaleco entrou e a botina saiu de seu armário. O ano exato foi 1992, quando foi tomada a decisão de implantar um canavial em uma região dominada por algodão, soja e pecuária, se tornando o primeiro fornecedor de cana de Ituverava.

Ilhado, seu primeiro desafio foi encontrar um fornecedor de insumos que estivesse em paralelo com a cultura, pois quando ele precisou de adubos ou defensivos, os estoques das cooperativas, focadas em outras atividades, eram baixos. Esse fato também acabava com a competitividade de preços e prazos para pagamento.

O remédio foi procurar a filial da Copercana em Pitangueiras, há cerca de 115 km de distância, onde encontrou, através do atendimento do representante técnico Carlos Abel Madeira, o apoio que precisava para seu desenvolvimento.

Prova de que o casamento entre a cooperativa e o produtor foi bem-sucedido é de que ele permaneceu isolado na área por pelo menos 14 anos, quando, com a quebra da soja e a saída de um importante grupo algodoeiro, os produtores da região passaram  a substituir suas lavouras por canaviais.

Meiosi
Trazendo a forma de grafia das especialidades médicas para o mundo canavieiro, não é exagero nenhum dizer que o dr. Cury é um meiosiologista, isso em decorrência dos 16 anos que trabalha com a técnica de plantio.
Hoje, principalmente no círculo dos fornecedores de cana, ainda existe muito receio sobre o tema, porém quando o produtor começa a explicar como faz, deixa transparecer seu lado médico lembrando muito um profissional da saúde explicando para o paciente uma receita.

Nela ele prescreve o uso de MPBs em solos mais rigorosos, enquanto que para ambientes melhores é recomendado o uso de toletes (filhos das MPBs). Além do ambiente, muitas outras variáveis também influenciam nessa escolha, como por exemplo o déficit hídrico da região, pois nos toletes, como a muda está protegida por uma estrutura úmida, são capazes de enfrentar ambientes com menos água.

Outra terapia recomendada é a respeito do manejo no plantio, tanto para a desdobra como para formar as linhas, o qual considerando a questão da eficiência, o manual é imbatível.

No preparo de solo, sua posição é formar linhas-mãe através do uso de GPS, local onde vai eliminar as soqueiras, gradear e subsolar. “Preciso de uma linha de meiosi muito bem instalada”. Em áreas muito praguejadas, ele recorre a uma operação de pré-plantio incorporado (PPI), que consiste no uso de herbicidas agregados ao solo, já em talhões limpos é feito o plantio direto.

A estratégia acima somada ao plantio nivelado, sem quebra-lombo, elimina uma segunda aplicação de herbicida na área, o que poupa energia da planta ao não precisar metabolizar o defensivo, além de toda a redução de custo operacional.

Sobre fazer uso de linha simples ou dupla, sua visão é também bastante prática, “quando você faz uma linha até consegue uma taxa de reprodução maior, o famoso 1 para 10, isso porque os dois lados da cana recebem banhos de sol o dia todo. Na linha dupla ele atinge a planta ou pela manhã ou à tarde. Mas o que eu vejo são os problemas na hora da distribuição, porque com uma linha teoricamente metade vai para o lado esquerdo e a outra para o direito, porém se o trabalho operacional não for muito bem feito, falhas ocorrerão. Sendo assim, eu prefiro não arriscar e plantar em duas linhas garantindo a desdobra para apenas um lado”.

Diante dessa explicação é lógico imaginar que conseguir bater recorde na desdobra não é seu objetivo, com isso ele acaba colocando um pouco mais de cana que o recomendado (apenas uma) na cova, resultando em desdobras entre 1 para 5 e 1 para 8 linhas. “Se você coloca uma cana só é preciso colocar na ordem de pé com ponta, o que exige precisão operacional maior”.

Seguindo essa receita mais rústica, o dr. Cury garante que é possível a adoção da meiosi por qualquer fornecedor de médio porte e afirma que quem entrar, depois de ver os resultados, dificilmente vai querer sair.

Plano varietal
Uma segunda receita do médico, essa bastante polêmica, é sobre a estratégia varietal que ele utiliza. Como detém uma área muito grande, por volta de três mil hectares, acaba entregando cana o ano inteiro, mas quando pode, vai contra pelo menos 90% do mundo canavieiro e concentra em variedades precoces.

Na justificativa pela escolha, além da alta produtividade dos exemplares dessa categoria, ele enxerga que ao retirar nos primeiros meses de safra, mesmo em anos de seca severa, ela sempre terá as melhores condições de umidade pensando na rebrota.
Nesse contexto, a sua campeã para o canavial de Ituverava é a IAC91-1099, uma variedade indicada para o corte em ambientes médios e restritivos na segunda quinzena de maio, enquanto que em situações melhores dá para tirar até em julho, vale lembrar que ela também é uma cana com ótima resposta ao uso de maturadores, bastante recomendado para o período.

Outra variedade que se destaca em solos ituveravenses é a RB96-6928, uma cana com recomendação de colheita bem no começo da safra (abril ou maio), identificada com ótima brotação (tanto em planta como soca) e perfilhamento, a qual tem sua curva de maturação muito parecida com a RB85-5156, porém com maior produtividade (toneladas de cana por hectare).

A RB96-6928 também se destaca na segunda unidade de cultivo tocada pelo dr. Cury, localizada em Minas Gerais, e que tem um solo mais restrito, além dela ele salienta também a SP83-2847, como uma variedade que está respondendo bem à missão de substituição da RB86-7515, isso pela sua capacidade de suportar esse tipo de ambiente.
Falando em RB86-7515, o agricultor a aponta como a única que ainda o impede de cumprir o teto de plantio de 10% da área com a mesma variedade, e o motivo disso? A falta de remédio no mercado ou o baixo número de opções para se utilizar em ambientes pesados.

Tática de defesa
Assim como um médico conclui seu diagnóstico baseado no resultado de exames, a forma com que é traçada a estratégia de defesa perante a concorrência das plantas daninhas também é pautada no resultado de um estudo (matologia), e com isso definidas quais moléculas de herbicida serão usadas a partir dos três ou quatro tipos de maior população.

Como dito anteriormente, o produtor foca no menor número de aplicações possíveis, “nos preocupamos sempre em escolher as moléculas mais eficientes para as daninhas apresentadas na matologia, perante isso e considerando o fato de fazermos o plantio sem quebra-lombo, sempre procuramos por uma aplicação única em área total, para posteriormente executarmos a identificação e controle dos escapes através de uma equipe que passa fazendo a catação a cada 30 dias, com isso estamos percebendo que as incidências estão reduzindo e consequentemente as doses também venham a ser menores. Faz mais de dez anos que adotamos essa tática e ela vem dando muito certo”.

Ele ainda relata como enfrenta a brachiaria na unidade de Minas Gerais, considerando que lá é área de expansão em cima de pastos, na qual é aplicada a trifluralina, herbicida indicado para uma grande gama de culturas anuais e perenes e que atua na pré-emergência das plantas daninhas, sendo recomendada sua aplicação em até três dias após o manejo de plantio.

Desde 2004 em solos mineiros, que são mais arenosos, o dr. Cury conclui que o tratamento de plantas daninhas é mais rápido que suas terras paulistas, mais argilosas.
Como se destacasse a página de seu receituário e então surgisse mais uma folha em branco, o médico agricultor dá mais uma receita, dessa vez de como enfrenta as pragas da moda (cigarrinha e broca), a qual combate através do desenleiramento de 100% da área logo após a colheita acrescido de tratamento químico, não deixando um resultado extremamente limpo, mas que, perante a realidade, o deixa satisfeito.

Controle de incêndios
A prevenção faz parte do DNA de todo profissional de saúde, e ela não poderia ficar de fora em uma das principais dores de cabeça dos produtores de cana-de-açúcar atualmente, os incêndios. Na roça do dr. Cury, os aceiros seguem exatamente as recomendações da cartilha, no entanto o ponto crucial que ele aponta é a questão da bordadura das matas, “investimos muito nos quatro últimos anos na eliminação dos contaminantes, porque às vezes temos um aceiro muito bacana, porém tem uma borda lotada de capim colonião, ou seja, não adianta nada, já que na época da seca aquilo vai virar uma pólvora”.

Esse trabalho consiste em manter os carreadores limpos, as divisas bem-feitas, e não deixar mato seco nas bordaduras. Mesmo com todo esse investimento, ele ainda correu o risco, há algumas safras atrás, de ver sua sede (que é a base de todo o sistema nervoso da operação), ser exaurida pelo fogo em um grande incêndio que o atingiu advindo da vizinhança através de uma forte ventania.

Ainda sobre o tema, ele enumera os efeitos colaterais (prejuízos) causados pelo fogo, além do comprometimento de toda a programação de colheita da cultura, tem a questão da perda dos adubos e defensivos aplicados.

Ninguém é especialista em tudo
A complexidade do corpo humano ensina às pessoas que dedicam sua vida profissional a estudá-lo e manejá-lo que é impossível alguém conhecê-lo a fundo, aí se explica o motivo para serem criados o número infinito de não apenas ramos da medicina, mas de profissões e terapias.

Com o fim do corte da cana queimada, dando espaço para a colheita mecanizada, executar todo o ciclo de um canavial também se tornou tarefa muito complexa e, diante da visão de que a dificuldade cria as especialidades, o dr. Cury optou por manter sua operação de colheita 100% terceirizada e sequer passa por sua cabeça se meter nessa área, “eu nunca fiz colheita, entrego a cana pronta no campo”.

Além disso, ele enxerga problemas na integração entre fornecedores e usina citando por exemplo casos como se todos decidissem partir para colheita de uma hora para a outra, quem iria arcar com o passivo gerado pelo maquinário parado que a indústria passaria a ter? “Imagina se todo mundo decidisse entregar a cana a hora que bem entendesse e, pior, se o fornecedor com contrato contemplando o pagamento mediante um ATR fixo colhesse totalmente fora do ponto de maturação”.

Quando questionado sobre os principais problemas relatados pelos produtores que têm a cana colhida pela usina, ele diz que o fornecedor precisa compreender quando não há cumprimento da programação da frente em decorrência de incêndio, além disso percebe grande e constante evolução na qualidade do serviço, “tem usina trabalhando muito bem, dando longevidade para o canavial, estou percebendo a melhoria a cada safra, cito como exemplo o trabalho no aumento das bitolas de tratores e transbordos com o objetivo de evitar pisoteio”.
E essa certeza não fica apenas na percepção, sabendo muito bem o quanto custa a reforma de um canavial, ele consegue medir os resultados através de um time de fiscais de colheita.

Números exatos
Assim como um hematogista conta a presença de cada tipo de glóbulo na corrente sanguínea, dr. Cury não deixa passar nenhum detalhe sem contabilizar em seu sistema. Logo que se chega à sede da fazenda dá para perceber que há algo de diferente, profissional, com funcionários uniformizados e dentro do imóvel se revela uma estrutura igual ao escritório administrativo de uma empresa da cidade, “não consigo assimilar a ideia de uma fazenda sem ser administrada como um negócio, aqui temos um software que faz toda a parte financeira e agronômica, então se eu quero saber o que eu plantei há cinco anos ou o que adubei na safra passada, tenho tudo registrado”.
Seu foco por construir uma gestão profissional está presente desde o primeiro dia que assumiu a nova profissão, “quando era médico não precisava de capital de giro, entrava em um hospital com receituário, caneta e carimbo e fazia miséria, nem passava pela minha cabeça me relacionar profissionalmente com banco, e me preocupar com juros e financiamento”.

Diante de tamanha organização, ele lamenta ainda não conseguir dar um zoom maior em sua estrutura de custo e ver seus resultados por talhão, isso porque no momento da colheita as informações referentes às canas ainda se confundem para esse recorte mais específico, por não ter essa organização, ele prefere manter suas contas por propriedade. Sempre preocupado com a impiedosa lei da tecnologia da informação: entra lixo, sai lixo.

Colesterol quase bom
Imagine que a produtividade de um canavial seja um exame de colesterol, e que para ele estar bom é preciso atingir as 100 toneladas por hectare. Nesse caso, o dr. Cury ocupa a cadeira do paciente e ao abrir o exame de sua safra passada, confiante em atingir o resultado almejado em decorrência de todas as boas práticas citadas acima, fica sabendo que faltou uma mísera tonelada para chegar à meta.

Essa foi a produtividade dele na safra passada, e diante da grave seca deste ano, ele imagina que esse número deva cair para cerca de 95. Nada que tire o seu sono ou que o leve para o hospital com uma ameaça de infarto, pois com toda a sua sabedoria ele sabe que a meta virá naturalmente, porque simplesmente faz tudo da maneira mais correta possível.